Reciclagem de vidro esbarra em logística e mercado

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Vidro economia circular: potencial infinito, entraves reais

Vidro é símbolo clássico de reciclagem. Transparente, resistente, infinitamente reaproveitável, ele ocupa lugar estratégico na economia circular. Tecnicamente, pode retornar ao ciclo produtivo inúmeras vezes sem perder qualidade. Diferentemente de outros materiais, não se degrada quimicamente no processo. Ainda assim, no Brasil, parte significativa das embalagens de vidro segue para aterros sanitários ou lixões, desperdiçando valor ambiental, social e econômico.

O paradoxo nasce fora das fábricas e dentro da logística. O problema não está na capacidade de reciclar, mas na estrutura para coletar, transportar, processar e reinserir o material na cadeia produtiva. A jornada do vidro descartado é longa, pesada e, muitas vezes, financeiramente desvantajosa.

Em regiões como Norte e Nordeste, a ausência de indústrias processadoras impõe deslocamentos interestaduais. Em Belém, por exemplo, o vidro coletado precisa viajar até Mogi das Cruzes, em São Paulo, para ser transformado em nova matéria-prima. O frete encarece a operação, especialmente porque o vidro é pesado e tem baixo valor comercial por tonelada. Em muitos casos, a receita obtida com a venda do material não cobre o custo do transporte.

A equação se torna ainda mais complexa quando se observa que grande parte dos municípios brasileiros não dispõe de coleta seletiva específica para vidro. No sistema conhecido como coleta misturada, ou single-stream, embalagens de vidro se quebram durante o transporte e contaminam papel, papelão e outros recicláveis. O resultado é perda de qualidade, redução de valor de mercado e aumento do descarte.

Logística, segurança e mercado: gargalos estruturais

Vidro é material inerte. Não libera substâncias tóxicas, não se decompõe, não altera o sabor ou a qualidade dos produtos armazenados. Justamente por isso é amplamente utilizado na indústria de bebidas e alimentos. Porém, fora do ambiente industrial, apresenta riscos concretos.

O caráter perfurocortante transforma o vidro em uma das principais causas de acidentes na coleta e triagem manual. Quando descartado de forma inadequada, sem proteção ou sinalização, torna-se ameaça direta a garis e catadores. Em cidades brasileiras, já houve registros de que o vidro respondeu por mais de um quarto dos acidentes na coleta em determinados períodos.

A triagem manual, predominante no país, intensifica esse risco. Fragmentos podem cortar mãos e braços, além de danificar equipamentos em centrais mecanizadas. Sem Equipamentos de Proteção Individual adequados, o risco se multiplica.

Outro obstáculo é o baixo valor comercial. Diferentemente do alumínio, que possui alta cotação e forte demanda, o vidro é subestimado na cadeia de reciclagem. Cooperativas frequentemente priorizam materiais mais rentáveis, deixando o vidro em segundo plano. Em regiões onde não há comprador local, o material pode permanecer armazenado por meses ou acabar descartado.

A ausência de Pontos de Entrega Voluntária exclusivos também limita a participação da população. Sem locais apropriados, muitos consumidores descartam o vidro no lixo comum ou de maneira irregular. Falta educação ambiental contínua e infraestrutura suficiente para estimular a separação correta.

Reprodução
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Créditos reciclagem: quando responsabilidade vira ativo

Diante dessas barreiras, o sistema de créditos de reciclagem surge como mecanismo de compensação ambiental. Ele permite que empresas cumpram obrigações legais de logística reversa financiando a coleta e a destinação realizadas por cooperativas e operadores já atuantes.

O fundamento jurídico está na Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305/2010. A legislação determina que fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes são responsáveis pelo ciclo de vida das embalagens que colocam no mercado.

A regulamentação foi reforçada pelo Decreto nº 11.003/2022, conhecido como Recicla+ e pelo Decreto nº 11.300/2022, que trata especificamente de embalagens de vidro.

Nesse modelo, empresas que não realizam a logística reversa diretamente investem na compra de créditos equivalentes à quantidade de material que precisam compensar. Esses recursos financiam cooperativas, operadores logísticos e infraestrutura de triagem.

A rastreabilidade é garantida por notas fiscais eletrônicas emitidas pelos agentes da cadeia, além de mecanismos de verificação independente que asseguram autenticidade e unicidade das transações, evitando que o mesmo volume gere créditos duplicados. O Manifesto de Transporte de Resíduos confirma que o material chegou à indústria recicladora.

Plataformas especializadas, como a eureciclo, operacionalizam parte desse sistema, conectando empresas à base de reciclagem. Em estados como Amazonas, os créditos podem representar acréscimo mensal significativo na renda das cooperativas, viabilizando operações que, sem apoio financeiro, seriam inviáveis.

Estados também avançam na regulamentação própria. Na Paraíba, por exemplo, o sistema SISREV-RECICLA+PB estrutura diretrizes estaduais para implementação e monitoramento.

Foto: Wikiseelie Y
Foto: Wikiseelie Y

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Caminhos para fortalecer cadeia vidro

Superar entraves da reciclagem de vidro exige abordagem integrada. Investimentos em trituradores nas cooperativas reduzem volume e facilitam transporte. O vidro moído ocupa menos espaço e apresenta menor risco de acidentes.

A coleta em fração única, separando vidro de outros materiais, reduz contaminação cruzada e melhora qualidade dos recicláveis. A ampliação de Pontos de Entrega Voluntária exclusivos também é estratégia eficaz, pois evita quebra excessiva durante o transporte inicial.

Políticas públicas podem incentivar instalação de novas plantas de beneficiamento em regiões hoje desassistidas, encurtando distâncias logísticas. Além disso, campanhas permanentes de educação ambiental são essenciais para modificar comportamento do consumidor.

O vidro reúne atributos raros: reciclabilidade infinita, estabilidade química, potencial de geração de renda e redução de impacto ambiental. No entanto, sem logística estruturada, financiamento adequado e engajamento social, esse potencial se perde.

Quando créditos de reciclagem transformam responsabilidade ambiental em ativo financeiro, cria-se fluxo de recursos que sai das empresas e chega às cooperativas. Essa engrenagem fortalece economia circular, reduz pressão sobre aterros e amplia inclusão socioeconômica.

O desafio brasileiro não está na capacidade técnica de reciclar vidro, mas na construção de um ecossistema eficiente que conecte consumidores, cooperativas, indústria e poder público. Transformar vidro descartado em nova embalagem não é apenas questão industrial. É decisão estratégica de desenvolvimento sustentável.