2025 consolida a era do aquecimento extremo
O ano de 2025 entrou para a história climática como um marco inquietante. Dados consolidados pela Organização Meteorológica Mundial mostram que o planeta viveu um de seus três anos mais quentes desde o início dos registros sistemáticos, há cerca de 176 anos. A confirmação não veio de uma única fonte, mas de oito grandes bases de dados internacionais, incluindo o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, o serviço meteorológico britânico e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos.

Mais do que uma posição em rankings, o dado simboliza uma transição perigosa: pela primeira vez, o planeta atravessou um período contínuo de três anos com temperatura média global 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Esse limite, consagrado no Acordo de Paris, sempre foi tratado como uma linha de segurança. Ultrapassá-lo por períodos prolongados amplia o risco de impactos graves, alguns irreversíveis, nos sistemas naturais e sociais.
Cientistas do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, afirmam que o mundo já opera em um patamar médio de aquecimento de cerca de 1,4°C. Em termos anuais, o limiar de 1,5°C foi superado pela primeira vez em 2024 e se manteve elevado em 2025. Para especialistas, o debate agora deixou de ser se o limite será ultrapassado, e passou a ser como lidar com as consequências dessa superação.
As causas estruturais do aquecimento global
O aquecimento acelerado do planeta não é um fenômeno abstrato. Ele nasce de escolhas econômicas e produtivas bem identificáveis. A queima de combustíveis fósseis para geração de energia continua sendo o principal motor das emissões globais, sustentando sistemas elétricos ainda dependentes de carvão, petróleo e gás. A indústria pesada, responsável pela fabricação de cimento, aço, plásticos e eletrônicos, amplia esse quadro ao consumir grandes volumes de energia fóssil.
O desmatamento, sobretudo em regiões tropicais, aprofunda o problema ao liberar o carbono armazenado nas florestas e reduzir a capacidade natural de absorção de CO₂. Estima-se que cerca de 12 milhões de hectares de florestas sejam destruídos anualmente, contribuindo para aproximadamente um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa. O transporte, baseado majoritariamente em derivados de petróleo, e a produção de alimentos, marcada pela expansão agropecuária e pelo uso intensivo de fertilizantes, completam esse ciclo de pressão climática.
Segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o consumo excessivo desempenha papel central nessa dinâmica. A parcela 1% mais rica da população mundial responde por mais emissões do que os 50% mais pobres, evidenciando que a crise climática é também uma crise de desigualdade.

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Impactos cada vez mais visíveis e desiguais
Os efeitos do aquecimento global deixaram de ser projeções futuras. Em 2025, incêndios florestais na Europa bateram recordes históricos de emissões, enquanto eventos extremos como o furacão Melissa, no Caribe, e as chuvas de monções no Paquistão demonstraram como o aquecimento intensifica desastres naturais. Mais de mil pessoas morreram apenas nas inundações paquistanesas, segundo estudos de atribuição climática.
Os oceanos, que absorvem a maior parte do excesso de calor da Terra, atingiram seus níveis mais altos de temperatura já registrados. Esse aquecimento provoca tempestades mais intensas, elevação do nível do mar e acidificação das águas, ameaçando ecossistemas marinhos e a segurança alimentar de bilhões de pessoas.
As consequências recaem de forma desproporcional sobre populações mais vulneráveis. Países de baixa e média renda enfrentam secas mais longas, perda de safras, aumento da fome e deslocamentos forçados. Na última década, eventos climáticos extremos deslocaram, em média, mais de 23 milhões de pessoas por ano, aprofundando ciclos de pobreza e instabilidade social.
Ainda há caminhos possíveis, mas o tempo é curto
Apesar do cenário alarmante, a ciência climática também aponta oportunidades reais de mudança. Relatórios recentes do IPCC destacam que os custos de tecnologias de baixa emissão caíram drasticamente desde 2010. A energia solar ficou cerca de 85% mais barata, a eólica 55%, e as baterias de íons de lítio acompanharam essa tendência, viabilizando a expansão dos veículos elétricos e do armazenamento de energia limpa.
As cidades surgem como espaços estratégicos para a mitigação climática, com potencial para reduzir emissões por meio de transporte coletivo, mobilidade elétrica, eficiência energética em edifícios e ampliação de áreas verdes. Instrumentos econômicos, como impostos sobre carbono e a remoção de subsídios aos combustíveis fósseis, já demonstraram eficácia onde foram aplicados, embora ainda de forma desigual.
A remoção de dióxido de carbono da atmosfera, por meio de reflorestamento, restauração de ecossistemas e manejo de carbono no solo e nos oceanos, aparece como complemento necessário às reduções de emissões. No entanto, especialistas alertam que nenhuma tecnologia de remoção substitui a urgência de cortar rapidamente o uso de combustíveis fósseis.
O consenso científico é claro: a janela de oportunidade para evitar impactos mais severos está se fechando. O desafio agora não é apenas tecnológico, mas político e social. Como lembram pesquisadores ligados ao IPCC e à Organização das Nações Unidas, agir com justiça climática, distribuindo custos e benefícios de forma equitativa, será decisivo para garantir apoio público e evitar que a crise climática se transforme em uma crise permanente da civilização.











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