O lixo urbano como fronteira climática das cidades
Durante décadas, a gestão de resíduos foi tratada como um problema operacional, restrito a caminhões, aterros e contratos municipais. Hoje, ela surge como uma das frentes mais concretas e imediatas para o enfrentamento da crise climática nas cidades brasileiras. Um estudo recente da consultoria internacional S2F Partners mostra que municípios de médio porte podem reduzir em mais de um terço suas emissões de gases de efeito estufa apenas ao estruturar melhor o destino do lixo que produzem diariamente.

O levantamento aponta que cidades com cerca de 100 mil habitantes conseguem reduzir até 33,5% das emissões associadas aos resíduos sólidos ao adotar um modelo intermediário de gestão. Esse modelo inclui coleta universal, níveis ainda modestos de reciclagem e, sobretudo, destinação final em aterros sanitários com captação e queima do gás metano. O dado chama atenção porque revela que mudanças relativamente viáveis, sem exigir tecnologia de ponta, já produzem impacto climático significativo.
Em um país majoritariamente urbano, onde mais de 85% da população vive em cidades, o lixo deixa de ser apenas um passivo ambiental e passa a ocupar papel estratégico na transição para economias urbanas de baixo carbono.
Do lixão ao aterro: o peso das escolhas municipais
A diferença entre um lixão a céu aberto e um sistema minimamente estruturado de destinação de resíduos vai muito além da paisagem. Lixões e aterros sem licenciamento ambiental liberam grandes volumes de metano diretamente na atmosfera, um gás com potencial de aquecimento global dezenas de vezes superior ao dióxido de carbono no curto prazo. Além disso, produzem chorume sem tratamento, contaminam o solo e os lençóis freáticos e se tornam focos de doenças.
Para Marçal Cavalcanti, presidente da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (ANAMMA), esse cenário representa uma ameaça direta à saúde pública e à sustentabilidade urbana. Segundo ele, a ausência de tratamento adequado de gases e líquidos nos locais de destinação final cria um ciclo de degradação ambiental difícil de reverter, com custos sociais e econômicos elevados.
O estudo da S2F Partners classifica como gestão intermediária aquela que combina coleta universal, cerca de 6% de reciclagem e aterros sanitários com captação de biogás. Já os sistemas avançados incluem maior recuperação de materiais recicláveis, tratamento mais eficiente de resíduos orgânicos e uso energético do metano captado. Nesses casos, a redução de emissões pode chegar a 61,7%, um número que rivaliza com políticas climáticas muito mais complexas e onerosas.

VEJA TAMBÉM: Maranhão lança Conexão Resíduos para combater lixões e fortalecer municípios
Descarbonizar cidades começa pelo lixo
Para Carlos Silva Filho, sócio da S2F Partners e membro do conselho da Organização das Nações Unidas (ONU) para resíduos, os resultados do estudo confirmam algo que gestores públicos começam a perceber com mais clareza: a gestão adequada dos resíduos sólidos é uma das ferramentas mais eficazes para a descarbonização urbana.
Segundo ele, ao controlar o metano gerado pela decomposição do lixo, as cidades não apenas reduzem emissões, mas também criam oportunidades econômicas. A captação e a queima do biogás podem ser substituídas, em modelos mais avançados, pela geração de energia, transformando um passivo ambiental em ativo energético.
Os benefícios extrapolam o campo climático. Sistemas eficientes de gestão de resíduos estão associados à redução de doenças respiratórias e infecciosas, à valorização imobiliária, à melhoria da paisagem urbana e à geração de empregos, especialmente nas cadeias da reciclagem e da economia circular. Em vez de serem vistas como centros de custo, essas políticas passam a integrar estratégias de desenvolvimento local.
O estudo também reforça que a gestão do lixo é uma política com forte impacto distributivo. Cidades que abandonam lixões reduzem desigualdades ambientais, já que esses locais costumam se instalar próximos a populações vulneráveis, historicamente mais expostas à poluição e a riscos sanitários.
Um retrato preocupante do Brasil real
Apesar do potencial demonstrado, a realidade brasileira ainda está distante desse cenário. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) indicam que o país mantém cerca de 1,6 mil lixões em operação e aproximadamente 300 aterros controlados, que não atendem plenamente às exigências ambientais. No total, são cerca de 1,9 mil unidades de destinação inadequada espalhadas pelo território nacional.
Esse número evidencia que a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída há mais de uma década, ainda enfrenta enormes desafios de implementação, especialmente em municípios de pequeno e médio porte. Falta de recursos, carência técnica e descontinuidade administrativa figuram entre os principais entraves.
O estudo da S2F Partners, no entanto, sugere que avanços graduais já produzem ganhos expressivos. A migração de lixões para aterros licenciados com captação de metano, mesmo sem atingir padrões ideais, pode representar um salto relevante na agenda climática municipal.
Em um cenário global de urgência climática, no qual as cidades são chamadas a assumir protagonismo, o lixo surge como um dos caminhos mais diretos e subestimados para reduzir emissões. Tratar resíduos com responsabilidade deixa de ser apenas uma obrigação legal e passa a ser uma estratégia central para o futuro urbano sustentável do Brasil.











Você precisa fazer login para comentar.