Nova cultivar da Embrapa promete revolucionar a produção de caju no Ceará


Nova cultivar da Embrapa sinaliza virada tecnológica na cajucultura cearense

A cajucultura brasileira vive um momento decisivo, e o lançamento da cultivar BRS 805 surge como um marco desse processo de transformação. Desenvolvida pela Embrapa Agroindústria Tropical, a nova variedade de cajueiro chega ao mercado com o objetivo claro de renovar pomares, elevar a produtividade e reduzir vulnerabilidades sanitárias, especialmente no Ceará, principal produtor nacional de castanha de caju.

Divulgação - EMBRAPA

O estado responde historicamente pela maior fatia da produção brasileira, mas enfrenta desafios estruturais que vão da baixa produtividade média ao envelhecimento dos pomares e à dependência de poucos materiais genéticos. Nesse cenário, a BRS 805 aparece como uma resposta técnica a um problema econômico e ambiental: como produzir mais, com menor risco e maior eficiência, em um contexto de mudanças climáticas e pressão sobre os sistemas produtivos.

A nova cultivar foi desenvolvida para áreas litorâneas do Ceará e regiões com características semelhantes, mas seu potencial vai além da adaptação regional. Ela amplia o portfólio de cultivares nacionais e fortalece a estratégia de diversificação genética, considerada essencial para proteger a cadeia produtiva contra a entrada de novas pragas e doenças.

Três décadas de pesquisa até chegar ao campo

O caminho até o lançamento da BRS 805 começou ainda no início dos anos 1990, em um experimento instalado no município de Pio IX, no Piauí. A partir da seleção criteriosa de uma planta com desempenho superior, pesquisadores da Embrapa iniciaram um longo processo de avaliação, clonagem e testes comparativos em diferentes ambientes.

Segundo o pesquisador Dheyne Melo, coordenador do Programa de Melhoramento Genético do Cajueiro da Embrapa, o clone identificado como PRO 805/4 demonstrou, ao longo dos anos, um comportamento agronômico consistente. A partir de 2003, passou a ser avaliado em condições de sequeiro no Campo Experimental de Pacajus, no Ceará, e, posteriormente, em municípios como Cruz e Itapipoca.

Os resultados foram expressivos. Entre o quinto e o sétimo ano de idade, a produtividade média de castanhas atingiu 1.800 quilos por hectare, o dobro do desempenho do clone CCP 76, o mais plantado no país. A produção de pedúnculos também se destacou, com média anual de 23,8 toneladas por hectare, reforçando o potencial econômico da cultivar tanto para o mercado de castanha quanto para o aproveitamento industrial do caju.

Além da produtividade, a BRS 805 apresentou resistência a doenças como mofo-preto, antracnose e septoriose, além de maior tolerância ao oídio, considerado o principal problema fitossanitário da cajucultura brasileira. Essa combinação reduz custos com defensivos e amplia a segurança alimentar ao longo da cadeia.

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Arquitetura da planta e aceitação industrial

Do ponto de vista do manejo, a nova cultivar também traz vantagens operacionais. Com porte intermediário, entre três e quatro metros de altura, e copa em formato de taça compacta, a BRS 805 permite maior espaçamento entre plantas e facilita a mecanização. Essa característica favorece o uso de tratores e reduz perdas por quebra de ramos produtivos, algo relevante em pomares tecnificados.

No mercado de processamento, o clone também se mostra competitivo. As castanhas apresentam massa média de cerca de 10 gramas, padrão bem aceito pela indústria. As amêndoas se enquadram nas classificações LW ou W210, com rendimento industrial médio de 23,2%, índice considerado elevado.

O pedúnculo, de coloração vermelha intensa e formato cônico, chama atenção não apenas pela aparência, mas pelo valor nutricional. O teor de vitamina C chega a 270 miligramas por 100 gramas de polpa, cinco vezes superior ao da laranja. Por essas características, o uso do pedúnculo é especialmente recomendado para processamento industrial, agregando valor à produção.

A comercialização inicial da BRS 805 será feita por meio de edital de oferta pública da Embrapa, que irá licenciar viveiristas registrados no Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem). O edital está previsto para janeiro de 2026.

Produtividade recorde e futuro da cajucultura

O lançamento da BRS 805 ocorre em um momento de recuperação da produção nacional. Em 2024, o Brasil alcançou 161 mil toneladas de castanha de caju, o maior volume desde 2018, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Ceará liderou esse crescimento, com aumento de 61% na produção em relação ao ano anterior.

Apesar do avanço, o rendimento médio nacional ainda permanece abaixo do potencial tecnológico disponível. Para José Roberto Vieira, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agroindústria Tropical, a cajucultura vive uma encruzilhada. De um lado, o modelo semiextrativista, de baixa produtividade e alto risco. De outro, a adoção de tecnologias que permitem superar 1.500 quilos de castanha por hectare, com maior uniformidade e melhor aproveitamento do pedúnculo.

A BRS 805 se insere claramente nesse segundo caminho. Ela integra o conjunto de 14 clones lançados pelo Programa de Melhoramento Genético da Embrapa, que busca adaptar a cultura do cajueiro às exigências do século XXI. Em um contexto de urgência climática, a rusticidade do cajueiro — capaz de produzir com precipitações entre 600 e 800 milímetros anuais — torna-se uma vantagem estratégica para o Semiárido.

Mais do que uma nova cultivar, a BRS 805 simboliza uma mudança de mentalidade: produzir mais, com ciência, planejamento e diversidade genética, transformando a cajucultura em um vetor de renda, estabilidade e desenvolvimento regional.