Microrredes transformam acesso à energia na Amazônia

Foto: Natália Scarabotto
Foto: Natália Scarabotto

A arquitetura das microrredes e sua lógica de funcionamento

No centro das microrredes está o arranjo fotovoltaico, conjunto de painéis que converte radiação solar em corrente contínua. Essa energia é então direcionada a inversores híbridos, equipamentos responsáveis por transformar a eletricidade em corrente alternada, compatível com eletrodomésticos e máquinas. O sistema também administra o fluxo entre geração, consumo e armazenamento.

O armazenamento é elemento decisivo. Em localidades isoladas, onde não há conexão com a rede pública, as baterias garantem fornecimento durante a noite ou em períodos nublados. Tecnologias tradicionais, como as baterias de chumbo-ácido, ainda são utilizadas, mas projetos recentes priorizam baterias de íons de lítio, que apresentam maior durabilidade, menor necessidade de manutenção e ciclos de carga mais longos.

Algumas microrredes incorporam geradores a diesel como fonte de backup. Embora essa solução híbrida reduza drasticamente o consumo de combustível fóssil, ela mantém uma margem de segurança para situações emergenciais, como descargas críticas das baterias ou aumento inesperado de demanda.

O que diferencia uma microrrede de um simples sistema solar doméstico é a escala e a lógica coletiva. Em vez de cada residência operar de forma isolada, uma central de geração atende várias unidades consumidoras por meio de uma minirrede de distribuição local. Essa estrutura cria um ambiente energético compartilhado, no qual a diversidade de consumo favorece o equilíbrio do sistema: quando uma casa consome menos, outra pode utilizar a energia disponível.

SIGFI e MIGDI: dois modelos, duas estratégias

No Brasil, a regulamentação para áreas remotas consolidou dois formatos principais de atendimento: os sistemas individuais e os microssistemas comunitários.

O SIGFI, Sistema Individual de Geração de Energia Elétrica com Fonte Intermitente, consiste em kits instalados em cada residência. É uma solução descentralizada, indicada para comunidades dispersas ou com baixo consumo energético. Sua principal vantagem é a simplicidade operacional: não exige rede de distribuição interna nem estruturas complexas de monitoramento.

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Já o MIGDI, Microssistema Isolado de Geração e Distribuição, opera como uma central comunitária. Ele demanda postes, cabos e organização técnica para distribuir energia a diversas unidades consumidoras. Em contrapartida, oferece potência significativamente maior. Enquanto um SIGFI de pequeno porte pode limitar a carga a cerca de 700 watts contínuos, uma microrrede centralizada suporta refrigeradores, bombas d’água de maior porte e equipamentos produtivos.

Essa diferença tem implicações sociais profundas. Com maior capacidade energética, comunidades passam a armazenar alimentos, produzir gelo para conservar pescado, processar açaí ou farinha e estruturar pequenas cadeias produtivas. A energia deixa de ser apenas iluminação e torna-se vetor econômico.

A obrigatoriedade de um Sistema de Coleta de Dados Operacionais para MIGDIs também distingue os modelos. Esse monitoramento permite controle remoto e análise de desempenho, mas eleva custos iniciais. Em contrapartida, os sistemas individuais não exigem essa infraestrutura regulatória, o que muitas vezes influencia a escolha das concessionárias.

Impactos socioeconômicos e transformação territorial

Quando a energia chega de forma contínua, a transformação vai além da infraestrutura. Em comunidades do interior do Amazonas, como Vila Limeira e Santa Helena do Inglês, o fornecimento 24 horas permitiu ensino a distância, acesso à internet e conservação adequada de medicamentos. O que antes dependia de geradores barulhentos e caros passou a funcionar de forma silenciosa e estável.

Programas públicos desempenharam papel central nesse processo. O programa Luz para Todos, foi criado para ampliar o acesso à eletricidade em áreas rurais. Mais recentemente, o programa Mais Luz para a Amazônia, direcionou esforços especificamente para comunidades isoladas da região amazônica, priorizando soluções renováveis.

Além do impacto educacional e sanitário, há um efeito ambiental significativo. A substituição de geradores a diesel reduz emissões de gases de efeito estufa, elimina o transporte frequente de combustível por rios ou estradas precárias e diminui a poluição sonora. Em territórios sensíveis, onde o equilíbrio ambiental é vital, essa mudança representa ganho coletivo.

Outro ponto relevante é o estímulo à autogestão. Em muitos projetos de microrredes, moradores recebem capacitação para manutenção básica. Isso cria senso de pertencimento e reduz dependência externa, fortalecendo a autonomia comunitária.

Crédito: Israel Resende Rodrigues e Alberto De Conti
Crédito: Israel Resende Rodrigues e Alberto De Conti

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Custos, viabilidade econômica e desafios regulatórios

Embora o investimento inicial em microrredes seja elevado, análises de longo prazo indicam viabilidade econômica. Estudos apontam que o retorno do investimento pode variar de poucos meses a alguns anos, dependendo do perfil de consumo e das atividades produtivas implementadas.

Em comparações práticas, sistemas individuais podem alcançar investimentos próximos de 25 mil reais por unidade consumidora. Já microrredes comunitárias, quando diluídas entre várias famílias, podem apresentar custo médio levemente inferior por residência, apesar das obras civis e da instalação da rede local.

Um dos entraves está na estrutura regulatória e nos mecanismos de compensação financeira. A Conta de Consumo de Combustíveis, é um subsídio que cobre parte dos custos de geração em sistemas isolados. Entretanto, a exigência de monitoramento e relatórios técnicos para MIGDIs pode encarecer a operação em comparação com SIGFIs, influenciando decisões das distribuidoras.

O principal desafio técnico de longo prazo continua sendo a substituição das baterias. Dependendo da tecnologia e do regime de uso, a vida útil pode variar de três a dezesseis anos. Em regiões de difícil acesso, a logística para transporte e reposição de equipamentos adiciona custos e complexidade.

Ainda assim, a tendência aponta para avanços tecnológicos capazes de reduzir esses obstáculos. Monitoramento remoto por redes de baixa potência, como sistemas LoRa mesh, permite identificar falhas em tempo real com baixo consumo energético. Usinas solares flutuantes também surgem como alternativa promissora, aproveitando reservatórios e reduzindo a ocupação de áreas produtivas.

No horizonte energético brasileiro, as microrredes consolidam-se como instrumento estratégico. Elas articulam tecnologia, política pública e desenvolvimento local. Em vez de esperar que a rede convencional alcance os últimos pontos do território, essas soluções levam autonomia onde antes havia escuridão. Mais do que infraestrutura elétrica, representam a construção de novos caminhos para inclusão, sustentabilidade e geração de renda.