Urgência da transição energética é destaque em evento sobre mudanças climáticas

O Brasil tem características naturais que devem ser mais fortemente utilizadas para a transição energética. Isso fará o país avançar de fato nas estratégias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas e servirá de exemplo para outras nações. A avaliação foi feita por Moacyr Araújo, professor e vice-reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e integrante da Rede Clima, durante evento que celebrou os 15 anos do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

A cerimônia foi realizada no dia 29 de agosto, no Auditório da FAPESP. Além dos pronunciamentos de abertura e de um filme de apresentação do PFPMCG, três mesas, com pesquisadores do programa e convidados, deram substância ao evento: “Panorama Atual das Mudanças Climáticas”, “Nossas Cidades Enfrentando as Mudanças Climáticas” e “Oceanos, Ecossistemas Terrestres e Produção de Alimentos no Contexto das Mudanças Climáticas”.

Na abertura, o professor Marcio de Castro Silva Filho, diretor científico da FAPESP, afirmou que cerca de 800 propostas de pesquisa já foram financiadas pela FAPESP no âmbito do programa, com um dispêndio de aproximadamente R$ 140 milhões.

“O programa oferece a perspectiva de um planejamento de longo prazo, com acompanhamento e avaliação. E, consequentemente, o impacto que essas pesquisas têm na consolidação da área, na geração de conhecimento novo e na formação de recursos humanos são uma assinatura e uma qualificação importantíssima do projeto”, disse.

Na sequência, o físico Paulo Artaxo, membro da Coordenação do PFPMCG, lembrou que o programa foi criado a partir de uma carta endereçada, em 2005, à Diretoria Científica da FAPESP. Assinada por um grupo multidisciplinar de cientistas, a carta solicitava a criação de um programa sobre mudanças climáticas. Os signatários eram os professores João Steiner, Carlos Cerri, José Goldemberg, Jacques Marcovitch, Carlos Nobre, Carlos Joly, Reynaldo Luiz Victória, Paulo Artaxo e Daniel Hogan. A solicitação foi acolhida, várias providências foram tomadas e, em 2008, o PFPMCG foi oficialmente lançado, com as primeiras chamadas de propostas.

“Atualmente, o comitê do Programa Mudanças Climáticas FAPESP é composto por Jean Ometto [Inpe], Patrícia Morellato [Unesp], Maria de Fátima Andrade [USP], Gilberto Jannuzzi [Unicamp] e eu”, informou Artaxo. E descreveu sucintamente a evolução do programa ao longo de seus 15 anos. “Sempre fizemos questão de estruturar parcerias, porque ninguém hoje faz ciência de alto nível de maneira isolada. Assim, estabelecemos colaborações nacionais e internacionais. Por exemplo, com o Belmont Forum. Mantivemos o compromisso de trabalhar com a comunidade de pesquisadores de mudanças climáticas, realizando mais de 48 eventos. E, por último, a divulgação científica, levando os conhecimentos obtidos para a sociedade, tornou-se também um aspecto importante de nossa atuação.”

O coordenador informou que o Plano Estratégico 2020-2030, apresentado à Diretoria Científica da FAPESP, contempla sete subáreas: “Política energética e socioeconomia”, “Modelagem climática e ambiental”, “Biodiversidade e ecossistemas”, “Mudanças de uso do solo e agropecuária”, “Urbanização e mudanças climáticas”, “Saúde e mudanças climáticas” e “Dimensões sociais e econômicas”. “Um tema importante a ser trabalhado nos próximos 15 anos são as pesquisas relacionadas com a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas, porque todo mundo sabe que o clima já mudou”, destacou Artaxo.

A Mesa 1, que tratou do subtema “Panorama Atual das Mudanças Climáticas” e foi moderada pelo próprio Artaxo, reuniu Thelma Krug, integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC); Márcio Rojas, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); e Moacyr Araújo, já citado.

Krug apresentou evidências do aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e de sua conexão com as mudanças climáticas em curso. “É indiscutível que a influência humana tenha aquecido a atmosfera, os oceanos, a criosfera e a biosfera terrestre. Os aumentos das concentrações de GEE desde 1750 são inequivocamente causados por atividades humanas”, disse. E mostrou as transformações decorrentes em todo o sistema climático, especialmente o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, a modificação do regime de chuvas e o derretimento das calotas polares, do permafrost e das geleiras. Ondas de calor ou de frio, secas ou enchentes calamitosas e incêndios florestais fazem parte do cenário.

A pesquisadora mostrou, em seguida, os cenários globais e regionais associados a diferentes aumentos de temperatura: de 1,5 °C a 4 °C. “Não estamos em uma trajetória de emissões compatível com limitar o aquecimento a 1,5 °C”, afirmou. Vale lembrar que o aumento da temperatura média global se encontra atualmente na faixa de 1,1 °C. A meta estabelecida pelo Acordo de Paris é manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2 °C em relação aos níveis pré-industriais. E, de preferência, limitar o aumento a 1,5 °C. Para isso, as emissões de GEE devem ser reduzidas o mais rapidamente possível, de modo a se alcançar uma taxa líquida (emissões menos absorções) igual a zero em meados deste século.

