Sema debate gestão hídrica e crise climática em fórum internacional em Manaus

Fotos: Noir Miranda/Sema
Fotos: Noir Miranda/Sema

Diálogos sobre o fluxo da vida: a nova governança das águas no Amazonas

O coração da floresta tropical tornou-se o palco de uma convergência necessária entre a ciência acadêmica e o pragmatismo da gestão pública. Em Manaus, o II Workshop Água e Clima: Saberes da Amazônia, promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas, estabeleceu um marco nas celebrações do Dia Mundial da Água e do Dia Internacional das Florestas. O evento não se limitou a exposições teóricas, mas funcionou como uma oficina de soluções para um estado que, embora banhado pelas maiores bacias hidrográficas do planeta, enfrenta desafios crescentes de adaptação climática e saneamento.

Sob a liderança de Eduardo Taveira, titular da pasta ambiental, o encontro destacou que o Amazonas tem consolidado políticas de recursos hídricos que servem de bússola para a Amazônia Legal e para o restante do país. A estratégia estadual, capitaneada pelo governo de Wilson Lima, foca na descentralização da gestão e no empoderamento das comunidades locais. Esse modelo de governança busca transformar a relação passiva com os rios em uma gestão ativa e técnica, capaz de prever crises e garantir a segurança hídrica para as populações ribeirinhas e urbanas.

Comitês de bacia e a democracia hídrica territorial

Um dos avanços mais palpáveis apresentados durante o fórum foi a expansão dos Comitês de Bacias Hidrográficas, instâncias fundamentais para a gestão participativa. A implementação do plano de gestão da bacia do Tarumã e a estruturação da gestão comunitária do Igarapé do Quarenta, em parceria com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano, simbolizam uma mudança de paradigma. Ao eleger gestores comunitários para cuidar desses espaços, o Estado transfere a responsabilidade e o zelo para quem vive o cotidiano das águas, garantindo que as políticas públicas tenham aderência à realidade local.

MONICA VASCONCELOS
Fotos: Noir Miranda/Sema

Essa estruturação faz parte do Sistema Estadual de Gerenciamento dos Recursos Hídricos do Amazonas, que ganha musculatura por meio de programas como o Progestão. O objetivo é claro: fortalecer as capacidades técnicas para que as decisões sobre o uso da água não sejam tomadas de forma isolada, mas sim através de um pacto nacional que integre diferentes esferas de poder e a sociedade civil. A criação desses comitês representa o amadurecimento institucional do Amazonas, que passa a tratar seus igarapés e rios não apenas como vias de transporte, mas como ativos ambientais finitos que exigem proteção jurídica e técnica.

A ciência do clima e o valor dos saberes tradicionais

O debate científico ganhou contornos humanos com a participação de instituições como o Instituto Leônidas e Maria Deane. Pesquisadores reforçaram que a inovação tecnológica no tratamento de resíduos e a saúde ambiental são indissociáveis da adaptação climática. Salete Almeida, da Fiocruz Amazônia, ressaltou que levar informações técnicas simplificadas à população é uma ferramenta de resistência contra os efeitos extremos do clima. A ciência, neste contexto, atua como uma ponte que traduz dados complexos em práticas diárias de conservação.

Por outro lado, a dimensão sociopolítica das mudanças climáticas foi trazida pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. Mônica Vasconcelos, analista da instituição, pontuou que qualquer política pública de adaptação será inócua se ignorar o saber tradicional. A relação simbiótica entre o homem amazônico e a natureza, transmitida por gerações, oferece pistas valiosas para a gestão de desastres e para a resiliência territorial. O workshop evidenciou que a tecnologia de ponta do Censipam deve caminhar de mãos dadas com a percepção empírica dos povos da floresta para que as estratégias de sobrevivência sejam verdadeiramente eficazes.

SALETE ALMEIDA
Fotos: Noir Miranda/Sema

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Capacitação e governança para o futuro das águas

O encerramento das atividades reforçou o papel da educação continuada como pilar da sustentabilidade. Por meio do Plano de Capacitação em Recursos Hídricos e Saneamento Básico, o governo estadual investe no aperfeiçoamento de gestores públicos e membros da sociedade civil. Essas oficinas e seminários não são apenas eventos isolados, mas parte de uma engrenagem maior de fortalecimento institucional. Ao capacitar quem decide, o Estado garante que a governança das águas seja técnica, ética e transparente.

O legado do II Workshop Água e Clima é a certeza de que o Amazonas está construindo uma infraestrutura invisível, mas poderosa: a do conhecimento compartilhado. A integração entre órgãos governamentais, centros de pesquisa e comunidades tradicionais cria uma rede de proteção que prepara o estado para os incertos cenários climáticos de 2026 e além. Com a consolidação do pacto pela gestão das águas, o Amazonas reafirma sua posição como protagonista na agenda ambiental global, demonstrando que a conservação da água é, em última análise, a conservação da própria vida na floresta.

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