Uso sustentável na Amazônia e o impacto do manejo participativo em 26 áreas protegidas para fortalecer a bioeconomia e comunidades tradicionais.

Foto: Miguel Monteiro

A convergência entre a sabedoria ancestral dos povos da floresta e o rigor da investigação científica contemporânea atingiu um novo patamar de institucionalização na Amazônia. Entre os dias 29 e 30 de março de 2026, um encontro estratégico reuniu comunidades tradicionais, pesquisadores e gestores públicos para consolidar o manejo sustentável em 26 áreas protegidas que, somadas, superam a extensão territorial da Suíça. O evento, realizado de forma síncrona entre o Instituto Mamirauá, em Tefé (AM), e o Instituto Federal do Pará, em Bragança (PA), marcou o ciclo de avaliação dos projetos Entre Águas Amazônicas e Sustenta Mangue. Estas iniciativas não apenas visam a proteção de estoques biológicos críticos, como o pirarucu e o caranguejo, mas estabelecem uma nova gramática para a bioeconomia, onde o protagonismo comunitário é o motor da conservação em ecossistemas de várzea e manguezal.

A ciência da várzea e o fortalecimento dos maretórios

O conceito de “maretório” — território regido pela dinâmica das marés — ganhou centralidade nas discussões sobre a resiliência das reservas extrativistas do Salgado Paraense. A integração técnica promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação foca na aplicação de metodologias que permitem o uso dos recursos naturais sem comprometer sua capacidade de regeneração. Um dos pilares dessa estrutura é a expansão do manejo do pirarucu, técnica refinada pelo Instituto Mamirauá que agora recebe um impulso inédito do Governo Federal. A aprovação do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) para 5 mil manejadores no Amazonas transforma o cuidado com a biodiversidade em um ativo financeiro direto, reconhecendo que manter os estoques pesqueiros e a floresta em pé é um serviço prestado à humanidade. Essa abordagem mitiga a pressão ambiental e oferece uma resposta concreta às ameaças climáticas que pairam sobre as áreas alagáveis.

Recurso Agroflorestal Bernardo Oliveira 4
Foto: Bernardo Oliveira

Cadeias produtivas e a inovação na bioeconomia local

Para além da pesca, os projetos estruturam uma diversidade de frentes econômicas que respeitam o ritmo da natureza. No Amazonas, a cadeia de manejo do jacaré e o fortalecimento da agroecologia são acompanhados pela expansão do turismo de base comunitária, criando alternativas de renda que fixam o jovem no território. No Amapá, o foco recai sobre o manejo florestal madeireiro e não madeireiro, garantindo que a extração seja feita sob critérios rigorosos de sustentabilidade em florestas nacionais e estaduais. No litoral paraense, o caranguejo-uçá e outros pescados das reservas extrativistas são o centro de uma estratégia de segurança alimentar que beneficia diretamente mais de 8 mil pessoas. A meta é clara: transformar a riqueza biológica em prosperidade social, utilizando a inovação científica para otimizar processos que as comunidades já realizam de forma intuitiva há séculos.

Formação de lideranças e o diálogo de saberes

A sustentabilidade de longo prazo destes projetos repousa sobre a formação de novas lideranças. O eixo estratégico de educação envolve percursos formativos voltados para a gestão territorial, capacitando jovens integrantes de coletivos como a Rede Cuíra para administrar seus próprios negócios sustentáveis. O encontro anual serviu como uma câmara de eco para essas vozes, onde a avaliação das atividades do primeiro ano foi feita de forma participativa, utilizando linhas do tempo e rodas de diálogo. Ao ouvir as associações de usuários, como a AUREMAG, o projeto garante que as soluções construídas não sejam imposições externas, mas sim o resultado de uma construção coletiva. Essa metodologia de escuta e troca de experiências é o que diferencia a pesquisa aplicada de alto impacto da assistência técnica convencional, fortalecendo a rede de apoio que envolve desde associações locais até a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

Reserva Mamiraua Miguel Monteiro
Foto: Miguel Monteiro

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Governança integrada e o financiamento da conservação

A viabilidade técnica e financeira destas ações é garantida por uma rede complexa de cooperação internacional e nacional. O projeto Entre Águas Amazônicas conta com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente, enquanto o Sustenta Mangue é viabilizado pela Fundação Gordon e Betty Moore. Essa sinergia entre agências executivas governamentais e fundos privados internacionais permite uma atuação capilarizada em territórios de difícil acesso. A integração entre o Amazonas, o Pará e o Amapá cria um corredor de proteção que é vital para a manutenção dos serviços ecossistêmicos da bacia amazônica. Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, a proteção de manguezais e várzeas deixa de ser uma opção e torna-se uma urgência de segurança nacional e global, exigindo que o cuidado com o bioma seja feito “todo mundo junto”, respeitando a realidade de quem faz da floresta o seu pão de cada dia.

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