Tempestade solar histórica ilumina céus da Europa e coloca sistemas em alerta


O Sol em erupção e a Terra na linha de impacto

Uma intensa tempestade solar atingiu a Terra no início desta semana, desencadeando um dos episódios mais fortes de atividade espacial registrados nas últimas duas décadas. O fenômeno, monitorado por autoridades meteorológicas dos Estados Unidos, provocou uma tempestade geomagnética de nível 4 em uma escala que vai até 5, aproximando-se de um patamar considerado extremo. O resultado foi duplo: de um lado, riscos reais para sistemas tecnológicos sensíveis; de outro, um espetáculo raro no céu, com auroras boreais visíveis em regiões onde quase nunca aparecem, incluindo diversos países da Europa e áreas de Portugal.

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O alerta foi emitido pelo Centro de Previsão do Clima Espacial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla SWPC, órgão ligado ao Serviço Nacional de Meteorologia norte-americano. Segundo os especialistas, a tempestade teve origem em uma forte erupção solar acompanhada por ejeções de massa coronal — gigantescas nuvens de plasma e campos magnéticos lançadas pelo Sol em direção ao espaço. Após viajar por dezenas de milhões de quilômetros ao longo de alguns dias, esse material atingiu o campo magnético da Terra, comprimindo-o e desencadeando perturbações globais.

Auroras além do círculo polar

Um dos efeitos mais visíveis e fascinantes da tempestade foi a ampliação do alcance das auroras boreais. Normalmente restritas às altas latitudes do hemisfério norte, as luzes coloridas passaram a ser observadas em países como Portugal, Espanha, França e outras regiões da Europa Central. Em território português, houve registros em localidades como Vila Pouca de Aguiar, Bragança, Macedo de Cavaleiros, São Pedro do Sul e Grândola, algo considerado altamente incomum.

O fenômeno ocorre quando partículas carregadas do vento solar colidem com gases da alta atmosfera terrestre, liberando energia luminosa. Quanto mais intensa a tempestade geomagnética, maior é a expansão desse “anel” de visibilidade das auroras em direção a latitudes médias. Especialistas destacam que episódios como este ajudam a visualizar, de forma concreta, a conexão permanente entre o Sol e a Terra, geralmente invisível ao olhar cotidiano.

Embora o impacto visual tenha encantado observadores e fotógrafos, os cientistas alertam que a beleza das auroras é apenas a face mais suave de um processo que pode gerar efeitos adversos significativos.

Foto: NachoBen
Foto: NachoBen

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Riscos tecnológicos e protocolos de emergência

As tempestades solares mais intensas têm potencial para afetar redes de energia elétrica, sistemas de comunicação, satélites e serviços de navegação por GPS. Durante o atual evento, o SWPC informou ter acionado protocolos de alerta junto a diversas instituições estratégicas, entre elas a NASA, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA), a Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) e a Corporação Norte-Americana de Confiabilidade Elétrica (NERC).

O objetivo é permitir que operadores de infraestrutura crítica adotem medidas preventivas, como ajustes na operação de satélites, proteção de transformadores elétricos e alterações em rotas de voos que cruzam regiões polares, onde a exposição à radiação pode aumentar. Astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional, por exemplo, podem ser orientados a permanecer em áreas mais protegidas da nave durante picos de radiação.

Embora não se espere um colapso tecnológico generalizado, episódios anteriores mostram que os riscos não são teóricos. Durante a tempestade geomagnética de maio de 2024, agricultores que utilizam sistemas de agricultura de precisão relataram falhas no GPS, incluindo clientes da fabricante de equipamentos agrícolas John Deere. Em eventos ainda mais intensos, como as tempestades de outubro de 2003, apagões atingiram regiões da Suécia e danos foram registrados em transformadores na África do Sul.

Um evento raro no ciclo solar

Segundo o meteorologista Shawn Dahl, analista do SWPC, esta é a tempestade solar mais poderosa observada desde 2003. A última vez que a Terra enfrentou uma tempestade de radiação solar desse nível foi há mais de 20 anos, durante o chamado “evento de Halloween”, que entrou para a história da meteorologia espacial. Ainda mais raro foi o episódio de nível máximo, categoria 5, registrado em 2024, o primeiro desse porte em duas décadas.

Esses eventos estão ligados ao ciclo natural de atividade do Sol, que dura cerca de 11 anos. Durante o chamado máximo solar, aumentam as manchas solares, as erupções e as ejeções de massa coronal. Cientistas afirmam que o atual ciclo tem se mostrado mais intenso do que o previsto inicialmente, o que explica a sucessão de episódios extremos nos últimos anos.

Para pesquisadores como Ryan French, físico solar do Laboratório de Física Atmosférica e Espacial da Universidade do Colorado em Boulder, tempestades como a atual reforçam a necessidade de monitoramento constante e cooperação internacional. Em um mundo altamente dependente de satélites e sistemas digitais, compreender e antecipar o comportamento do Sol deixou de ser apenas uma curiosidade científica para se tornar uma questão de segurança global.

Enquanto a tempestade enfraquece gradualmente, a Terra segue sob vigilância. O céu iluminado pelas auroras serve como lembrança poética — e ao mesmo tempo inquietante — de que a estrela que sustenta a vida no planeta também é capaz de desestabilizar a delicada rede tecnológica que molda a sociedade contemporânea.