Brics no Rio: a hora de assumir a liderança climática global

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Com a aproximação da COP30 em Belém, marcada para novembro, a reunião da Cúpula do Brics nos dias 6 e 7 de setembro, no Rio de Janeiro, ganha um peso estratégico que vai muito além das questões econômicas e comerciais. Após avanços tímidos na Conferência de Bonn e um resultado desastroso para os países em desenvolvimento na COP29, em Baku, cresce a pressão para que o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul finalmente assuma a dianteira na agenda climática internacional.

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O atual contexto geopolítico é de retração da liderança dos Estados Unidos e de instabilidade global, um cenário que deixa o multilateralismo enfraquecido. Diante disso, os Brics surgem como atores capazes de preencher o vácuo e oferecer respostas práticas para a crise climática. A especialista em política internacional do Greenpeace Brasil, Camila Jardim, ressalta que a posição do Brasil é particularmente estratégica, já que o país preside simultaneamente o Brics e a COP30, além de ter comandado o G20 no ano anterior.

O financiamento climático em foco

Um dos pontos mais aguardados desta cúpula é a possível aprovação de um documento sobre financiamento climático, elaborado recentemente por representantes de alto nível do fórum. Se endossado, será a primeira manifestação conjunta dos Brics no contexto das negociações do clima, sinalizando um avanço importante.

A expectativa é que o grupo não apenas assine esse compromisso, mas também inaugure uma nova postura diante da emergência climática. Segundo Jardim, o mundo precisa de muito mais liderança por parte do Brics, sobretudo após o impasse sobre financiamento que marcou Bonn e o fracasso das negociações em Baku. Esse tema, central para os países em desenvolvimento, deverá retornar com força na COP30.

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Destruição causadas pela cheia do Rio Taquari, no município de Arroio do Meio, no Rio Grande do Sul – Reprodução

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Clima e justiça social

Para o Greenpeace, a crise climática não pode ser tratada como pauta paralela, mas como eixo integrador das negociações multilaterais. Questões como combate à fome, desenvolvimento econômico e pacificação de conflitos, que figuram entre as prioridades históricas do Brics, simplesmente não são viáveis em um planeta que se aproxima do colapso climático.

Jardim reforça que a agenda climática deve ser vista como a liga que sustenta o multilateralismo. Sem um planeta habitável, não há comércio internacional estável, nem justiça social ou crescimento econômico possível. Essa perspectiva insere o debate climático não como obstáculo, mas como condição para qualquer outro avanço global.

A pauta dos oceanos

Outro tema que pode emergir nas discussões da cúpula é a proteção dos oceanos, especialmente frente à ameaça da mineração em alto-mar e à poluição plástica. Os países do Brics estão no centro desses debates, e suas decisões têm peso no futuro da governança oceânica.

Mariana Andrade, coordenadora de Oceanos do Greenpeace Brasil, lembra que o oceano deve ser tratado como pilar da diplomacia climática e da cooperação internacional, principalmente por seu papel na subsistência das populações mais vulneráveis do Sul Global. Permitir a exploração predatória das profundezas marinhas, segundo ela, seria trair os princípios do multilateralismo que os Brics dizem defender.

Andrade defende que o Brasil, anfitrião da cúpula, precisa dar exemplo ratificando o Tratado Global dos Oceanos e impulsionando um acordo global sobre plásticos mais ambicioso. A pressão também deve recair sobre os demais membros do Brics para que sigam esse caminho.

A encruzilhada do Brics

A reunião do Rio de Janeiro se desenha como um teste decisivo. De um lado, há a oportunidade histórica de se colocar como força global de liderança climática. De outro, existe o risco de repetir encontros anteriores, em que a pauta ambiental foi relegada a segundo plano.

Se o Brics quiser mostrar relevância no cenário internacional, precisará ir além da retórica e assumir compromissos concretos, especialmente no financiamento climático e na proteção dos oceanos. O momento exige coragem política para enxergar a crise climática não como ameaça isolada, mas como eixo que atravessa todas as dimensões do desenvolvimento e da justiça global.

A COP30 em Belém será a próxima grande arena de negociações, mas o tom pode ser definido já no Rio de Janeiro. O mundo observa os Brics e espera mais do que declarações de intenção: aguarda sinais de liderança capazes de reposicionar o multilateralismo em torno da questão mais urgente do nosso tempo — a sobrevivência climática.