Na apresentação seguinte, Márcio Rojas falou de iniciativas que estão sendo implementadas no nível do governo federal, como a atualização do Plano Clima, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente. “A ideia é que tenhamos um Plano Clima composto por uma estratégia geral de mitigação e planos setoriais de mitigação e também por uma estratégia geral de adaptação e planos setoriais de adaptação. Outro desafio importante, coordenado pelo Ministério da Fazenda, é a elaboração do Plano de Transformação Ecológica, implementando instrumentos tipicamente fazendários para promover a transição energética”, resumiu.

Araújo, o terceiro integrante da mesa, enfatizou: “Estamos virando a chave, passando do período de diagnóstico para a necessidade de ação”. Segundo ele, o grande desafio é saber como a ciência pode ajudar nesta nova fase, que é a fase da ação. “Depois do apagão federativo, que nós vivemos durante os últimos quatro ou seis anos, houve o surgimento e o fortalecimento de várias entidades subnacionais, que se transformaram em participantes e sustentadoras desse grande ‘ecossistema’ de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Precisamos utilizar essa capilaridade para fazer uma ciência direcionada, isto é, uma ciência que se transforme de fato em algo capaz de agir na ponta. E, nisso, o Adapta Brasil tem um papel fundamental”, afirmou.

Desenvolvido por meio de cooperação entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Rede Nacional de Pesquisa e Ensino (RNP), e fomentado pelo MCTI, o Adapta Brasil tem por objetivo consolidar, integrar e disseminar informações que possibilitem o avanço das análises dos impactos da mudança do clima, observados e projetados no território nacional, dando subsídios às autoridades competentes para ações de adaptação.

Na Mesa 2, dedicada ao subtema “Nossas Cidades Enfrentando as Mudanças Climáticas”, participaram Gabriela Celani, do Centro de Estudos sobre Urbanização para o Conhecimento e a Inovação da Universidade Estadual de Campinas (Ceuci-Unicamp), Debora Sotto, do Centro de Síntese Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), e Giuliano Locosselli, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP. A moderação foi dos coordenadores Maria de Fátima Andrade e Gilberto Jannuzzi.

Tendo como pano de fundo o dado de que as aglomerações urbanas concentram 57% da população mundial e 88% da população brasileira, Celani afirmou que as cidades são, ao mesmo tempo, vítimas e vilãs das mudanças climáticas. São elas que sofrem mais fortemente os impactos de eventos como ondas de calor e enchentes. Mas são elas que produzem também 75% das emissões de GEE e consomem 75% da energia primária global.

Segundo a pesquisadora, as estratégias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas vão exigir, nas cidades, medidas que talvez não sejam muito simpáticas, mas que são certamente necessárias: aumentar a densidade urbana por meio da verticalização; frear a expansão do perímetro urbano; aumentar a diversidade social e a diversidade de usos dos bairros; trocar o jardim privado pelo parque público; reduzir o número de automóveis e usar transporte coletivo; adotar a mobilidade ativa (caminhar, pedalar); e reduzir o uso de aparelhos de ar condicionado.

Por meio de dois infográficos, Celani mostrou que a temperatura das cidades é sensivelmente maior do que a das áreas rurais. “Uma maior concentração de massa construída leva também a uma maior temperatura, é claro. Mas isso pode ser mitigado com uma melhor distribuição dos parques, das praças, das áreas verdes e paredes verdes”, explicou. No esquema apresentado, o pico de temperatura cairia de 34 °C para 31 °C com esse tipo de solução.

Dando seguimento às apresentações, Debora Sotto ressaltou a importância de ações climáticas em âmbito local. E informou que a entidade à qual pertence, o Centro de Síntese Cidades Globais do IEA-USP, possui um braço de ciência aplicada, que é o USP-Municípios, voltado para a criação de projetos sustentáveis sob encomenda dos municípios do Estado de São Paulo.

O grande problema, como apontou Sotto, é que existe um abismo entre as soluções avançadas formuladas na academia e o chamado mundo real. Apenas 4% dos municípios brasileiros, aproximadamente, têm algum tipo de legislação relativa às questões climática e ambiental.

“Os estados devem formular políticas para engajar os municípios, com ações climáticas que sejam participativas, mensuráveis e auditáveis. Isso leva à formulação de planos de ação climática locais, com ações de mitigação, adaptação e estratégia de enfrentamento e remediação de desastres”, disse.

Giuliano Locosselli, o apresentador seguinte, informou que o aumento da temperatura média é duas vezes maior nas cidades do que fora delas. “Mas, em algumas cidades, isso é muito pior. Na cidade de São Paulo, por exemplo, houve um aumento de 3 °C a 4 °C na temperatura média do ar nas últimas décadas. Em Londres, o aumento foi de 6 °C a 7 °C. Em praticamente todas as cidades do globo, existe um crescimento de casos de morte prematura decorrente dos problemas cardiovasculares associados ao aumento da temperatura”, afirmou.

