Produção recorde, transição anunciada: o paradoxo energético brasileiro
O Brasil encerrou 2025 diante de um paradoxo que sintetiza seus dilemas ambientais, econômicos e políticos. De um lado, a Petrobras atingiu o maior nível de produção de petróleo e gás natural de sua história, impulsionada pelo pré-sal e por ganhos de eficiência operacional. De outro, o governo federal formalizou o início da construção de um “mapa do caminho” para reduzir gradualmente a dependência nacional dos combustíveis fósseis, sinalizando uma inflexão estratégica em direção à transição energética.

Os dois movimentos não são desconectados. Pelo contrário: revelam uma aposta explícita do país em usar a riqueza gerada pelo petróleo para financiar a própria superação desse modelo energético — uma estratégia que desperta tanto expectativas quanto alertas.
Petrobras bate recordes e consolida o pré-sal como motor da produção
Em 2025, a produção média de petróleo da Petrobras alcançou 2,40 milhões de barris por dia, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior. Considerando óleo e gás natural, a produção total chegou a 2,99 milhões de barris de óleo equivalente por dia, superando com folga as metas previstas no Plano de Negócios 2025–2029.
O desempenho foi puxado pelo pré-sal, que respondeu por 82% da produção total da companhia. Campos como Búzios e Mero, na Bacia de Santos, concentraram os novos recordes, com destaque para o FPSO Almirante Tamandaré, que se tornou a plataforma de maior produção do país, operando próximo a 240 mil barris diários.
Com apenas seis plataformas, o campo de Búzios atingiu a marca de 1 milhão de barris de óleo por dia em produção operada, evidenciando a alta produtividade dos poços. A entrada em operação da plataforma P-78, no fim de dezembro, reforça a trajetória de crescimento.
Segundo a estatal, o resultado é fruto de ganhos expressivos de eficiência operacional, integração das equipes e confiabilidade dos ativos. Mas o avanço ocorre em um momento em que a expansão da fronteira petrolífera brasileira, inclusive em áreas sensíveis como a Margem Equatorial, passa a ser questionada à luz das metas climáticas globais.
Lula encomenda mapa para o fim dos fósseis e propõe fundo de transição
Em dezembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou a elaboração de um plano nacional para orientar uma transição energética “justa e planejada”. O despacho, publicado no Diário Oficial da União, mobiliza os ministérios de Minas e Energia, da Fazenda, do Meio Ambiente e a Casa Civil, que terão 60 dias para apresentar uma proposta ao Conselho Nacional de Política Energética.
O documento prevê a redução gradual da dependência de petróleo, gás e carvão, além da criação de um Fundo para a Transição Energética, abastecido com parte das receitas públicas provenientes da exploração de combustíveis fósseis. A ideia foi defendida por Lula em fóruns internacionais, como a COP30, como um caminho viável para países em desenvolvimento financiarem sua adaptação climática sem comprometer o crescimento econômico.
Organizações da sociedade civil, como o Observatório do Clima, avaliam a iniciativa como positiva, mas alertam para o risco de que o discurso da transição seja usado para justificar a ampliação da exploração petrolífera. O desafio, afirmam, será transformar diretrizes em políticas efetivas, com metas claras, prazos e mecanismos de controle.

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Brasil 2045: potencial verde, conflitos estruturais e injustiça energética
O relatório internacional Brazil 2045: Strategies for a Just Energy Transition aponta que o Brasil tem condições técnicas de se tornar uma economia carbono-negativa até 2045. Em 2023, quase 90% da eletricidade do país já era gerada por fontes renováveis, como hidrelétricas, eólicas, biomassa e solar.
Esse quadro, porém, convive com contradições profundas. O setor de energia responde por quase 18% das emissões nacionais de gases de efeito estufa, com o transporte como principal fonte. Além disso, quase 1 milhão de pessoas na Amazônia Legal ainda vivem sem acesso à eletricidade, enquanto mais da metade das famílias de baixa renda gasta até 50% de seus rendimentos com energia e combustível para cozinhar.
O relatório critica subsídios aos combustíveis fósseis, que chegaram a R$ 80,9 bilhões em 2022, e a manutenção de políticas que prolongam o uso de carvão e gás. Também alerta para conflitos socioambientais associados à expansão de projetos renováveis mal planejados, como parques eólicos e mineração de lítio, que afetam comunidades tradicionais sem consulta prévia.
Para os autores, uma transição justa exige não apenas mudar a matriz energética, mas enfrentar a pobreza energética, reformar o modelo de transportes, investir em armazenamento de energia e priorizar soluções descentralizadas.
O dilema brasileiro entre o presente do petróleo e o futuro do clima
O Brasil avança simultaneamente em duas direções que parecem opostas, mas que hoje se cruzam. A produção recorde da Petrobras fortalece as finanças públicas e a posição do país no mercado global de energia. Ao mesmo tempo, o governo reconhece que esse modelo tem prazo de validade e precisa financiar sua própria substituição.
O sucesso dessa equação dependerá de escolhas políticas concretas: onde investir, quais subsídios manter ou eliminar e quem pagará — ou se beneficiará — da transição. Entre recordes históricos e promessas de futuro, o país escreve agora um dos capítulos mais decisivos de sua política energética.











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