
Diagnóstico reúne evidências científicas, análise jurídica e iniciativas de rastreabilidade para enfrentar ilegalidades nas três cadeias produtivas.
Livro reúne três cadeias que pressionam a floresta
Quase 500 páginas foram organizadas para examinar como circulam, são controlados e chegam ao mercado produtos ligados às cadeias do gado, da madeira e do ouro na Amazônia Legal. O livro Gado, madeira e ouro na Amazônia Legal: desafios e iniciativas de rastreabilidade e transparência foi lançado em evento online no dia 14 de agosto de 2026 pela Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente, por meio do projeto ABRAMPA pelo Clima, com apoio do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia.
A publicação combina evidências científicas, análise jurídica, levantamento de normas, decisões judiciais e iniciativas públicas e privadas. O resultado é um diagnóstico sobre os mecanismos usados para acompanhar essas atividades e reduzir a entrada de produtos de origem ilegal no mercado formal. Também foram apresentadas notas técnicas sobre o fortalecimento da rastreabilidade e sobre critérios ambientais para a concessão de crédito rural.
O diagnóstico encontra dados que não se conectam
O ponto comum identificado nas três cadeias está menos na ausência completa de informação do que na forma como ela é produzida, armazenada e utilizada. As bases de dados não conversam entre si, informações públicas têm baixa transparência e a fiscalização permanece fragmentada entre diferentes órgãos. Com isso, registros que poderiam ajudar a verificar a origem de um produto nem sempre são analisados em conjunto.
O estudo também aponta que os mecanismos de rastreabilidade existentes não conseguem impedir, em todos os casos, que produtos associados a ilegalidades sejam inseridos no mercado formal. A falha pode aparecer quando uma etapa da cadeia é documentada, mas a origem anterior permanece pouco esclarecida. Sem integração, torna-se mais difícil relacionar desmatamento, grilagem, exploração irregular e circulação de mercadorias dentro de uma mesma verificação.
Rastreabilidade passa a ter papel ambiental e econômico
Segundo o diagnóstico, transparência e rastreabilidade deixaram de ser apenas exigências comerciais. Elas passaram a funcionar como instrumentos de proteção ambiental, combate ao desmatamento e responsabilização de infratores. Também ajudam a oferecer mais segurança jurídica para atividades econômicas que precisam demonstrar a origem e a regularidade de seus produtos.
Essa mudança ocorre em um mercado submetido a novas exigências internacionais, entre elas o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR. A publicação relaciona esse cenário à necessidade de o Brasil aperfeiçoar seus sistemas de informação e controle. A competitividade das cadeias produtivas passa a depender também da capacidade de comprovar critérios ambientais e origem regular.
O problema aparece quando o ilícito fica escondido
Para Alexandre Gaio, coordenador do projeto ABRAMPA pelo Clima, o diagnóstico mostra que o principal obstáculo não é necessariamente a falta de tecnologia. Em muitos casos, os dados já existem, mas permanecem dispersos, inacessíveis ou sem integração. Essa condição reduz a capacidade de usar informações sobre desmatamento, grilagem e outras ilegalidades na proteção da Amazônia e na segurança das atividades econômicas.
Paulo Moutinho, cientista sênior do IPAM e revisor técnico da publicação, destaca outro limite da rastreabilidade. O desafio é capturar os chamados ilícitos ocultos, que podem ocorrer sob as copas das árvores ou em terras públicas. A dificuldade é especialmente relevante em áreas cobertas por florestas públicas não destinadas, onde a identificação da origem e da responsabilidade exige cruzar diferentes tipos de informação.
Gado, madeira e ouro exigem respostas coordenadas
O livro não trata as três cadeias como atividades idênticas. Cada uma envolve regras, formas de circulação e mecanismos próprios de controle. O diagnóstico procura, porém, reconhecer fragilidades que se repetem entre elas, como a fragmentação institucional, a baixa transparência e a possibilidade de uma mercadoria passar por etapas formais sem que sua origem seja completamente esclarecida.
Por isso, as soluções apresentadas dependem da atuação articulada de órgãos ambientais, Ministério Público, Poder Judiciário, setor privado e sociedade civil. As notas técnicas lançadas junto com a publicação defendem o fortalecimento da rastreabilidade e de critérios ambientais na concessão de crédito rural. O objetivo é aproximar a decisão econômica da verificação sobre origem, regularidade e impactos ambientais.
Diagnóstico pretende apoiar decisões sobre a floresta
As entidades responsáveis afirmam que a publicação foi produzida para apoiar investigações, julgamentos, fiscalização, políticas públicas e escolhas empresariais. A intenção é contribuir para cadeias compatíveis com a conservação da floresta, a proteção dos direitos humanos e os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil. O livro não substitui a fiscalização nem resolve sozinho as falhas apontadas, mas organiza evidências e instrumentos que podem orientar sua melhoria.
Divulgado em 19 de agosto de 2026, o diagnóstico coloca a informação no centro de uma questão que costuma ser apresentada apenas como disputa entre produção e conservação. Quando registros permanecem isolados, a floresta perde uma camada de proteção e os produtores regulares enfrentam mais insegurança. Quando os dados são integrados e acessíveis, a origem de um produto pode deixar de ser uma declaração e passar a ser uma condição verificável. É nessa passagem, entre a informação dispersa e a responsabilidade identificada, que a proteção da Amazônia pode ganhar uma ferramenta concreta.
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