A elevação do nível do Rio Acre acima da cota de inundação em Rio Branco, registrada neste mês de janeiro, reacende um alerta antigo e cada vez mais frequente para o estado: a convivência forçada com eventos extremos que deixaram de ser exceção e passaram a integrar a rotina de milhares de famílias. Embora a projeção oficial indique estabilização e início da vazante, o episódio se soma a uma sequência de cheias históricas que expõem fragilidades urbanas, sociais e climáticas acumuladas ao longo de décadas.

Dados do Serviço Geológico do Brasil mostram que o rio ultrapassou os 14 metros na capital acreana, atingindo áreas habitadas e colocando em risco comunidades inteiras. O órgão aponta que o pico da cheia deve ser seguido por queda gradual, desde que não ocorram novas chuvas intensas na bacia. Ainda assim, a experiência recente demonstra que o alívio hidrológico nem sempre significa o fim da emergência.
A cheia que se repete e o limite da previsibilidade
Segundo o Serviço Geológico do Brasil, a atual elevação do Rio Acre é resultado da combinação entre a cheia registrada no fim do ano anterior e a persistência de chuvas intensas no início de 2026. O comportamento do rio confirma uma tendência observada nos últimos anos: eventos cada vez mais concentrados e difíceis de prever com antecedência suficiente para evitar impactos humanos.
O Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Acre passou a desempenhar papel central no monitoramento em tempo real, oferecendo subsídios para decisões emergenciais. Ainda assim, o conceito técnico de inundação utilizado pelos hidrólogos indica que, quando o nível ultrapassa a cota crítica, os danos já começaram. Em Rio Branco, casas em áreas mais baixas voltaram a ser atingidas, reforçando a sensação de vulnerabilidade permanente.
Nos municípios do interior, como Xapuri, Brasiléia e Epitaciolândia, os níveis permanecem abaixo das cotas de alerta, mas a experiência mostra que a onda de cheia costuma se deslocar de forma desigual, exigindo vigilância contínua.
Um desastre que extrapola números e mapas
As cheias no Acre não se traduzem apenas em centímetros medidos nas réguas hidrométricas. Elas têm impacto direto sobre a vida de mais de 120 mil pessoas, número que faz deste episódio, proporcionalmente, o maior desastre ambiental já registrado no estado. Informações do Corpo de Bombeiros Militar do Acre indicam que 19 dos 22 municípios enfrentaram situação de emergência, com milhares de famílias desabrigadas ou desalojadas.
A distinção entre desabrigados, desalojados e atingidos ajuda a dimensionar a crise, mas não reduz o drama cotidiano de quem vê a rotina ser interrompida pela água. Abrigos improvisados em escolas e espaços públicos tornaram-se cenário recorrente, enquanto o deslocamento urbano, o abastecimento de água e o acesso a serviços básicos ficam comprometidos.
Em Rio Branco, o colapso temporário do sistema de abastecimento deixou cerca de 300 mil moradores sem água potável por dias, mesmo com a cidade cercada por rios transbordados. A contradição entre ruas alagadas e torneiras secas expôs a fragilidade da infraestrutura urbana e a dificuldade de resposta a eventos extremos simultâneos.

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Resposta emergencial e o peso do Estado
Diante da dimensão da crise, o governo estadual mobilizou uma operação de grande escala. O Governo do Acre articulou ações com prefeituras e com o Governo Federal, após o reconhecimento da situação de emergência pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. Mais de R$ 20 milhões foram destinados a ações de assistência, incluindo envio de alimentos, reforço de equipes de resgate e apoio logístico aos municípios mais atingidos.
A Secretaria de Estado do Meio Ambiente, por meio do Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental, passou a reunir dados meteorológicos, hidrológicos e socioeconômicos para orientar decisões. O esforço interinstitucional busca não apenas responder à emergência, mas compreender o evento dentro de uma lógica mais ampla de mudanças climáticas e ocupação territorial.
Durante visita ao estado, a ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva, defendeu a criação de um modelo de emergência permanente para municípios sujeitos a desastres recorrentes. A proposta, em discussão no âmbito federal, prevê ajustes legais e urbanísticos para permitir respostas mais rápidas e estruturais, deslocando o foco do improviso para a prevenção.
Clima em ruptura e o desafio da adaptação
Pesquisadores da Universidade Federal do Acre alertam que o estado vive uma ruptura nos padrões climáticos desde a última década. Estudos apontam que enchentes e secas intensas passaram a ocorrer no mesmo ano, rompendo ciclos naturais antes previsíveis. Entre 2013 e 2023, os prejuízos causados por desastres naturais ultrapassaram R$ 1,6 bilhão, segundo levantamento da Confederação Nacional dos Municípios.
A ciência é clara ao afirmar que a intensificação das cheias está associada às mudanças climáticas globais, agravadas pelo desmatamento, pela ocupação desordenada de áreas de risco e pela falta de investimentos consistentes em adaptação urbana. Planos municipais existem, como o de mitigação climática de Rio Branco, mas sua implementação ainda caminha lentamente diante da urgência dos fatos.
Para quem vive nas áreas mais vulneráveis, a cheia deixou de ser um evento excepcional. Ela se tornou parte de um ciclo de perdas, deslocamentos e reconstruções precárias. O desafio agora é romper esse padrão, transformando dados, ciência e políticas públicas em ações estruturais capazes de reduzir riscos, garantir moradia segura e devolver previsibilidade à vida de quem mora às margens do Rio Acre.











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