Métrica do PIB ignora desigualdade e destruição ambiental


Durante décadas, o Produto Interno Bruto foi tratado como o grande termômetro do progresso. Países que crescem celebram, governos que entregam números positivos se fortalecem politicamente e mercados reagem com entusiasmo. Mas essa obsessão por expansão contínua, medida quase exclusivamente pelo PIB, tem um efeito colateral profundo: ela pode estimular a degradação ambiental e ampliar desigualdades sociais enquanto aparenta prosperidade.

No centro do problema está uma pergunta incômoda: o que exatamente estamos medindo quando celebramos crescimento econômico?

Crescimento que contabiliza destruição

O PIB registra o valor agregado de bens e serviços produzidos em um país. Ele soma transações monetárias, investimentos, consumo, exportações e gastos públicos. O que não entra nessa conta é o custo ambiental dessa produção. E mais: quando uma floresta é derrubada para dar lugar à pecuária ou à mineração, a atividade econômica gerada é incorporada ao PIB como crescimento.

O mesmo ocorre com a sobrepesca, a exploração predatória de minerais ou a extração intensiva de combustíveis fósseis. A natureza degradada não aparece como perda patrimonial. O que aparece é o fluxo financeiro decorrente da exploração.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, tem alertado que a economia global está estruturada de forma a recompensar poluição e desperdício. A contabilidade tradicional trata o capital natural como se fosse inesgotável. Árvores derrubadas, solos esgotados e rios contaminados geram movimentação econômica imediata, mas o dano ecológico permanece invisível nos indicadores centrais.

Essa lógica cria distorção profunda. Países podem registrar crescimento robusto enquanto acumulam passivos ambientais que comprometerão gerações futuras. O PIB mede atividade, não sustentabilidade.

Foto: Sbw01f
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Desigualdade fora das contas

Outro limite estrutural do PIB é sua incapacidade de refletir como a renda é distribuída. A métrica indica quanto foi produzido, mas não revela quem se beneficia desse crescimento.

Uma economia pode apresentar expansão acelerada enquanto a maior parte da população enfrenta precarização do trabalho, aumento do custo de vida ou exclusão social. Se o novo rendimento estiver concentrado nas mãos de poucos, o PIB continuará subindo. A desigualdade não reduz o indicador.

Essa desconexão permite que crescimento e pobreza coexistam. Comunidades podem sofrer com falta de acesso a serviços básicos, enquanto o país celebra recordes de produção. O PIB não capta violações de direitos humanos, fragilidade institucional ou degradação das condições de vida.

Ao ignorar distribuição, o indicador também não revela tensões sociais que emergem da concentração de riqueza. Polarização econômica, instabilidade política e erosão da coesão social permanecem fora da métrica principal.

Limites planetários e riscos ignorados

A dependência quase exclusiva do PIB como bússola econômica também influencia a forma como governos planejam o futuro. Modelos macroeconômicos baseados em crescimento contínuo frequentemente subestimam impactos de choques climáticos extremos, como secas prolongadas, enchentes devastadoras ou ondas de calor intensas.

Eventos climáticos severos geram perdas bilionárias, mas muitas vezes entram no PIB como reconstrução posterior, que também movimenta recursos. A destruição causada por um furacão reduz patrimônio, mas os gastos para reconstruir casas e infraestrutura aumentam o indicador.

Esse paradoxo revela falha estrutural: o PIB não diferencia crescimento que melhora qualidade de vida de crescimento que repara danos. Além disso, a métrica não incorpora o risco de pontos de ruptura ecológicos, como colapso de ecossistemas ou perda irreversível de biodiversidade.

A economia global enfrenta o que organismos internacionais chamam de crise planetária tripla: mudança climática, perda de biodiversidade e poluição. A busca incessante por expansão material em um planeta de recursos finitos intensifica essas pressões.

Ao estimular competição entre nações por taxas mais altas de crescimento, o sistema internacional reforça corrida produtiva que pode conflitar com metas de sustentabilidade. Países ficam presos a dinâmica em que reduzir exploração de recursos pode significar perda de competitividade no curto prazo.

Foto: Wikideas1
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Além do PIB: novas métricas para novo século

Diante dessas limitações, economistas, ambientalistas e instituições multilaterais defendem transformação na forma de medir progresso. A proposta não é abandonar completamente o PIB, mas complementá-lo ou reformulá-lo para incorporar dimensões sociais e ambientais.

Uma das alternativas mais discutidas é o chamado PIB Verde, também conhecido como Green GDP. Surgido na década de 1990, o conceito propõe ajustar o cálculo tradicional subtraindo custos de esgotamento ambiental e consumo de recursos naturais.

Em termos práticos, o PIB Verde desconta emissões de carbono precificadas, perda de recursos minerais, degradação florestal e custos associados à poluição. Fórmulas acadêmicas sugerem incluir variáveis como emissões multiplicadas pelo preço do carbono, valor energético desperdiçado em resíduos urbanos e porcentagem da renda nacional associada ao esgotamento de recursos.

Esse ajuste busca revelar se o crescimento é sustentável ou se está sendo financiado pela redução do capital natural. Um país pode apresentar PIB elevado, mas, ao descontar perdas ambientais, o crescimento real pode ser significativamente menor.

Outra iniciativa relevante é o Sistema de Contabilidade Econômica Ambiental, conhecido pela sigla SEEA EA, desenvolvido sob coordenação da Organização das Nações Unidas. A metodologia propõe integrar capital natural e serviços ecossistêmicos às contas nacionais, permitindo que florestas, água, solos e biodiversidade sejam tratados como ativos econômicos.

Ao atribuir valor aos serviços ambientais, como regulação climática, polinização e fornecimento de água limpa, a contabilidade passa a refletir custos de oportunidade associados à degradação.

Além dessas iniciativas, cresce o debate sobre indicadores de bem-estar que incluam saúde, educação, equidade, qualidade ambiental e segurança. Em vez de avaliar apenas fluxo monetário, esses painéis de indicadores buscam medir condições concretas de vida.

O desafio não é apenas técnico, mas político. Mudar a métrica significa alterar prioridades. Se governos forem avaliados por bem-estar e sustentabilidade, políticas públicas tenderão a se reorganizar.

A transição para métricas mais amplas pode redefinir a própria noção de progresso. Em vez de celebrar expansão ilimitada, sociedades poderiam priorizar equilíbrio entre prosperidade econômica, justiça social e integridade ecológica.

A crise climática expôs fragilidades do modelo baseado exclusivamente no PIB. Crescimento que ignora limites planetários pode ser, no longo prazo, autodestrutivo. Repensar o que medimos é passo fundamental para redefinir o que valorizamos.