
Modelos da UFSC indicam que o aquecimento pode ampliar áreas favoráveis a espécies predadoras já presentes ou próximas da bacia.
Uma mudança no clima pode transformar trechos da Bacia do Iguaçu em ambientes mais adequados para peixes predadores que hoje aparecem apenas de forma pontual ou ainda não foram registrados ali. É o alerta de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, que avaliou o risco de invasão de cinco espécies não nativas e as possíveis condições da bacia entre 2040 e 2100.
O problema ganha peso porque o Iguaçu abriga uma fauna com alto grau de exclusividade. Cerca de 70% das espécies de peixes encontradas na bacia são endêmicas, isto é, não vivem naturalmente em nenhum outro lugar do planeta. Aproximadamente 21% também estão ameaçadas de extinção.
Uma perda local teria impacto mundial
Em rios com espécies distribuídas por várias regiões, o desaparecimento de uma população pode ser parcialmente compensado pela sobrevivência de exemplares em outros ambientes. No Iguaçu, essa margem é muito menor. Se uma espécie endêmica desaparecer da bacia, a perda pode representar sua extinção global.
“Qualquer extinção dessas espécies significa uma perda definitiva para toda a biodiversidade global”, afirma Iago Geller, pesquisador e professor da UFSC. A preocupação, portanto, não está apenas no aumento do número de peixes invasores, mas na possibilidade de eles pressionarem populações pequenas e isoladas.
Segundo a Universidade Federal de Santa Catarina, o estudo aponta em 2026 que cinco espécies não nativas podem encontrar condições mais favoráveis para se estabelecer na Bacia do Iguaçu conforme as mudanças climáticas avancem.
Os cinco peixes avaliados pelos pesquisadores
A pesquisa analisou o tucunaré, espécie identificada como Cichla kelberi; o black bass, Micropterus salmoides; a truta-arco-íris, Oncorhynchus mykiss; a pescada-branca, Plagioscion squamosissimus; e o oscar, Astronotus crassipinnis.
As três primeiras já foram registradas de maneira esporádica na bacia. O tucunaré foi observado no baixo Iguaçu. O black bass e a truta-arco-íris aparecem associados tanto ao baixo quanto ao alto curso do rio. Já a pescada-branca e o oscar não têm registro confirmado na Bacia do Iguaçu, mas foram incluídos por causa do histórico de dispersão e das características biológicas.
Os pesquisadores consideraram fatores como comportamento predatório, capacidade de utilizar diferentes tipos de alimento, grande porte, frequência de introduções no Brasil e no exterior e proximidade geográfica em relação ao Iguaçu. Esses critérios ajudam a avaliar não apenas quem já chegou, mas também quais espécies podem avançar no futuro.
Como o clima entra no risco de invasão
Para estimar esse cenário, a equipe utilizou modelos de nicho ecológico. Em linguagem simples, o método cruza as condições ambientais nas quais uma espécie costuma sobreviver com informações sobre temperatura e distribuição geográfica. Depois, testa como essas áreas potencialmente adequadas podem mudar em diferentes projeções climáticas.
Os mapas foram produzidos para as condições atuais, consideradas no estudo como o período de 2025, e para dois intervalos futuros: de 2040 a 2060 e de 2060 a 2100. O resultado não significa que uma invasão ocorrerá automaticamente nessas datas. Ele indica onde o ambiente poderá se tornar mais compatível com a sobrevivência e a reprodução dos peixes analisados.
Essa diferença é importante. O clima pode ampliar a área favorável, mas a espécie ainda precisa chegar ao local. No caso das que já foram encontradas, a presença pode estar relacionada a introduções para pesca esportiva, escapes de pisciculturas ou descarte irresponsável.
Introdução humana pode acelerar a mudança
A pescada-branca já foi levada para diferentes regiões brasileiras e tem histórico documentado de invasão. O oscar merece atenção por outro motivo: é naturalmente associado à Bacia Amazônica, mas já está presente em várias outras áreas do país. Sua inclusão mostra como o transporte de peixes para criação, pesca ou aquarismo pode aproximar espécies de ambientes onde elas não ocorriam originalmente.
Para os estados da Amazônia, o caso funciona como um alerta sobre a dupla pressão enfrentada pelos rios. A região concentra espécies exclusivas e também é a origem natural de peixes que podem ser transportados para outras bacias. O deslocamento de animais sem controle pode produzir efeitos fora do local onde eles evoluíram, enquanto a chegada de predadores externos ameaça comunidades aquáticas que não tiveram tempo de desenvolver respostas.
O estudo não afirma que os cinco peixes já tenham ocupado toda a Bacia do Iguaçu nem que o aquecimento, sozinho, provoque a invasão. O que os autores apresentam é uma avaliação antecipada de risco. A hipótese central é que espécies com histórico invasor, próximas da bacia e capazes de tolerar diferentes condições possam se beneficiar de mudanças ambientais futuras.
Prevenção antes que a população se estabeleça
Depois que um peixe invasor se reproduz e se espalha por uma rede de rios, a retirada completa costuma ser muito mais difícil do que impedir a introdução. Por isso, a utilidade dos modelos está em orientar vigilância, fiscalização e resposta rápida em pontos considerados vulneráveis.
Na prática, o alerta também alcança pescadores, produtores de peixes e consumidores. Soltar animais em rios, transportar espécies entre bacias ou permitir escapes de estruturas de criação pode criar uma porta de entrada para predadores. A recomendação implícita do trabalho é tratar cada registro com atenção, especialmente em uma bacia onde muitas espécies não têm população equivalente fora dali.
A pesquisa é o segundo capítulo de um trabalho dedicado ao tema das invasões na Bacia do Iguaçu. Os próximos passos dependem do acompanhamento dos registros, da confirmação das áreas ocupadas e da adoção de medidas capazes de reduzir novas introduções antes que os cenários climáticos projetados se tornem realidade.
O estudo completo pode ser consultado na publicação original sobre o risco de invasão de peixes não nativos na Bacia do Iguaçu, disponível em Leia Mais.
Com informações da Universidade Federal de Santa Catarina.
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