À medida que o planeta enfrenta uma das maiores encruzilhadas de sua história, a fome e a crise climática deixaram de ser problemas isolados. Elas agora se entrelaçam num círculo vicioso que ameaça o bem-estar de bilhões de pessoas. Em novembro de 2025, quando líderes mundiais se reunirem em Belém para a COP30, o debate sobre resiliência e segurança alimentar precisará ocupar o centro das negociações. Garantir sistemas alimentares sustentáveis e justos é, mais do que nunca, um imperativo de sobrevivência — tanto para o planeta quanto para as populações mais vulneráveis.

Segundo o SDG2 Advocacy Hub, alcançar o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável — “Fome Zero” — depende de ações que unam clima, agricultura, nutrição e equidade social. Isso exige enfrentar as desigualdades que moldam os sistemas alimentares globais: o acesso desigual à terra e à água, práticas agrícolas predatórias, a concentração de renda e o impacto desproporcional das mudanças climáticas sobre o Sul Global.
Enquanto países ricos investem em tecnologias de adaptação, comunidades inteiras na África, Ásia e América Latina enfrentam colheitas perdidas, safras imprevisíveis e a escalada dos preços de alimentos básicos. Em 2024, o Global Report on Food Crises registrou mais de 295 milhões de pessoas em 53 países vivendo em insegurança alimentar aguda — um número impulsionado por eventos climáticos extremos e instabilidade econômica.
O elo entre clima e agricultura
A agricultura, responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, é também uma das principais vítimas do aquecimento global. Secas prolongadas, enchentes devastadoras e pragas intensificadas estão redesenhando o mapa da produção agrícola mundial. A cada novo desastre, comunidades rurais perdem mais do que suas colheitas: perdem a base de sua segurança, cultura e dignidade.
Um exemplo emblemático é o Ciclone Freddy, que em 2023 destruiu plantações e matou mais de 1,4 milhão de animais em Malawi, segundo dados da Oxfam. Mais de 2 milhões de agricultores foram afetados. Sem seguro, sem reservas financeiras e sem apoio governamental, muitos ficaram sem sementes ou ferramentas para recomeçar. O caso de Malawi não é exceção — é um retrato global de como a crise climática empurra agricultores para um ciclo de pobreza e fome.
E, paradoxalmente, são os pequenos agricultores que sustentam o mundo. Estima-se que eles sejam responsáveis por cerca de um terço de toda a produção alimentar global, mas recebem apenas 0,8% do financiamento climático anual, de acordo com a ClimateShot Investor Coalition. Sem acesso a crédito, tecnologia e políticas de adaptação, eles enfrentam os impactos mais severos do clima com os menores recursos.

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O papel do Brasil: da floresta à mesa
Sediando a COP30, o Brasil está em posição estratégica para liderar uma transformação global nos sistemas alimentares. O país é simultaneamente potência agrícola e guardião da maior floresta tropical do planeta. No entanto, essa dualidade também revela contradições profundas: o avanço da fronteira agrícola, impulsionado por grandes corporações e pela demanda global por carne e soja, é o principal vetor de desmatamento na Amazônia — responsável por cerca de 80% da perda florestal, segundo o MapBiomas.
Essa equação, porém, pode ser redefinida. O Brasil tem o potencial de mostrar ao mundo que é possível produzir alimentos de forma regenerativa, fortalecendo agricultores familiares, valorizando cadeias da sociobiodiversidade e promovendo uma agricultura de baixo carbono. Integrar nutrição, biodiversidade e justiça social à pauta climática é o passo decisivo para uma nova política alimentar global.
Financiamento e justiça climática
Os números escancaram a urgência. O setor de agricultura e alimentação recebe menos de 5% do financiamento climático global, segundo o UNDP. Pesquisas indicam que seriam necessários US$ 1,1 trilhão por ano até 2030 para alcançar sistemas alimentares sustentáveis que gerem empregos, protejam a natureza e cumpram o Acordo de Paris.
Se o mundo não agir agora, quatro consequências são inevitáveis:
O aumento da fome global, com milhões enfrentando insegurança alimentar aguda.
O colapso dos sistemas agrícolas locais, especialmente nos países mais vulneráveis.
O abandono dos pequenos agricultores, sem recursos para adaptação e recuperação.
A continuidade do ciclo destrutivo entre degradação ambiental e desigualdade social.
Investir em resiliência alimentar não é apenas uma estratégia de mitigação climática — é uma política de justiça global. Significa garantir que povos indígenas, agricultores familiares e comunidades tradicionais possam viver da terra sem destruí-la, que o alimento chegue a todos e que a economia da floresta viva tenha valor real.
A hora da decisão
Em Belém, durante a COP30, o desafio será transformar intenções em compromissos concretos. Isso significa aumentar o financiamento climático voltado à agricultura sustentável, apoiar redes de pequenos produtores e incluir políticas de nutrição e alimentação nas metas de adaptação climática.
A segurança alimentar deve ser tratada como um pilar da ação climática, e não como consequência dela. O futuro da comida — e, por extensão, da humanidade — depende de que governos, empresas e sociedade civil entendam que combater a crise climática e combater a fome são, essencialmente, a mesma luta.

















































