
Onça-pintada melânica foi fotografada entre março e maio na Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante, Goiás
Uma onça de pelagem escura apareceu diante de uma armadilha fotográfica na Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante, Goiás. O registro representa a primeira identificação de uma onça-preta na unidade de conservação, mantida em uma área de aproximadamente nove mil hectares no Cerrado. As imagens foram obtidas entre março, abril e maio de 2025, durante o monitoramento realizado na reserva.
O animal é uma onça-pintada melânica, ou seja, pertence à mesma espécie Panthera onca, mas apresenta uma produção maior de melanina, pigmento associado à coloração escura dos pelos. A presença do felino foi divulgada em 24 de julho de 2025 e acrescentou um novo dado ao acompanhamento da fauna local. Outras onças-pintadas já haviam sido registradas na reserva, mas nenhum indivíduo melânico tinha aparecido nas câmeras ou sido observado durante as atividades de patrulhamento realizadas no local.
Registro inédito amplia o retrato da fauna protegida
As armadilhas fotográficas são instaladas para acompanhar a movimentação dos animais sem a necessidade de captura ou contato direto. Nesse caso, o equipamento registrou a onça-preta ao longo de três meses, permitindo reconhecer sua presença dentro da Reserva Natural Serra do Tombador. O monitoramento também já havia identificado outros grandes mamíferos, entre eles a onça-parda e o lobo-guará, espécies que ocupam diferentes posições na paisagem do Cerrado.
Mariana Vasquez, bióloga e gerente da reserva, afirmou que a equipe nunca tinha encontrado uma onça-preta desde a aquisição da propriedade, cerca de 20 anos atrás. O histórico inclui tanto o patrulhamento da área quanto o acompanhamento sistemático por câmeras. Segundo ela, os moradores da região também não haviam relatado avistamentos do animal. A descoberta, portanto, não descreve uma mudança na espécie, mas documenta pela primeira vez a ocorrência de uma de suas variações de pelagem dentro daquela área protegida.
Melanismo muda a cor do pelo, não transforma a espécie
A onça-preta não constitui uma espécie separada. Trata-se de uma onça-pintada com melanismo, uma característica genética que aumenta a produção de melanina e torna a pelagem mais escura. O padrão de manchas continua relacionado à onça-pintada, embora possa ficar menos visível quando observado sobre um pelo muito escuro. A alteração está ligada à genética do animal e não a uma adaptação adquirida ao longo da vida.
O biólogo Roberto Fusco, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza e coordenador do programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, estima que o melanismo ocorra em cerca de 10% das onças-pintadas. Para que uma onça melânica nasça, pelo menos um dos pais precisa apresentar essa característica, de acordo com a explicação do especialista. O percentual é uma estimativa para a espécie e não indica quantos animais melânicos vivem na reserva goiana nem permite calcular o tamanho da população local a partir de um único registro.
Área de nove mil hectares abriga um animal de grandes deslocamentos
A Reserva Natural Serra do Tombador é criada e mantida pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. A área protegida oferece abrigo para a onça-pintada e para outros animais que dependem da manutenção da vegetação e das relações ecológicas do Cerrado. A identificação de uma onça melânica dentro da reserva é considerada um indicador positivo da conservação do local, porque mostra que o território integra o espaço utilizado por um dos maiores predadores das Américas.
Onças-pintadas são animais solitários e permanecem com a mãe até aproximadamente os dois anos de idade. Depois desse período, podem se deslocar em busca de alimento, abrigo, proteção e locais de reprodução. Roberto Fusco explica que uma onça pode utilizar uma área superior a 50 mil hectares, dimensão muito maior que a extensão da reserva. Esse dado ajuda a entender por que a sobrevivência do animal não depende apenas de um terreno isolado, mas também da conexão entre áreas naturais próximas.
Presença da onça reforça a necessidade de corredores ecológicos
A distância percorrida pela espécie dá à descoberta uma consequência que ultrapassa a imagem obtida pela câmera. Unidades de conservação fortalecidas protegem pontos de abrigo e alimentação, enquanto os corredores ecológicos permitem o deslocamento entre fragmentos de vegetação. Essa conexão pode favorecer a busca por recursos, a reprodução e a circulação de indivíduos, além de reduzir o isolamento de populações. No caso da Serra do Tombador, o registro reforça a relevância da reserva e do entorno para uma espécie que necessita de grandes territórios.
A onça-pintada é classificada como Vulnerável pela Portaria 148/2022 do Ministério do Meio Ambiente. Fusco também a define como uma espécie guarda-chuva, porque suas exigências territoriais fazem com que ações voltadas à sua proteção beneficiem muitos outros organismos. Isso não significa que a fotografia, sozinha, prove o tamanho ou a estabilidade da população local. O que ela demonstra é a presença de uma onça-pintada melânica em uma área protegida onde a espécie já vinha sendo monitorada.
Um registro raro dentro de uma espécie ameaçada
A novidade está na combinação de dois elementos: a primeira detecção de uma onça-preta na reserva e a confirmação de que o animal utiliza uma paisagem protegida do Cerrado. A raridade do melanismo ajuda a explicar o interesse do registro, mas não deve deslocar o foco da conservação da espécie como um todo. Onças de pelagem predominantemente amarela e indivíduos melânicos pertencem à mesma espécie e enfrentam a necessidade comum de territórios conectados, presas disponíveis e proteção contra ameaças.
O episódio também mostra como uma ação técnica contínua pode revelar uma presença que não havia sido percebida por observações ocasionais. A câmera não transforma o animal em símbolo isolado nem encerra o acompanhamento da área. Ela acrescenta uma evidência ao conjunto de registros da reserva, que inclui outras onças-pintadas e grandes mamíferos. A história foi divulgada pelo CicloVivo em 24 de julho de 2025, com base nas informações da gestão da reserva e dos especialistas citados.
O Cerrado aparece nas imagens por meio de seus predadores
Embora a onça-preta seja o elemento mais visível do registro, a conservação descrita pela imagem envolve uma rede maior. Um predador que utiliza grandes extensões depende, direta e indiretamente, das condições encontradas em diferentes partes da paisagem. A proteção de uma reserva de nove mil hectares pode preservar abrigo para a onça e manter ambientes utilizados por onças-pardas, lobos-guarás e outras espécies identificadas no monitoramento. A conexão com o entorno completa esse espaço ecológico.
O registro em Cavalcante aproxima a conservação de uma cena concreta: uma câmera instalada em uma reserva do Cerrado captou uma variação rara da maior espécie de felino das Américas. A fotografia não é apenas uma confirmação de presença. Ela lembra que proteger a biodiversidade também significa manter as passagens entre os lugares onde os animais vivem, caçam e se reproduzem. Quando uma onça atravessa a paisagem, o mapa da conservação deixa de ser formado apenas por limites desenhados e passa a incluir os caminhos que ainda permanecem abertos.
Com informações de CicloVivo.
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