Mulheres jovens lideram nova sucessão rural no Brasil


Mulheres jovens na sucessão rural redesenham gestão campo brasileiro

O campo brasileiro está mudando de rosto. A imagem tradicional do produtor rural, historicamente associada à figura masculina e envelhecida, dá lugar a uma geração de mulheres jovens que assumem a gestão das propriedades familiares com planilhas abertas, aplicativos no celular e uma visão estratégica voltada para carbono, rastreabilidade e mercado internacional. A sucessão deixou de ser apenas herança; tornou-se projeto de futuro.

Reprodução - Orbia

Dados do Censo Agropecuário mostram que 1,7 milhão de mulheres já estão na gestão ou codireção de estabelecimentos rurais, o equivalente a cerca de 34% das propriedades do país. O número revela uma transformação silenciosa, mas estrutural. Não se trata apenas de maior presença feminina, mas de um novo perfil de liderança que associa sustentabilidade, inovação e governança.

Essa mudança demográfica tem impacto direto na adoção de práticas de baixo carbono e na incorporação de critérios de ESG na rotina do agronegócio. Ao mesmo tempo, expõe desafios antigos, como exclusão digital, baixa escolaridade e infraestrutura precária, que ainda ameaçam a continuidade das novas gerações no campo.

Protagonismo feminino acelera transição sustentável

A entrada massiva de mulheres na gestão rural coincide com a pressão crescente por cadeias produtivas mais limpas e rastreáveis. No café de Rondônia, por exemplo, a inclusão de mulheres, jovens e comunidades indígenas tem sido decisiva para consolidar práticas sustentáveis. Nas chamadas Matas de Rondônia, a cafeicultura sustenta cerca de 9 mil famílias e já apresenta índices elevados de conformidade ambiental, comprovados por mapeamentos via satélite.

Essa combinação de diversidade e tecnologia fortalece a posição do produto brasileiro em mercados exigentes. O acesso a compradores internacionais hoje depende de métricas claras de desmatamento zero, controle de emissões e comprovação de origem.

Ferramentas digitais tornaram-se aliadas dessa nova liderança. A plataforma e-Campo, da Embrapa, oferece cursos on-line gratuitos sobre agricultura de baixo carbono, sistemas agroflorestais, processamento de alimentos e gestão da propriedade. Em 2024, o público feminino representou 47% dos participantes, com predominância de jovens entre 20 e 39 anos.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A capacitação digital não apenas melhora a produtividade, mas amplia a autonomia decisória das gestoras. O domínio de indicadores de MRV, monitoramento, relato e verificação, permite que pequenas e médias propriedades dialoguem com bancos, tradings e investidores em pé de igualdade técnica.

Conectividade e Agricultura 4.0 como antídoto ao êxodo

A sucessão rural depende, cada vez mais, da qualidade da conexão à internet. Pesquisas indicam que jovens agricultores só permanecem no campo se tiverem acesso contínuo à digitalização. A conectividade reduz o isolamento social, permite ensino a distância e abre portas para inovação.

O problema é que o abismo digital ainda é profundo. Cerca de 73% dos produtores possuem, no máximo, ensino fundamental, e 23% não sabem ler nem escrever. Em 14% dos estabelecimentos rurais ainda falta energia elétrica regular. Sem infraestrutura básica, falar em drones, inteligência artificial e big data parece distante.

Mesmo assim, a Agricultura 4.0 começa a chegar às propriedades familiares. Jovens sucessoras utilizam aplicativos de gestão, sensores de solo e imagens de satélite para planejar plantio, reduzir insumos e calcular pegada de carbono. A inovação transforma o trabalho pesado em atividade mais estratégica, tornando a profissão mais atraente.

Linhas de crédito também são decisivas. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, ampliou o limite de financiamento para cooperativas e empreendimentos coletivos, chegando a R$ 20 milhões em determinadas modalidades. Programas como o Inovagro incentivam investimentos em tecnologia e digitalização.

Foto: Ministério do Desenvolvimento SocialSítio Araúna, de produção agroecológica. Denircia da Costa Lima e seu esposo Vilmar de Almeida, proprietários, agricultores familiares e fornedeores do PAA.
Foto: Ministério do Desenvolvimento SocialSítio Araúna, de produção agroecológica. Denircia da Costa Lima e seu esposo Vilmar de Almeida, proprietários, agricultores familiares e fornedeores do PAA.
Foto : Sergio Amaral/MDS

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Cooperativas encurtam distância tecnológica

A organização coletiva é peça-chave para que mulheres jovens consigam implementar inovação. Cooperativas rurais agregam demanda, negociam com operadoras de telecomunicações e diluem custos de infraestrutura. O investimento individual em torres e antenas é inviável para a maioria das propriedades familiares. Em conjunto, torna-se possível.

Além da conectividade, as cooperativas atuam como ponte para Assistência Técnica e Extensão Rural digital, a chamada ATER Digital. Plataformas colaborativas permitem que conhecimento especializado chegue a áreas remotas, reduzindo assimetrias de informação.

O uso estratégico de dados também fortalece a soberania comercial. Ao reunir informações sobre produção, qualidade e conformidade ambiental, cooperativas podem negociar melhores condições com compradores e exportadores. Para as novas gestoras, isso significa maior previsibilidade de renda e capacidade de planejamento de longo prazo.

ESG como diferencial competitivo

A geração que assume a sucessão rural enxerga sustentabilidade não como obrigação burocrática, mas como ativo de mercado. Tecnologias como Carne Carbono Neutro, desenvolvida pela Embrapa, e o uso crescente de bioinsumos refletem essa mentalidade.

No café de Rondônia, a produção de robustas finos por comunidades indígenas tornou-se exemplo de compatibilidade entre geração de renda e preservação florestal. A identidade cultural, aliada à rastreabilidade digital, agrega valor ao produto.

Esse movimento também responde à pressão internacional por cadeias produtivas livres de desmatamento e com métricas auditáveis. Jovens gestoras demonstram maior familiaridade com relatórios, certificações e indicadores ambientais. A planilha, antes vista como burocracia, torna-se instrumento de autonomia.

Ainda assim, desafios persistem. A fragmentação fundiária limita escala e retorno financeiro. Estradas precárias encarecem logística. A falta de crédito específico para sucessoras dificulta investimentos iniciais. E o preconceito de gênero ainda é realidade em algumas regiões.

Apesar dos obstáculos, a tendência é clara. A sucessão rural ganha nova narrativa, menos centrada na tradição e mais ancorada em inovação. Mulheres jovens assumem o protagonismo de uma transição que combina saber herdado com tecnologia de ponta.

Ao transformar propriedades familiares em negócios conectados, rastreáveis e alinhados ao baixo carbono, essa geração não apenas garante a continuidade da produção agrícola. Ela redefine o papel do campo na economia verde e mostra que o futuro da agricultura brasileira pode ser escrito por mãos femininas que sabem operar tanto a enxada quanto o aplicativo.