O Brasil desenha uma nova rota para o seu futuro econômico ao colocar a riqueza natural no centro de sua estratégia de crescimento. Em um movimento que busca unir a preservação ambiental ao avanço industrial, o governo federal lançou oficialmente uma política pública que pretende transformar a imensa biodiversidade do país em um motor de riqueza sustentável até o ano de 2035. Batizado de Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, o projeto propõe uma mudança profunda na forma como a sociedade lida com suas florestas e ecossistemas, integrando desde as comunidades tradicionais que vivem da coleta na mata até os laboratórios de tecnologia de ponta.
Essa estratégia nacional foi detalhada e apresentada de forma conjunta pelos ministros Marina Silva e Geraldo Alckmin. O documento final não nasceu do dia para a noite; ele é o fruto maduro de uma construção coletiva que levou dois anos de debates intensos. Ao todo, dezesseis ministérios uniram forças com representantes do setor privado, cientistas da academia e organizações da sociedade civil dentro da chamada Comissão Nacional de Bioeconomia para dar vida às cento e oitenta e cinco ações estratégicas que compõem o plano.
Uma nova arquitetura para os negócios da floresta
A espinha dorsal dessa iniciativa repousa sobre três grandes pilares que buscam organizar o caos produtivo e dar escala às práticas que já dão certo isoladamente. O primeiro desses eixos foca diretamente na sociobioeconomia e na valorização dos ativos ambientais. A ideia central aqui é estruturar um verdadeiro ecossistema de negócios comunitários que consiga gerar renda sem derrubar uma única árvore. Para que isso saia do papel, a meta estabelecida pretende apoiar diretamente seis mil empreendimentos locais.
Além disso, o governo planeja dar um fôlego financeiro expressivo aos pequenos produtores por meio de um acréscimo de vinte por cento nos contratos de crédito voltados para a agricultura familiar de baixa renda. O resultado esperado para essa cadeia produtiva é ambicioso: duplicar o valor bruto que a sociobiodiversidade gera anualmente. Paralelamente a esse movimento de mercado, o projeto prevê uma compensação financeira direta para trezentas mil pessoas que atuam como verdadeiras guardiãs da floresta, por meio do pagamento por serviços ambientais e socioculturais.
O salto tecnológico da indústria farmacêutica e o turismo
O segundo pilar do plano mira na bioindustrialização competitiva, um campo onde a ciência brasileira pode brilhar ao usar de forma inteligente as informações contidas no patrimônio genético de nossa fauna e flora. O foco principal dessa frente está voltado para os setores de saúde e bem-estar. Como reflexo prático dessa política, a população começará a perceber mudanças diretamente no balcão de atendimento médico.
O governo planeja incorporar novos medicamentos fitoterápicos na rede do Sistema Único de Saúde, ampliando o leque de tratamentos naturais e acessíveis para a população. Para a iniciativa privada, a meta estabelecida é ousada: fazer com que a participação desses remédios derivados de plantas cresça cinco por cento no faturamento total de toda a indústria farmacêutica instalada no território nacional.
Para além dos laboratórios, a preservação também vai gerar recursos através da contemplação da natureza. O plano estabelece a concessão de sessenta Unidades de Conservação federais para a iniciativa privada com o objetivo específico de estruturar e promover o ecoturismo. Ao mesmo tempo, para garantir que haja matéria-prima sustentável sem pressões de desmatamento, as áreas destinadas ao manejo florestal controlado devem ser expandidas para mais de cinco milhões de hectares.
A força da biomassa e a inteligência da economia circular
O terceiro e último pilar da nova estratégia governamental se debruça sobre a produção sustentável de biomassa e o conceito de economia circular. A proposta aqui é aproveitar todo e qualquer resíduo de origem vegetal ou animal gerado pelas atividades agrícolas e florestais para transformá-los em matérias-primas nobres e fontes de energia limpa para as fábricas do país.
Esse movimento pretende impulsionar a chamada indústria bioquímica de renováveis. O foco está no desenvolvimento e no aperfeiçoamento de biocombustíveis avançados, a exemplo do etanol, que já possui uma cadeia consolidada no país, mas que agora ganha novas perspectivas tecnológicas. Ao criar esse ciclo fechado onde o resíduo de uma cadeia vira o alimento produtivo de outra, o país tenta desenhar uma indústria que seja, ao mesmo tempo, inovadora, exportadora e profundamente verde..
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, fez questão de enfatizar que essa guinada em direção à bioeconomia não foi desenhada para beneficiar apenas um grupo seleto de empresários ou corporações. Segundo a visão apresentada pela pasta, há espaço de sobra para a convivência pacífica e sinérgica entre o extrativista que coleta castanhas na floresta e o grande industrial que fabrica cosméticos ou remédios de alta tecnologia nos centros urbanos.
Antes de virar decreto e ser devidamente aprovado pela comissão responsável em março, o texto passou pelo crivo da população através de um processo de consulta pública que recolheu mais de novecentas sugestões e contribuições da sociedade. Agora, com as diretrizes traçadas e as metas estipuladas para os próximos anos, o grande desafio reside na execução prática e na fiscalização dessas cento e oitenta e cinco ações para garantir que o ciclo de prosperidade prometido realmente alcance as comunidades da floresta.
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