Amazonas pode guardar US$ 215 bilhões em remédios ainda desconhecidos, mas desmatamento ameaça esse valor

Amazonas pode guardar US$ 215 bilhões em remédios ainda desconhecidos, mas desmatamento ameaça esse valor
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Análise aponta que a floresta em pé concentra uma riqueza farmacêutica potencial, enquanto espécies podem desaparecer antes de serem estudadas.

Uma planta amazônica pode desaparecer antes mesmo de ser identificada pela ciência e, com ela, ir embora uma possível matéria-prima para medicamentos. Uma análise divulgada em julho pelo grupo britânico Zero Carbon Analytics estima que as plantas com flores da Amazônia concentrem cerca de US$ 215 bilhões em valor comercial potencial relacionado a remédios ainda não descobertos. O montante representa aproximadamente 30% do total calculado para as florestas tropicais do mundo.

O número não corresponde a medicamentos prontos, patentes existentes ou dinheiro disponível no mercado. Trata-se de uma estimativa sobre o chamado valor de opção, isto é, o potencial econômico de compostos naturais que ainda precisam ser encontrados, testados e transformados em tratamentos seguros. A conta ajuda a dimensionar o que pode ser perdido quando a floresta é convertida para outros usos.

O valor que ainda não chegou aos laboratórios

O estudo do Zero Carbon Analytics calculou que as florestas tropicais guardam um valor comercial mediano de US$ 714 bilhões em possíveis medicamentos derivados de plantas com flores. A faixa estimada vai de US$ 382 bilhões a US$ 1,176 trilhão. A Amazônia aparece com a maior parcela entre as grandes regiões florestais analisadas, à frente de áreas do Sudeste Asiático e da Bacia do Congo.

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A importância das substâncias naturais para a farmacologia não é apenas teórica. Entre 1940 e 2014, aproximadamente três em cada quatro medicamentos contra o câncer aprovados tiveram origem em produtos naturais ou foram inspirados por eles. Ao mesmo tempo, estima-se que 99% dos compostos químicos produzidos pelas plantas ainda não tenham sido examinados.

Segundo a análise do Zero Carbon Analytics, a Amazônia concentra cerca de US$ 215 bilhões em valor comercial potencial de medicamentos ainda não descobertos em plantas com flores, conforme estudo divulgado em julho.

Desmatamento reduz a chance de descobrir

A floresta não precisa ser destruída para que seu valor seja perdido. A abertura de áreas, a fragmentação dos habitats e o desaparecimento de espécies endêmicas podem interromper definitivamente pesquisas que sequer começaram. Pela estimativa do grupo, o desmatamento tropical desde 2001 já colocou em risco cerca de US$ 86 bilhões em valor comercial farmacêutico.

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Na Amazônia, o risco é maior para as espécies que só existem em determinadas áreas. Uma planta restrita a um ambiente destruído pode não ter outra população capaz de sobreviver e, portanto, pode desaparecer sem que seus compostos tenham sido avaliados. O prejuízo também alcança possibilidades de tratamentos que não podem ser substituídos por uma espécie parecida.

O cálculo econômico ainda é apenas uma parte da história. Considerando os benefícios de saúde para os pacientes, inclusive depois do fim das patentes e da entrada de medicamentos genéricos, o valor social estimado para remédios ainda desconhecidos em florestas tropicais chega a cerca de US$ 7 trilhões. O desmatamento desde 2001 teria comprometido aproximadamente US$ 860 bilhões desse benefício.

O mapa do conhecimento tem grandes vazios

Conhecer a biodiversidade amazônica exige mais do que encontrar espécies nas margens dos rios. Os cursos d’água funcionam como caminhos naturais pela floresta e concentram boa parte das pesquisas. Já as áreas entre os rios, conhecidas como interflúvios, permanecem menos estudadas porque o acesso por terra costuma depender da abertura de estradas, justamente uma das intervenções que mais pressionam a biodiversidade.

