Análise estima que decisões de Lula mantiveram 20 mil km² da Amazônia em pé desde 2022

Análise estima que decisões de Lula mantiveram 20 mil km² da Amazônia em pé desde 2022
Foto: ZUMA Press, Inc. /

Modelagem aponta que a aplicação do Código Florestal reduziu a perda de floresta, mas a eleição de 2026 pode alterar essa trajetória.

Uma área de floresta amazônica equivalente ao estado norte-americano de Nova Jersey pode ter permanecido em pé desde 2022 graças à mudança na política ambiental brasileira. Essa é a estimativa de uma análise da Carbon Brief, baseada em modelos que comparam a trajetória observada durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva com um cenário de fiscalização fraca do Código Florestal, associado ao período de Jair Bolsonaro.

O cálculo aponta que pelo menos 20 mil km² de desmatamento foram evitados desde a eleição de Lula. O número não representa uma medição direta de árvores preservadas em uma única área, mas a diferença entre o desmatamento registrado e o que poderia ter ocorrido caso as regras ambientais não tivessem sido aplicadas.

A queda começou depois da troca de governo

A comparação ganha força quando se observa a sequência dos dados oficiais. A taxa anual de desmatamento na Amazônia caiu de 11.594 km² em 2022 para 5.731 km² em 2025, segundo os registros usados na análise. A série considera os períodos de agosto a julho, padrão adotado pelo governo federal para acompanhar a derrubada da floresta.

Os alertas preliminares para o ciclo mais recente indicam 2.874 km². O dado ainda não corresponde ao número final do sistema oficial de monitoramento, mas sustenta a expectativa de que 2026 possa registrar a menor taxa desde o início da série histórica, em 1988.

Segundo a análise da Carbon Brief, o desmatamento na Amazônia caiu de 11.594 km² em 2022 para 5.731 km² em 2025, após a retomada de ações de fiscalização e da política de proteção florestal.

O que mudou na política ambiental

Durante o governo Lula, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, sob comando de Marina Silva, retomou operações de fiscalização e reforçou o plano de combate ao desmatamento. A estratégia também procurou reverter medidas de desregulamentação adotadas no período anterior.

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O Código Florestal determina que proprietários rurais mantenham e recuperem parte da vegetação nativa em suas terras. Quando a legislação deixa de ser fiscalizada, áreas protegidas podem ser ocupadas por atividades ilegais ou ser convertidas para usos agropecuários. Para conhecer a estrutura da legislação, o leitor pode consultar o guia sobre o Código Florestal brasileiro.

A pesquisadora Aline Soterroni, da Universidade de Oxford, responsável pelo estudo de modelagem utilizado como referência, afirmou à Carbon Brief que a diferença entre os cenários mostra como o desmatamento pode responder rapidamente à orientação política de um governo.

“A mensagem central da nossa modelagem é o contraste entre essas trajetórias: uma governança ambiental fraca mantém o desmatamento substancialmente mais alto do que a aplicação integral do Código Florestal. Essa mensagem continua relevante hoje”, disse Aline Soterroni.

Por que os 20 mil km² são uma estimativa conservadora

O cenário usado para representar um eventual segundo governo Bolsonaro não projeta um aumento ilimitado da devastação. Ele considera a ausência de aplicação do Código Florestal, mas mantém fatores como o crescimento mais lento da demanda por carne bovina e soja.

Por isso, a própria pesquisadora considera que a estimativa pode ser conservadora. O modelo não incorpora completamente a expansão de desmatamentos ilegais e da mineração clandestina que poderia ocorrer em um ambiente de fiscalização enfraquecida.

Claudio Angelo, coordenador de políticas internacionais do Observatório do Clima, avaliou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia produzir taxas superiores às observadas no primeiro mandato de Jair Bolsonaro. Na avaliação dele, o sinal político poderia estimular a abertura de novas áreas e o avanço do garimpo ilegal.

A eleição de outubro recoloca a floresta em disputa

A preservação obtida nos últimos anos está ligada também ao cenário eleitoral de 2026. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem como os principais concorrentes e estão tecnicamente empatados nas pesquisas citadas pela análise. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro.

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O programa de Lula é apontado pelo Observatório do Clima como o mais consistente entre as seis candidaturas mais bem posicionadas. A proposta mantém a meta de desmatamento zero até 2030 e reafirma o compromisso brasileiro de reduzir as emissões nacionais entre 59% e 67% até 2035, em relação a 2005.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, defende o fim do desmatamento ilegal até 2029, mas também esteve ligado a uma tentativa de alterar o Código Florestal para permitir a exploração de áreas antes protegidas. Essa combinação é o principal motivo da desconfiança de especialistas em relação à promessa ambiental.

O impacto para os estados da Amazônia Legal

A disputa não se limita a Brasília. As decisões federais sobre fiscalização, regularização fundiária e proteção de áreas nativas repercutem no Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, estados que integram a Amazônia Legal.

Nessa região, a redução do desmatamento envolve mais do que a emissão de gases de efeito estufa. A fiscalização influencia a segurança de comunidades indígenas e tradicionais, a pressão sobre terras públicas e a expansão de cadeias de soja, carne, madeira e minérios. Também interfere na credibilidade de compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.

Outro fator de risco é o enfraquecimento do acordo conhecido como Moratória da Soja na Amazônia. A iniciativa voluntária impedia empresas participantes de comprar soja cultivada em áreas desmatadas depois de 2008. Estudos citados na análise estimaram que o acordo evitou cerca de 18 mil km² de desmatamento entre 2005 e 2016, enquanto uma pesquisa de 2026 projetou até 14 mil km² adicionais de perda florestal até 2036 caso a moratória deixe de funcionar.

Assim, o resultado da eleição presidencial de outubro será acompanhado junto com as decisões do Congresso e das empresas do agronegócio, que podem definir se a queda observada desde 2022 será consolidada ou interrompida nos próximos anos.

Com informações de Carbon Brief.

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