Abelhas perdem o cheiro das flores quando ozônio e óxidos de nitrogênio se misturam no ar

Abelhas perdem o cheiro das flores quando ozônio e óxidos de nitrogênio se misturam no ar
Foto: acervo

Revisão de 22 estudos mostra como a poluição pode atrapalhar a busca por alimento e ameaçar a polinização.

Para uma abelha, encontrar uma flor não depende apenas de enxergá-la. Antes de pousar, o inseto pode seguir uma trilha química espalhada pelo ar, formada por moléculas liberadas pela planta. Quando essa trilha encontra poluentes atmosféricos, ela pode se desfazer antes de chegar ao destino. É esse tipo de interferência que aparece em uma revisão de 22 estudos experimentais sobre o olfato de insetos, publicada em 8 de outubro de 2026.

O resultado ajuda a explicar por que a poluição pode prejudicar a polinização mesmo quando as flores continuam presentes e os insetos ainda circulam pela paisagem. Ozônio e óxidos de nitrogênio, entre outros contaminantes, reagem com os compostos responsáveis pelo aroma floral. Para abelhas, mariposas e outros polinizadores, a consequência prática é uma busca mais difícil por alimento.

O sinal que a poluição altera

As plantas não liberam cheiros apenas como uma característica perceptível aos seres humanos. Esses compostos voláteis funcionam como sinais que ajudam insetos a localizar fontes de néctar e pólen. A intensidade e a composição do odor variam conforme a espécie vegetal, o horário, a temperatura e as condições do ambiente.

O problema começa quando os poluentes modificam essas moléculas no caminho entre a flor e o inseto. O ozônio, por exemplo, é altamente reativo. Ao entrar em contato com os compostos do aroma, pode quebrá-los ou transformar sua composição. Os óxidos de nitrogênio também participam de reações capazes de alterar a mistura química liberada pelas plantas.

Na prática, o inseto pode receber um sinal enfraquecido, distorcido ou diferente daquele que aprendeu a associar a uma fonte de alimento. Isso não significa necessariamente que toda abelha deixe de encontrar flores em uma área poluída. O estudo aponta, porém, que a eficiência dessa busca pode cair, sobretudo quando vários poluentes atuam juntos.

Por que 22 experimentos importam

Em vez de observar apenas uma espécie ou uma situação, os pesquisadores reuniram resultados de 22 estudos experimentais que investigaram a relação entre poluição atmosférica e olfato de insetos. Esse tipo de revisão permite comparar testes feitos com diferentes poluentes, plantas e animais, identificando um padrão que poderia passar despercebido em um único experimento.

Os trabalhos analisados examinaram como os contaminantes alteram os sinais químicos e como os insetos respondem a essas mudanças. Em alguns casos, a dificuldade está na degradação do odor no ambiente. Em outros, o próprio inseto pode ter problemas para reconhecer ou seguir a pista modificada.

Segundo a revisão de 22 estudos experimentais publicada em 8 de outubro de 2026, poluentes atmosféricos como ozônio e óxidos de nitrogênio podem degradar os odores florais usados por insetos para encontrar alimento.

O efeito dominó sobre plantas e lavouras

Uma busca menos eficiente pode significar mais tempo e energia gastos para encontrar néctar e pólen. Para insetos que dependem dessas fontes, isso pode afetar a alimentação e o desempenho ao longo do ciclo de vida. Para as plantas, menos visitas também podem reduzir a transferência de pólen entre flores.

Esse processo cria um possível efeito em cadeia. Se uma abelha visita menos flores, algumas plantas podem produzir menos sementes e frutos. Se o alimento diminui, as populações de polinizadores também podem enfrentar novas dificuldades. A revisão trata essa conexão como uma ameaça relevante para ecossistemas e agricultura, mas não afirma que a poluição seja o único fator responsável por perdas de insetos ou de produtividade.

Destruição de habitat, uso de pesticidas, mudanças climáticas, doenças e espécies invasoras também influenciam a sobrevivência dos polinizadores. A contribuição dos estudos está em mostrar que a qualidade do ar precisa entrar nessa conta, inclusive em áreas onde ainda há flores e vegetação.

O que isso significa para a Amazônia

Na Amazônia, a relação entre plantas e insetos sustenta a reprodução de espécies nativas e participa da produção de alimentos cultivados. Abelhas e outros visitantes florais atuam em ambientes que vão de áreas de floresta a quintais, sistemas agroflorestais e propriedades rurais. A presença de flores, portanto, não garante sozinha que a polinização ocorrerá com a mesma eficiência.

O alerta é especialmente útil para cidades e regiões agrícolas da Amazônia, onde emissões de veículos, queimadas, atividades industriais e formação de ozônio podem se combinar de maneiras diferentes. A revisão internacional não mede especificamente os efeitos em cada estado amazônico e não permite calcular uma perda de produção para a região. Ainda assim, oferece um mecanismo que pode ser investigado em locais como Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão.

Para agricultores, a implicação é que a proteção dos polinizadores depende de mais do que conservar áreas floridas. Reduzir fontes de poluição e manter diferentes espécies de plantas pode ajudar a diminuir riscos, embora nenhuma dessas medidas, isoladamente, resolva todos os fatores que pressionam os insetos.

As dúvidas que permanecem

Os resultados mostram um mecanismo plausível e repetido em experimentos, mas ainda há perguntas sobre o comportamento dos insetos em paisagens reais. A concentração dos poluentes varia ao longo do dia, assim como vento, umidade, temperatura e disponibilidade de flores. Esses elementos podem aumentar ou reduzir o impacto observado em laboratório.

Também é necessário saber se determinadas espécies de abelhas ou mariposas conseguem compensar a perda do sinal usando visão, memória, aprendizado ou outras pistas. Outra questão é identificar quais combinações de poluentes são mais prejudiciais e em que distância do foco de emissão os aromas florais começam a perder eficiência.

Os autores destacam que compreender essa interação pode melhorar as avaliações sobre os efeitos ecológicos da poluição atmosférica. Os próximos passos dependem de observações em campo que relacionem qualidade do ar, comportamento dos insetos, visitas às flores e produção de sementes ou frutos.

Com informações de Phys.org.

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