O pão de hoje pode ter até metade do ferro e do zinco do pão dos seus avós: estudos mostram que comida ficou mais farta e menos nutritiva

O pão de hoje pode ter até metade do ferro e do zinco do pão dos seus avós: estudos mostram que comida ficou mais farta e menos nutritiva
Legumes e verduras na feira livre de Jacobina (BA). Foto: RQL Santos, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Um pão de hoje pode parecer igual a um pão de 60 anos atrás. Mas o trigo moderno pode ter bem menos ferro, zinco e magnésio do que o trigo que nossos avós comiam. Em alguns casos, a queda chega perto da metade para a mesma quantidade de alimento. E o trigo não está sozinho: pesquisadores encontraram redução de minerais também em frutas e verduras.

O tema foi reunido no relatório Hollow Harvests, algo como colheitas ocas, produzido pela Deep Science Ventures em parceria com o Mark Leonard Trust, a partir de décadas de pesquisa e de novas modelagens.

Mais comida, menos mineral por mordida

Desde os anos 1960, a produtividade mundial de cereais por hectare cresceu cerca de 215%, ajudando a alimentar uma população que mais que dobrou. O problema é que as plantas não acumulam minerais na mesma velocidade em que acumulam carboidratos.

Quando os melhoristas selecionam variedades que rendem mais, o grão ganha mais amido sem aumento proporcional de ferro e zinco. A quantidade total de minerais colhida por hectare fica parecida, mas espalhada em muito mais comida. Os cientistas chamam isso de diluição de nutrientes.

A prova de um experimento de 1843

Uma das evidências mais fortes vem da Rothamsted Research, na Inglaterra, onde se cultiva trigo nas mesmas parcelas experimentais desde 1843. Uma análise de 2008 com grãos guardados em arquivo mostrou que as concentrações de zinco, ferro, cobre e magnésio ficaram estáveis até meados dos anos 1960 e caíram depois da chegada de variedades mais baixas e produtivas. O grão moderno tinha de 23% a 49% menos desses minerais.

O curioso é que o solo não ficou mais pobre nesses minerais. Alguns até aumentaram. A mudança estava na planta.

Frutas e verduras também

Um estudo britânico de 2022 comparou registros de composição de alimentos de 1940, 1991 e 2019 e encontrou queda média de cerca de 50% no ferro de frutas e verduras, de 49% no cobre e de 10% no magnésio. Isso não significa que toda cenoura ou maçã perdeu metade do valor nutritivo: variedades, métodos de coleta e técnicas de laboratório mudaram ao longo do tempo. Mas a tendência aponta na mesma direção.

Em março de 2026, uma análise publicada na Nature Food reforçou a preocupação: só 28,5% das variedades de trigo de pão analisadas atingiam uma meta proposta de concentração de zinco.

O CO₂ entra na conta

O aumento do dióxido de carbono no ar acelera a fotossíntese de algumas culturas, que produzem mais carboidratos, mas não necessariamente mais minerais. Uma meta-análise de 2025, liderada pela Universidade de Leiden, examinou quase 30 mil pares de observações em 43 culturas e 32 compostos nutricionais e encontrou mudanças amplas na química das plantas sob CO₂ elevado, com o zinco entre os mais afetados.

Com mais CO₂, as plantas também abrem menos os poros das folhas. Isso economiza água, mas pode reduzir o transporte de minerais do solo para os tecidos. Erosão, chuvas irregulares e manejo ruim do solo agravam o quadro.

A fome oculta

Juntas, essas pressões podem aprofundar o que nutricionistas chamam de fome oculta: comer calorias suficientes sem receber vitaminas e minerais essenciais. Ferro e zinco são fundamentais para a imunidade, o desenvolvimento infantil e a prevenção da anemia.

O que dá para fazer

Variar a alimentação continua sendo a melhor defesa: feijão, folhas verde-escuras, carnes, ovos, castanhas e grãos integrais somam fontes diferentes de minerais. No campo, há programas de biofortificação que desenvolvem variedades com mais ferro e zinco, como feijão, mandioca e batata-doce, que a Embrapa trabalha há anos no Brasil.

Perguntas frequentes

Os alimentos estão menos nutritivos?

Estudos indicam queda de minerais como ferro, zinco e magnésio em trigo, frutas e verduras nas últimas décadas, sobretudo por causa de variedades mais produtivas.

O que é diluição de nutrientes?

É quando a planta produz mais massa e carboidrato sem aumentar na mesma proporção os minerais, que ficam mais diluídos.

Com informações da Rothamsted Research, da Universidade de Leiden e do relatório Hollow Harvests.

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