Aterros emergem como fontes de microplásticos

Gabriel Jabur/Agência Brasília
Gabriel Jabur/Agência Brasília

São Paulo como laboratório atmosférico

Na capital paulista, a Universidade de São Paulo conduz pesquisas pioneiras sobre microplásticos no ar e na água da chuva. O campus Butantã funciona como ponto estratégico de coleta, permitindo observar a deposição atmosférica dessas partículas em um ambiente urbano denso.

Pesquisadores identificaram na água da chuva polímeros como polietileno reticulado e poliuretano, materiais amplamente utilizados em tubos, revestimentos e produtos industriais. A presença dessas substâncias sugere que o ciclo hidrológico urbano já carrega consigo resíduos plásticos fragmentados, que retornam ao solo e aos corpos d’água a cada precipitação.

A preocupação ultrapassa o ambiente externo. Estudos conduzidos por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP encontraram microplásticos no bulbo olfativo de moradores da cidade. A descoberta indica que a inalação é uma via direta de contaminação e que partículas microscópicas podem alcançar estruturas sensíveis do sistema nervoso.

Paralelamente, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo mantém uma das redes mais robustas de monitoramento da qualidade do ar no país.

São 84 estações que operam continuamente, medindo material particulado fino, como o MP 2.5. Embora o foco não seja exclusivamente microplásticos, esses dados ajudam a compreender a dinâmica de partículas inaláveis na atmosfera urbana, criando base técnica para futuras integrações específicas sobre plásticos microscópicos.

Cuiabá e o papel dos aterros na dispersão

Se São Paulo representa o cenário de metrópole industrial, Cuiabá evidencia outro vetor importante de emissão: os aterros sanitários. Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso investigaram a dispersão de microplásticos no ar do aterro da capital.

As análises apontaram cerca de 90 fibras de microplástico por placa de amostragem em apenas 24 horas, com predominância de fibras pretas. A constatação reforça a hipótese de que aterros funcionam como reservatórios e fontes contínuas de partículas, que se desprendem de resíduos expostos ao sol, ao vento e à abrasão mecânica.

Esse fenômeno sugere que a gestão de resíduos sólidos urbanos não impacta apenas o solo e a água subterrânea, mas também a qualidade do ar. Em cidades onde aterros se localizam próximos a áreas habitadas, a exposição pode ser constante e subestimada.

SB Industria do Plastico Reciclagem

Falta de padronização e busca por referência técnica

Apesar dos avanços científicos, o Brasil ainda não dispõe de um protocolo nacional harmonizado para monitorar microplásticos no ar. Cada grupo de pesquisa adapta metodologias internacionais às condições locais, o que dificulta a comparação de dados entre regiões.

Entre as principais referências utilizadas estão as diretrizes da National Oceanic and Atmospheric Administration, que define microplásticos como partículas inferiores a 5 milímetros.

Também são adotados parâmetros do Joint Group of Experts on the Scientific Aspects of Marine Environmental Protection e normas técnicas da International Organization for Standardization, como a ISO/TR 21960:2020, que orienta classificações por forma, tamanho e composição química.

No Brasil, a Academia Brasileira de Ciências tem defendido a harmonização de métodos e a criação de infraestrutura laboratorial adequada para análises em ar, solo e água.

A entidade recomenda a criação de um sistema contínuo de monitoramento atmosférico voltado especificamente para microplásticos e a revisão de políticas públicas, como o Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar.

A evolução técnica também passa pela substituição da inspeção visual por métodos instrumentais mais precisos. Técnicas como espectroscopia no infravermelho com transformada de Fourier e espectroscopia Raman permitem identificar quimicamente os polímeros, reduzindo falsos positivos. Ferramentas como imageamento hiperespectral e análises termoanalíticas ampliam a capacidade de automação e produtividade dos laboratórios.

Ambientes internos: o ar invisível dentro de casa

Se o ar das ruas já contém microplásticos, o ambiente interno revela concentrações ainda mais elevadas. Estudos indicam que a carga de fibras suspensas em interiores pode ser dezenas de vezes maior do que no ambiente externo.

A razão está nas fontes. Dentro de casas e escritórios, a abrasão de carpetes, estofados e roupas sintéticas libera partículas continuamente. A lavagem de tecidos sintéticos, o uso de impressoras 3D e o desgaste de objetos plásticos ampliam essa emissão silenciosa.

Os polímeros predominantes nesses ambientes incluem poliéster, poliamida e polipropileno, frequentemente associados ao vestuário. Embora parte das fibras presentes na poeira seja de origem natural, como algodão ou lã, a fração sintética é significativa e persiste por longos períodos em suspensão.

No ambiente externo, as principais fontes são diferentes: desgaste de pneus, abrasão de rodovias, fragmentação de embalagens descartadas e degradação de plásticos expostos ao sol. A dispersão pelo vento e a deposição pela chuva tendem a diluir as concentrações ao ar livre, mas a exposição continua sendo relevante.

O dado mais preocupante é que as pessoas passam a maior parte do tempo em ambientes fechados. Isso amplia a exposição crônica à inalação de partículas microscópicas, cujos impactos a longo prazo ainda estão sendo investigados. Evidências já sugerem possíveis associações com doenças inflamatórias e cardiovasculares, mas a literatura científica ainda busca compreender a extensão real desses efeitos.

Trabalhadores em uma linha de reciclagem, selecionando e separando o lixo. Um homem sorri e mostra o polegar para cima, usando luvas verdes e uma máscara facial.
Reciclagem: trabalhando para um futuro mais verde.

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Políticas públicas e vigilância ambiental

No âmbito federal, iniciativas como o painel Vigiar, lançado pelo Ministério da Saúde em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, representam avanço na transparência e na vigilância ambiental.

O painel monitora material particulado fino e estima impactos sobre a saúde em municípios com mais de 10 mil habitantes. Embora não seja exclusivo para microplásticos, pode servir de base para incorporar indicadores específicos no futuro.

O desafio agora é transformar pesquisas pontuais em política pública estruturada. Isso implica padronizar métodos, integrar bases de dados estaduais e federais e ampliar o financiamento para laboratórios especializados.

Os microplásticos, invisíveis a olho nu, tornaram-se símbolo de uma poluição difusa e persistente. Monitorá-los não é apenas tarefa acadêmica. É passo essencial para compreender como a vida urbana contemporânea produz resíduos microscópicos que circulam pelo ar, atravessam fronteiras e chegam ao organismo humano. O que hoje é objeto de pesquisa pode, em breve, exigir respostas regulatórias e mudanças de comportamento coletivo.