
As pessoas obrigadas a deixar suas casas por guerras e perseguição estão, cada vez mais, também na linha de frente da crise do clima. Segundo o relatório “Sem Escapatória III”, da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), divulgado às vésperas da COP31, quase 90 milhões de pessoas deslocadas à força, cerca de três em cada quatro no mundo, vivem em países com exposição alta ou extrema a riscos climáticos. Esses países, frágeis ou afetados por conflitos, recebem só cerca de 10% do financiamento climático global.
Os números do relatório
- quase 90 milhões de deslocados à força vivem em países de risco climático alto ou extremo;
- mais de dois terços dos refugiados que voltaram para casa no primeiro semestre de 2026 retornaram a países muito vulneráveis ao clima;
- quase 90% dos 4,7 milhões de pessoas apátridas vivem em países de risco climático alto a extremo;
- até 2050, um em cada três assentamentos na África subsaariana pode ter pelo menos 100 dias por ano de calor perigoso;
- inundações ligadas ao El Niño podem deslocar até 3 milhões de pessoas na Somália, no Quênia, no Sudão do Sul e em Uganda até o fim do ano.
Uma dupla injustiça
“As pessoas refugiadas enfrentam uma dupla injustiça. Forçadas a fugir de conflitos que não causaram”, afirmou Antón Leis García, alto comissário assistente para Operações do Acnur. “Para milhões, a mudança do clima não é uma ameaça distante.” Segundo ele, as pessoas refugiadas estão na linha de frente da crise climática, mas também fazem parte da solução, e a COP31 precisa ser um ponto de virada no apoio a quem vive nessas regiões.
O relatório cita exemplos de soluções em comunidades deslocadas, como a restauração de manguezais e de terras na Colômbia, e defende que os países mais frágeis tenham acesso mais fácil ao dinheiro para adaptação.
A questão do dinheiro
A falta de financiamento para adaptação é um dos temas centrais da COP31. Às vésperas da conferência, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estimou que os países em desenvolvimento vão precisar de cerca de US$ 305 bilhões por ano para se adaptar até 2035, contra um fluxo de cerca de US$ 30 bilhões em 2024. A COP30, em Belém, pediu que esse dinheiro seja pelo menos triplicado até 2035.
E no Brasil
O Brasil recebe refugiados e migrantes de vários países, entre eles indígenas warao da Venezuela, que vivem em cidades da Amazônia como Belém, Manaus e Boa Vista. Para essas populações, o calor extremo, as enchentes e a seca agravam a vulnerabilidade de quem já perdeu a casa uma vez.
Entenda
- Quem publicou: a Agência da ONU para Refugiados (Acnur).
- Relatório: “Sem Escapatória III” (No Escape III).
- Principal número: quase 90 milhões de deslocados vivem em países de alto risco climático.
- Financiamento: países frágeis recebem só cerca de 10% do dinheiro do clima.
Com informações da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e da ONU.
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