
Árvore localizada entre o Pará e o Amapá teve a altura medida por Lidar e a circunferência calculada com fita durante expedição de 2022
Uma copa muito acima do padrão apareceu no mapa
Em 2019, imagens de satélite usadas em um mapeamento tridimensional da floresta indicaram a presença de árvores com altura muito acima do padrão no sul do Amapá. Entre os pontos identificados estava um angelim-vermelho que, anos depois, seria medido com 88,5 metros. A marca tornou o exemplar a árvore mais alta conhecida da Amazônia. O caso começou longe do tronco, da copa e do solo onde a árvore crescia. Primeiro, ela apareceu como uma ocorrência excepcional em dados de sensoriamento remoto. Depois, passou a orientar uma investigação de campo em uma área de floresta estadual situada entre o Pará e o Amapá.
A pesquisa teve início a partir dos estudos do professor Eric Bastos, realizados com grupos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. O mapeamento em três dimensões permitiu reconhecer árvores que se destacavam pela altura, mas a imagem não substituía a verificação direta. Era necessário chegar ao ponto indicado, identificar a espécie e medir o indivíduo por métodos apropriados. Assim, o registro saiu de uma indicação feita à distância e entrou em uma etapa de confirmação no terreno. A sequência também mostra como diferentes ferramentas podem ser combinadas para localizar estruturas que a floresta mantém parcialmente escondidas sob a cobertura vegetal.
A expedição levou três anos para alcançar o tronco
A árvore foi alcançada em 2022, quando uma expedição do Projeto Árvores Gigantes chegou ao local apontado pelos estudos iniciados em 2019. O intervalo de três anos separou a identificação remota da chegada dos cientistas ao exemplar. Nesse período, a informação deixou de ser apenas uma coordenada associada a uma copa alta e passou a ser investigada diretamente em uma floresta estadual entre os dois estados amazônicos. A expedição foi o momento em que a equipe pôde conferir o indivíduo, observar sua estrutura e aplicar instrumentos de medição no próprio local.
O trabalho de campo usou dois procedimentos diferentes. A altura foi medida com Lidar, tecnologia capaz de obter informações de distância e relevo por meio de pulsos de luz. Já a circunferência do tronco foi verificada com uma fita. A combinação dos métodos permitiu registrar dimensões distintas da mesma árvore, sem tratar a altura estimada nas imagens como resultado final. A atuação reuniu o Projeto Árvores Gigantes e instituições que apoiaram a pesquisa, entre elas a Fundação Jari, a Swansea University, a Norte Solar, o Imazon, o Instituto Federal do Amapá e a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.
O angelim-vermelho alcançou 88,5 metros
O exemplar identificado é um angelim-vermelho, espécie cujo nome científico é Dinizia excelsa. A medição registrou 88,5 metros de altura, distância que coloca a árvore acima dos demais exemplares amazônicos conhecidos no levantamento. O tronco também apresentou 9,9 metros de circunferência, medida obtida com fita durante a expedição. Esses números definem o registro em duas dimensões diferentes: a altura revela a posição da copa em relação ao solo, enquanto a circunferência informa o tamanho do tronco no ponto medido.
A palavra mais importante para interpretar o resultado é “conhecida”. O angelim-vermelho é a árvore mais alta já registrada entre as conhecidas na Amazônia, segundo os dados da pesquisa, mas a classificação depende de medições verificadas e dos exemplares localizados até aquele momento. A imagem de satélite foi decisiva para encontrar árvores fora do padrão, porém a confirmação exigiu Lidar e medição no terreno. Também não se deve transformar a marca de 88,5 metros em uma altura típica da espécie ou da floresta. O número corresponde a um indivíduo específico, medido em uma área determinada.
Uma descoberta feita em duas escalas
O resultado conecta duas escalas de observação da Amazônia. Do alto, o mapeamento tridimensional identificou sinais de copas que se destacavam no sul do Amapá. No chão, a expedição encontrou o angelim-vermelho e confirmou suas dimensões. A consequência é um registro concreto da maior árvore amazônica conhecida, além de uma demonstração do papel do sensoriamento remoto na localização de exemplares que seriam difíceis de procurar apenas por deslocamentos aleatórios na floresta. A descoberta não aconteceu em um único instante, mas em uma cadeia formada por análise de imagens, planejamento, deslocamento e medição.
O caso também aproxima a tecnologia da pesquisa de campo sem substituir a observação direta. O satélite apontou a área, o Lidar mediu a altura e a fita registrou a circunferência. Cada recurso respondeu a uma parte do problema e produziu um resultado verificável para aquele indivíduo. Entre 2019 e 2022, uma ocorrência detectada em dados espaciais se transformou em uma árvore identificada, localizada entre o Pará e o Amapá e registrada com 88,5 metros. A copa que apareceu primeiro como uma diferença no mapa passou a ter espécie, tronco e medida. Na Amazônia, conhecer uma árvore também pode começar muito acima dela, no espaço onde a floresta vira imagem.
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