No contexto de buscar soluções multifuncionais para esses problemas, Locosselli trouxe um tema que é hoje muito forte nas conversas sobre clima e meio ambiente: o de “soluções baseadas na natureza”. Mas levantou um problema: de que natureza se está falando? Por exemplo, na cidade de São Paulo, qual é a natureza na qual devemos nos inspirar? “A resposta natural é dizer ‘Mata Atlântica’, porque a cidade está dentro do domínio da Mata Atlântica, e era isso que havia aqui antes. Mas, na realidade, as condições da cidade mudaram completamente. Se a gente considera o clima da cidade como um todo, a distribuição da vegetação da cidade como um todo, e associa isso às características dos biomas naturais, a Mata Atlântica é associada a boa parte da cidade. Mas outra parte se associa muito mais ao Cerrado. Para construir uma infraestrutura verde, é preciso levar isso em conta”, argumentou.

O evento seguiu com a Mesa 3, dedicada aos subtemas “Oceanos, Ecossistemas Terrestres e Produção de Alimentos no Contexto das Mudanças Climáticas”. Sob a moderação de Morellato e Ometto, participaram Ronaldo Christofoletti, do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Kênia Bícego, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (FCAV-Unesp), e David Lapola, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (Cepagri-Unicamp).

Christofoletti lembrou que 70% da cobertura do planeta é constituída pelos oceanos e que a zona costeira concentra a maior parte da população mundial. No Brasil, 4% do território, correspondente à faixa litorânea, abriga 25% da população. Esse enorme contingente humano sofre impactos a mais, decorrentes da elevação do nível do mar e de eventos extremos, com chuvas, ressacas e outras ocorrências. Em fevereiro deste ano, a Baixada Santista do Estado de São Paulo registrou a maior chuva da história, com alagamentos, deslizamentos de encostas e consequências trágicas para a população.

Mas não é só isso, infelizmente. “Temos neste ano os registros mais quentes da temperatura média da água do mar. No dia 29 de maio, foi registrada uma temperatura de 20,95 °C. E esse recorde foi quebrado em 1º de agosto, com uma temperatura de 20,96 °C”, informou o pesquisador. Essas medições correspondem à temperatura média diária de uma enorme faixa oceânica que vai de 60 graus de latitude norte a 60 graus de latitude sul.

“Não temos ideia do impacto que as temperaturas deste ano terão em termos de biodiversidade e ecossistemas, porque é algo sem precedentes”, enfatizou Christofoletti. Alterações na cadeia alimentar, no ciclo larval e outras em função da elevação de temperatura já são conhecidas. “Na costa da África do Sul, um país cuja economia depende muito da pesca, a água vem aquecendo tanto que os estoques pesqueiros estão subindo para a Namíbia”, exemplificou Christofoletti.

Na apresentação seguinte, Bícego falou das respostas da fauna às alterações do ambiente. “A sobrevivência, ocupação dos hábitats, desempenho e reprodução dependem das capacidades e tolerâncias fisiológicas a variações de temperaturas e disponibilidade de água e alimentos. Prolongamentos de estações secas podem fazer com que o animal tenha que esperar um tempo maior para ter acesso a recursos como água e alimento.” A pesquisadora mostrou exemplos, dizendo que estresse hídrico, por si só, independentemente da temperatura, já faz diminuir o desempenho locomotor do sapo cururu. “Animais tendem a priorizar a conservação de água e energia em relação a outras funções”, explicou.

Na última apresentação do evento, David Lapola tratou dos ecossistemas terrestres como causadores das mudanças climáticas e, ao mesmo, vítimas delas. “A região tropical é forte emissora, principalmente devido ao desmatamento. Por outro lado, responde por 40% da absorção de carbono”, disse.

Nesse contexto, Lapola reiterou uma informação muito preocupante, já bastante debatida nos eventos sobre mudanças climáticas e reproduzida pela mídia. A de que a força de sumidouro de carbono da Amazônia diminuiu 30% desde 1990. E que, mantidos os índices de desmatamento e degradação florestal, a floresta poderá se transformar de sumidouro para emissora de carbono em meados da próxima década.

Lapola falou, em seguida, sobre o Amazon Face Experiment. O experimento – atualmente apoiado pela FAPESP, pelo MCTI, pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Foreign, Commonwealth and Development Office (FCDO), do Reino Unido – busca avaliar o impacto que um aumento substancial da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera poderá exercer sobre a Amazônia, considerando a floresta, seus fluxos de carbono, sua ciclagem de nutrientes, sua biodiversidade, seus recursos hídricos e os serviços ecossistêmicos que fornece.

Conforme detalha o site do Amazon Face, o pivô central do programa é um experimento de campo que irá expor uma área da floresta madura, localizada a 80 quilômetros ao norte de Manaus, a uma concentração de CO2 50% maior que a encontrada atualmente na atmosfera. Para isso, quando estiver completamente instalado, o programa contará com seis grandes anéis circulares, cada qual formado por 16 torres. Três anéis vão aspergir sobre os respectivos locais uma atmosfera enriquecida em CO2, enquanto os outros três, empregados como controle, vão aspergir o ar ambiente. Os resultados deverão orientar as estratégias de mitigação e adaptação.

A íntegra do evento pode ser conferida em: www.youtube.com/watch?v=cE639K7ZzeA.

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