
Arborização como política de reparação territorial
Durante décadas, o verde urbano no Brasil cresceu de forma desigual. Parques amplos, ruas sombreadas e praças bem cuidadas concentraram-se, em grande parte, nos bairros mais valorizados. Nas periferias, o cenário foi outro: ausência de árvores, áreas de risco ocupadas sem planejamento e poucas opções de lazer ao ar livre. A agenda recente de políticas públicas começa a enfrentar essa distorção histórica ao tratar a arborização como instrumento de justiça territorial.
Um dos marcos dessa virada é o Plano Nacional de Arborização Urbana, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e apresentado durante a COP30. A proposta parte de um diagnóstico claro: a cobertura vegetal média das cidades brasileiras gira em torno de 28,2%, mas a distribuição é profundamente desigual. Para enfrentar o problema, o plano adota a estratégia internacional 3+30+300.
A meta das três árvores estabelece que a maioria da população — ao menos 65% — deve viver em ruas com no mínimo três árvores visíveis. A meta dos 30% determina que cada bairro alcance pelo menos 30% de cobertura verde. Já o parâmetro dos 300 metros define que todo morador deve estar a uma curta caminhada de uma área verde. Não se trata apenas de estética urbana. A presença de árvores reduz ilhas de calor, melhora a qualidade do ar, favorece a infiltração de água da chuva e amplia espaços de convivência.
O plano também projeta ampliar em 360 mil hectares a área total de arborização nas cidades brasileiras e conectar esses espaços por meio de corredores verdes, formando redes ecológicas capazes de integrar biodiversidade, mobilidade ativa e drenagem urbana. A arborização, nesse contexto, deixa de ser paisagismo e passa a ser infraestrutura climática.
Fortaleza e a busca por equidade verde
No âmbito municipal, o novo Plano Diretor de Fortaleza, instituído pela Lei Complementar nº 450/2025, assume a equidade territorial como eixo estruturante. O texto reconhece que o acesso a áreas verdes é um indicador de qualidade de vida e que sua ausência reforça desigualdades sociais.
A proposta prevê a criação de microparques e parques urbanos prioritariamente em bairros periféricos, além da consolidação de um Sistema Urbano de Áreas Verdes que conecte diferentes fragmentos naturais. A estratégia inclui a aquisição de imóveis em áreas densamente urbanizadas para convertê-los em espaços públicos verdes. Essa medida é particularmente relevante em regiões onde o adensamento histórico eliminou quintais e áreas permeáveis.
A diretriz de justiça socioambiental orienta a aplicação de recursos e infraestrutura verde em territórios com maior vulnerabilidade. A arborização, nesse desenho, funciona como política redistributiva: onde há menos sombra, menos equipamentos públicos e maior exposição ao calor extremo, o verde passa a ser prioridade.
Essa lógica rompe com a ideia de que parques são apenas elementos decorativos. Eles se tornam ferramentas de saúde pública, mitigação climática e integração social. Ao aproximar natureza e periferia, Fortaleza redefine o papel do planejamento urbano.

São Paulo: parques lineares e hortas verticais
Em São Paulo, o contraste entre centro e periferia sempre foi visível no mapa da vegetação. Enquanto bairros de alta renda concentram praças e parques consolidados, muitas áreas periféricas possuem vegetação associada a encostas e fundos de vale, frequentemente de difícil acesso.
Uma das respostas estruturais surgiu ainda no Plano Diretor de 2002, com a criação dos parques lineares. Implantados principalmente em fundos de vale, esses parques articulam drenagem, recuperação ambiental e lazer. Um exemplo é o Parque Linear do Canivete, na Vila Brasilândia, que transformou uma área vulnerável em espaço público multifuncional. Ao mesmo tempo em que protege margens de cursos d’água, oferece área de convivência à população.
Outro instrumento é o Plano Municipal de Áreas Protegidas, Áreas Verdes e Espaços Livres, conhecido como PLANPAVEL, que busca melhorar a distribuição da cobertura vegetal nas regiões mais adensadas. A proposta reconhece que não basta haver vegetação na cidade; ela precisa ser acessível e integrada ao cotidiano dos moradores.
No extremo leste da capital, no Jardim Keralux, a arborização assume uma dimensão ainda mais complexa. A área convive com histórico de contaminação do solo por BHC, o que inviabiliza o cultivo tradicional. Diante desse cenário, surgiram hortas verticais estruturadas fora do solo, apoiadas em técnicas de hidroponia e substratos especiais.
Essas hortas aproveitam paredes, cercas e suportes independentes para produzir alimentos em pouco espaço. Em cerca de 20 metros quadrados, é possível cultivar até 960 pés de hortaliças simultaneamente, com produtividade significativamente superior ao modelo convencional. A água utilizada recebe nutrientes específicos, dispensando o contato com o solo contaminado.
O projeto funciona por meio de parceria público-comunitária entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto União Keralux. O poder público fornece apoio técnico e infraestrutura, enquanto o instituto mobiliza moradores, organiza a manutenção e promove capacitação. O resultado vai além da produção de alimentos: fortalece laços comunitários, amplia a segurança alimentar e introduz práticas de educação ambiental.
Ao ensinar técnicas de manejo e compostagem, o projeto transforma conhecimento em ferramenta de autonomia. A arborização e a agricultura urbana, nesse caso, tornam-se também políticas de cuidado coletivo.

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Soluções baseadas na natureza e investimento federal
A escala federal reforça esse movimento com iniciativas voltadas às soluções baseadas na natureza. O edital Periferias Verdes Resilientes, da Secretaria Nacional de Periferias, destinou 15,3 milhões de reais a projetos de adaptação climática em favelas e comunidades periféricas.
Cidades como Fortaleza, Santo André, Rio de Janeiro e Belém foram contempladas com recursos para intervenções que combinam macrodrenagem, recuperação ambiental e arborização. A lógica é simples e poderosa: enfrentar enchentes, calor extremo e degradação ambiental com soluções que utilizem a própria natureza como aliada.
Esses projetos reconhecem que a vulnerabilidade climática não é distribuída de forma homogênea. Moradias precárias, ausência de áreas permeáveis e déficit de infraestrutura ampliam riscos em territórios periféricos. Ao investir em arborização e recuperação ambiental nesses espaços, o poder público atua na raiz do problema.
O conjunto dessas iniciativas sinaliza uma mudança de paradigma. A arborização deixa de ser vista como complemento estético e passa a ocupar posição estratégica no planejamento urbano. Quando articulada a políticas de equidade, participação comunitária e adaptação climática, ela se transforma em instrumento de transformação social.
Ao conectar ruas sombreadas, parques acessíveis, hortas verticais e corredores ecológicos, o Brasil começa a desenhar cidades mais resilientes. Ainda há desafios de implementação, manutenção e financiamento contínuo. Mas o avanço do debate mostra que o verde urbano já não é privilégio: é direito coletivo.











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