Araucária de 44 metros e até 500 anos caiu sem ninguém ver em Santa Catarina; quatro meses depois, ainda tinha brotos vivos e cientistas correram para cloná-la

Araucária de 44 metros e até 500 anos caiu sem ninguém ver em Santa Catarina; quatro meses depois, ainda tinha brotos vivos e cientistas correram para cloná-la
Araucárias gigantes em Itaiópolis (SC). Foto: Paulo Marcelo Adamek, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Uma araucária de 44 metros de altura e idade estimada entre 400 e 500 anos tombou em Caçador, no meio-oeste de Santa Catarina, e ninguém viu. Conhecida como Pinheirão, a árvore era considerada a quarta maior araucária do Brasil. A queda provavelmente aconteceu em fevereiro de 2026, mas só foi descoberta no fim de abril, durante a manutenção de uma estrada que atravessa a floresta.

Quando os pesquisadores da Embrapa Florestas chegaram, tiveram uma surpresa: mesmo caída havia meses, a árvore ainda tinha brotos vivos. Foi o começo de uma corrida para salvar sua genética.

Brotos quatro meses depois da queda

O Pinheirão ficava na Estação Experimental da Embrapa em Caçador, em área onde também funciona uma unidade da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). A posição de quarta maior do país vem do levantamento do professor Marcelo Scipioni, do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que cataloga as maiores araucárias remanescentes.

O engenheiro florestal Ivar Wendling, especialista em clonagem da Embrapa, encontrou ramos emitindo brotos cerca de quatro meses depois da provável queda. A equipe vasculhou tronco e galhos atrás de material vivo. O trabalho incluiu até escalar uma araucária vizinha de grande porte, de cuja copa, a mais de 40 metros do chão, Wendling recolheu brotos.

50 mudas por enxertia

As amostras foram levadas à sede da Embrapa Florestas, na região metropolitana de Curitiba. Em estufa, os pesquisadores produziram cerca de 50 mudas por enxertia, técnica que une um ramo da árvore que se quer copiar a uma muda jovem, nascida de semente.

A muda jovem funciona como porta-enxerto: dá raiz e sustentação. A parte que cresce a partir do ramo do Pinheirão mantém o material genético da árvore-mãe. Leva cerca de 100 dias para confirmar se o enxerto pegou.

O que os anéis do tronco vão contar

A equipe também retirou um disco de madeira do tronco e o enviou a um laboratório no Paraná. A peça vai secar lentamente, para não rachar, e depois será lixada até os anéis de crescimento ficarem visíveis.

A análise desses anéis anuais, a dendrocronologia, permite estimar a idade da árvore e reconstituir o clima que ela atravessou. Anéis largos costumam indicar anos quentes e chuvosos, bons para crescer. Anéis estreitos podem registrar secas. Em uma árvore de quatro ou cinco séculos, é um arquivo do clima do Sul do Brasil desde antes da chegada dos colonizadores à região.

Os pesquisadores também querem entender o que levou o gigante ao chão. O excesso de chuva é um risco para árvores desse porte: com o solo encharcado, a terra perde resistência e as raízes deixam de segurar o peso.

Gigantes cada vez mais raras

No levantamento de Scipioni, são consideradas gigantes as araucárias com tronco a partir de 1,50 metro de diâmetro. A maior registrada no país fica na zona rural de São Joaquim, na serra catarinense. É a única com mais de três metros de diâmetro e tem idade estimada em mais de 600 anos.

A raridade tem explicação histórica. No século 20, a araucária foi uma das madeiras mais exploradas do Brasil, e a Floresta com Araucárias perdeu a maior parte de sua área original. Hoje a espécie (Araucaria angustifolia) é classificada como criticamente ameaçada de extinção na lista vermelha internacional.

Por que clonar uma árvore

Uma araucária que chega a 44 metros e sobrevive por séculos carrega características valiosas: resistência a pragas, a secas e a geadas, vigor de crescimento. Guardar essa genética em mudas permite estudar essas qualidades e usá-las em programas de conservação e restauração. Para a Embrapa, o Pinheirão caído virou uma oportunidade de não perder um patrimônio genético que levou séculos para se formar.

Perguntas frequentes

Qual é a maior araucária do Brasil?

Segundo o levantamento da UFSC, fica em São Joaquim (SC), tem mais de três metros de diâmetro e mais de 600 anos.

Dá para clonar uma árvore caída?

Sim, enquanto houver tecido vivo. No caso do Pinheirão, a Embrapa usou ramos com brotos para fazer mudas por enxertia, que preservam a genética da árvore original.

Com informações da Embrapa Florestas e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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