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O diretor de conservação e uso sustentável da biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio Ferreira de Souza Dias, afirmou que não mais de 10% da biodiversidade brasileira pode ser conhecida pela ciência. O país também descreve uma nova espécie de planta aproximadamente a cada dois dias, sinal de que o inventário da flora está longe de terminado.

O problema é agravado pela distribuição dos recursos. Segundo Dias, menos de 3% do financiamento federal destinado à ciência chega à Amazônia, embora a região responda por aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto brasileiro. Para o Pará e para a Grande Belém, onde o debate sobre pesquisa, bioeconomia e conservação é diretamente ligado ao futuro da floresta, esse desequilíbrio significa que parte das decisões sobre um patrimônio regional continua sendo tomada longe dele.

Conhecimento tradicional não pode ficar fora da conta

Pesquisadores ouvidos na análise destacam que o valor da Amazônia não está apenas nas moléculas. Povos indígenas e comunidades tradicionais acumulam conhecimento sobre plantas, usos terapêuticos e ambientes há milhares de anos. Esse conhecimento frequentemente orienta a escolha das espécies que serão investigadas, reduzindo a necessidade de procurar compostos ao acaso.

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O antropólogo Eduardo Brondízio, da Indiana University Bloomington, defende que projetos de pesquisa e desenvolvimento envolvam universidades amazônicas, centros científicos, municípios, organizações indígenas e associações rurais. Consentimento livre, prévio e informado, compartilhamento de conhecimento, transferência de tecnologia e criação de empregos são alguns dos pontos necessários para que os ganhos não sejam capturados apenas por empresas distantes da floresta.

Experiências de bioprospecção realizadas nas décadas de 1990 e 2000 geraram expectativas de parceria entre governos, empresas e comunidades, mas também conflitos sobre propriedade intelectual e distribuição de benefícios. A lição apontada pelos especialistas é que medicamentos exigem anos de pesquisa e que relações de confiança não podem ser substituídas por acordos imediatistas.

O caso da jararaca e as regras para repartir ganhos

Um exemplo citado é o captopril, medicamento para controle da pressão arterial desenvolvido por uma empresa norte-americana a partir de pesquisas da Universidade de São Paulo com o veneno da jararaca. O episódio é usado para ilustrar como descobertas feitas no Brasil podem gerar retorno econômico principalmente fora do país quando pesquisadores não protegem suas invenções antes da publicação.

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O Protocolo de Nagoya, aprovado no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica em 2010, estabeleceu regras para consentimento e repartição justa de benefícios. O Brasil ratificou o acordo em 2021, enquanto a Lei da Biodiversidade, de 2015, criou normas nacionais para o acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado.

Também existe um desafio mais recente: empresas podem utilizar dados de sequências genéticas disponíveis na internet sem acessar fisicamente uma amostra. O Fundo de Cali, criado na conferência da Convenção sobre Diversidade Biológica de 2024, prevê contribuições de empresas que usam esse tipo de informação, mas a adesão é voluntária. Até agosto, o fundo havia recebido apenas US$ 6 mil de duas empresas, muito abaixo da expectativa de arrecadar US$ 1 bilhão por ano.

Floresta em pé como estratégia econômica

A análise estima que interromper o desmatamento tropical até 2030 poderia preservar, até 2050, uma mediana de US$ 79 bilhões em valor comercial e US$ 0,8 trilhão em valor social relacionado a medicamentos. O resultado reforça que conservar não significa apenas impedir perdas ambientais: significa manter abertas possibilidades científicas, econômicas e sanitárias.

Para a Amazônia, inclusive no Pará, o desafio é transformar esse potencial em pesquisa regional, renda distribuída e proteção territorial. A floresta em pé só deixará de ser vista como área improdutiva quando universidades, empresas, governos e comunidades conseguirem construir cadeias de valor que permaneçam próximas de onde estão os recursos e os conhecimentos.

Os próximos passos dependem de mais financiamento científico na região, proteção de espécies e acordos capazes de garantir participação real das comunidades nos resultados de futuras descobertas.

O relatório completo do Zero Carbon Analytics pode ser consultado nesta análise sobre o valor farmacêutico das florestas tropicais.

Com informações de Zero Carbon Analytics.

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