
Construção civil diante da emergência climática
A construção civil ocupa uma posição estratégica no debate climático global. Não apenas pelo volume de obras que transforma paisagens e cidades, mas pelo peso de sua pegada ambiental. A produção de cimento, aço e concreto responde por uma fatia significativa das emissões globais de dióxido de carbono. Cada edifício erguido com sistemas convencionais carrega consigo um rastro energético intenso, desde a extração de matérias-primas até os processos industriais de alta temperatura.
Nesse cenário, a madeira engenheirada surge como uma alternativa concreta — e paradoxalmente ancestral. Ao contrário do concreto, cuja fabricação depende da calcinação do calcário e da queima massiva de combustíveis fósseis, a madeira nasce de um ciclo biológico que captura carbono da atmosfera. Aproximadamente metade da composição química da madeira é carbono fixado durante o crescimento das árvores. Quando transformada em elementos estruturais, essa matéria-prima passa a funcionar como um reservatório de carbono incorporado ao edifício.
Estudos comparativos indicam que construções em madeira engenheirada podem emitir até 80% menos CO2 por metro quadrado do que estruturas equivalentes em concreto e alvenaria. A diferença não está apenas no material em si, mas na cadeia produtiva como um todo. O processamento da madeira demanda menos energia e, em geral, não depende de processos térmicos tão intensivos quanto os da indústria cimenteira e siderúrgica.
Assim, a discussão deixa de ser apenas técnica. Trata-se de repensar o modelo construtivo que dominou o século XX e de compreender o edifício como parte da estratégia climática.
Tecnologia, desempenho e normas técnicas
A madeira engenheirada não se limita a vigas tradicionais. Ela incorpora tecnologias industriais de alto desempenho, como a madeira laminada colada e a madeira laminada colada cruzada, conhecida internacionalmente como CLT. Esses sistemas permitem vencer grandes vãos, alcançar múltiplos pavimentos e garantir estabilidade estrutural compatível com exigências contemporâneas de segurança.
No Brasil, o projeto de estruturas de madeira é regulamentado pela ABNT, especialmente por meio da ABNT NBR 7190, norma que estabelece critérios de dimensionamento, classes de umidade e coeficientes de modificação que influenciam diretamente na resistência e rigidez do material ao longo do tempo. Essa norma está em processo de atualização para incorporar de forma mais abrangente sistemas como o CLT, refletindo a evolução tecnológica do setor.
A durabilidade das edificações também está associada à ABNT NBR 15575-1, que define a Vida Útil de Projeto mínima de 60 anos para novas construções. Essa diretriz não é apenas um número; ela impõe que o projeto, a execução e a manutenção sejam pensados desde o início como um ciclo de longo prazo. Complementarmente, a ABNT NBR 14037 estabelece diretrizes para a elaboração do Manual de Operação, Uso e Manutenção das Edificações, documento essencial para orientar proprietários e gestores sobre cuidados preventivos.
Enquanto o Brasil consolida suas normas específicas, referências internacionais como a ISO e a APA – The Engineered Wood Association oferecem parâmetros técnicos amplamente adotados para madeira laminada colada e CLT. A ISO estabelece padrões de qualidade e desempenho reconhecidos globalmente, enquanto a APA desenvolve critérios técnicos amplamente utilizados na América do Norte.
A manutenção preventiva é decisiva para garantir o desempenho ao longo das décadas. O controle de umidade é o ponto mais sensível. A madeira reage às variações ambientais; portanto, ventilação adequada, estanqueidade das instalações hidráulicas e proteção contra infiltrações são requisitos fundamentais. A proteção solar com vernizes dotados de filtros UV ajuda a preservar superfícies expostas. O tratamento em autoclave, especialmente em espécies como o pinus de reflorestamento, amplia a resistência contra cupins e brocas. Em termos de segurança contra incêndio, a inspeção periódica de selantes firestop e de revestimentos resistentes ao fogo, como gesso acartonado e vernizes intumescentes, integra o protocolo de preservação estrutural.

Economia, produtividade e previsibilidade financeira
Embora o custo direto da madeira engenheirada ainda possa superar o do concreto em determinados contextos brasileiros, a análise econômica precisa ir além do preço por metro cúbico. Estruturas em madeira pesam, em média, um quinto de uma estrutura equivalente em concreto. Essa leveza reduz cargas nas fundações, permitindo soluções mais simples e econômicas na base do edifício.
A industrialização é outro diferencial. Elementos estruturais são fabricados com precisão milimétrica em ambiente controlado e chegam ao canteiro prontos para montagem. O resultado é uma obra mais rápida, limpa e previsível. A redução do tempo de execução diminui custos indiretos, como aluguel de equipamentos, despesas administrativas e encargos de manutenção do canteiro. Para incorporadores e investidores, a entrega antecipada significa retorno financeiro mais rápido.
Há ainda ganhos associados à redução de resíduos. Diferentemente da concretagem moldada in loco, que frequentemente gera entulho e retrabalho, a construção em madeira engenheirada trabalha com peças pré-dimensionadas. O desperdício é mínimo, e o canteiro se transforma em espaço de montagem, não de improviso.
Em edifícios públicos, como escolas, estudos indicam que sistemas construtivos em madeira podem oferecer melhor custo-benefício no longo prazo. A combinação de menor impacto ambiental, eficiência energética e rapidez de execução cria um modelo economicamente competitivo, sobretudo quando se considera o ciclo de vida completo da edificação.

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Edifícios como reservatórios de carbono
O debate sobre madeira engenheirada transcende a técnica e alcança a estratégia climática. Ao utilizar matéria-prima proveniente de florestas plantadas e manejadas de forma responsável, a construção civil passa a integrar um ciclo de carbono mais equilibrado. As árvores capturam CO2 durante seu crescimento. Ao serem transformadas em elementos estruturais, mantêm esse carbono estocado ao longo de décadas.
Se a Vida Útil de Projeto mínima é de 60 anos, isso significa que cada edifício pode funcionar como um depósito estável de carbono por duas ou três gerações. Em vez de serem apenas fontes de emissão, as construções tornam-se parte da solução climática. Quando comparadas às emissões intensivas do concreto e do aço, as estruturas de madeira oferecem um balanço significativamente mais favorável.
Esse modelo exige responsabilidade. O uso sustentável depende de cadeias produtivas certificadas, manejo florestal adequado e cumprimento rigoroso das normas técnicas. Porém, quando esses elementos se alinham, a madeira engenheirada representa uma síntese entre tradição e inovação: um material antigo, reinterpretado pela engenharia contemporânea para responder a um dos maiores desafios do nosso tempo.
A transformação não ocorre apenas na estética dos edifícios, mas na lógica que sustenta sua existência. Em vez de consumir recursos de forma irreversível, a construção passa a dialogar com ciclos naturais. Em vez de acelerar o aquecimento global, pode contribuir para mitigá-lo. Nesse horizonte, a madeira engenheirada deixa de ser alternativa e se consolida como protagonista de uma nova etapa da arquitetura e da engenharia.











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