Em 1977, um príncipe saudita levou um bloco de geleira do Alasca até os EUA para provar que dava para rebocar icebergs e matar a sede do deserto

Em 1977, um príncipe saudita levou um bloco de geleira do Alasca até os EUA para provar que dava para rebocar icebergs e matar a sede do deserto
Foto: Frank K./Wikimedia Commons (CC BY 2.0). Icebergs desprendidos de geleira no lago Portage, no Alasca.

Em outubro de 1977, a Universidade Estadual de Iowa, no meio dos Estados Unidos, recebeu um visitante gelado: um bloco de gelo de geleira trazido do Alasca. A peça fazia parte da primeira conferência internacional sobre o uso de icebergs como fonte de água doce, idealizada pelo príncipe saudita Mohammed al-Faisal. A ideia que ele defendia era rebocar icebergs gigantes da Antártida até o Oriente Médio para abastecer regiões desérticas.

O príncipe da água

Mohammed al-Faisal, filho do rei Faisal da Arábia Saudita, estava à frente de projetos de dessalinização no país, que tem pouquíssima água doce. Em meados dos anos 1970, ele passou a defender uma alternativa ousada: em vez de tirar o sal da água do mar, por que não aproveitar a enorme quantidade de água doce congelada nos icebergs que se soltam da Antártida?

Para levar a proposta a sério, ele criou uma empresa para estudar o transporte de icebergs e apoiou a organização de um encontro científico.

A conferência de Iowa

O encontro reuniu cerca de 200 pesquisadores, engenheiros e especialistas de vários países no campus da universidade, em Ames. Eles discutiram como escolher um iceberg, como rebocá-lo por milhares de quilômetros, como evitar que derretesse no caminho e como transformar o gelo em água utilizável ao chegar.

Para chamar atenção, os organizadores levaram ao campus um bloco de gelo retirado de uma geleira do Alasca. Segundo relatos da época, o transporte combinou helicóptero, avião e caminhão refrigerado. Os relatos da época divergem sobre o peso do bloco, citado entre uma e duas toneladas.

O plano e os problemas

A proposta era envolver um iceberg da Antártida em material isolante e rebocá-lo com navios até o mar Vermelho, numa viagem de meses. Os estudos apresentados mostraram desafios enormes:

  • o derretimento durante a viagem por águas quentes;
  • o risco de o iceberg se partir ou virar;
  • a força necessária para rebocar milhões de toneladas de gelo;
  • o custo, estimado na época em cerca de 100 milhões de dólares, segundo relatos.

O projeto nunca saiu do papel. Ainda assim, a ideia de usar icebergs como fonte de água volta de tempos em tempos e já foi estudada por governos e empresas de outros países secos.

O legado

Segundo a própria Universidade Estadual de Iowa, que guarda registros da conferência em seus arquivos, o príncipe é lembrado pelo plano do iceberg, mas seu legado mais duradouro foi ajudar a criar o setor de dessalinização da Arábia Saudita, hoje um dos maiores do mundo.

E a Amazônia?

A história mostra até onde países sem água estão dispostos a ir para conseguir água doce. A bacia amazônica, responsável por algo entre 15% e 20% de toda a água doce que os rios do planeta levam aos oceanos, é o oposto do deserto saudita, mas também depende de chuva regular e de florestas preservadas para manter esse volume.

Perguntas frequentes

Quem levou gelo do Alasca a Iowa?

Os organizadores da conferência sobre uso de icebergs de 1977, idealizada pelo príncipe saudita Mohammed al-Faisal.

O plano de rebocar icebergs deu certo?

Não. Os custos e os desafios técnicos impediram que saísse do papel.

Onde foi a conferência?

Na Universidade Estadual de Iowa, em Ames, nos Estados Unidos, em outubro de 1977.

Por que a Arábia Saudita queria icebergs?

Porque o país tem pouquíssima água doce e depende da dessalinização da água do mar.

Com informações da Universidade Estadual de Iowa e de registros históricos da conferência internacional sobre uso de icebergs de 1977.

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