Choquinha-de-alagoas, ave com só 12 indivíduos conhecidos no planeta, volta a ter filhotes no último pedaço de mata onde ainda vive

Choquinha-de-alagoas, ave com só 12 indivíduos conhecidos no planeta, volta a ter filhotes no último pedaço de mata onde ainda vive
Choquinha-de-alagoas (Myrmotherula snowi) fotografada em Alagoas. Foto: Thiago Zanetti, via Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Existem aves raras, e existe a choquinha-de-alagoas. Os pesquisadores conhecem apenas 12 indivíduos vivos dessa espécie, todos num único fragmento de Mata Atlântica no Nordeste. Por isso, o nascimento de quatro filhotes na Estação Ecológica de Murici, em Alagoas, foi recebido como um respiro para uma das aves mais ameaçadas do mundo.

A choquinha-de-alagoas (Myrmotherula snowi) é um passarinho pequeno, de plumagem cinza nos machos e tons mais acastanhados nas fêmeas, que vive no sub-bosque da floresta, onde procura insetos entre folhas e cipós. Discreta, é muito mais fácil ouvi-la do que vê-la.

Um único refúgio

A União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN, classifica a espécie como criticamente ameaçada, a categoria mais grave antes da extinção na natureza. A ave sobrevive apenas dentro dos cerca de 6 mil hectares protegidos de Murici, considerados seu último refúgio conhecido.

Essa situação extrema tem explicação histórica. A Fundação SOS Mata Atlântica estima que o Brasil preserve apenas cerca de 12% da cobertura original do bioma. Ao norte do rio São Francisco, onde vive a choquinha, a devastação chegou a aproximadamente 95% da floresta original, um dos índices mais altos de destruição de qualquer floresta tropical do mundo. A região, conhecida como Centro de Endemismo Pernambuco, guarda várias espécies que não existem em nenhum outro lugar, e muitas estão por um fio.

Por que quatro filhotes importam

Em populações minúsculas, cada nascimento pesa muito. Com tão poucos indivíduos, a espécie corre riscos que vão além da falta de habitat: perda de diversidade genética, cruzamentos entre parentes, efeitos de uma única tempestade, incêndio ou doença. Quatro filhotes podem representar um aumento importante na população conhecida, desde que sobrevivam até a idade adulta.

O registro só foi possível graças ao monitoramento ativo em campo. Sem pesquisadores acompanhando os territórios, os filhotes provavelmente passariam despercebidos, e com eles informações essenciais sobre comportamento reprodutivo, uso do território e saúde da população.

Como é a choquinha

A choquinha-de-alagoas é uma ave da família dos tamnofilídeos, a mesma das papa-formigas e dos chocas, comuns no sub-bosque das florestas brasileiras. Mede cerca de 10 centímetros e pesa poucos gramas. Os machos são acinzentados, com manchas escuras na garganta, e as fêmeas têm tons ferrugíneos. Vivem em casais que defendem pequenos territórios e se juntam a bandos mistos de outras aves para procurar insetos. Como as matas de Murici são muito fragmentadas, cada casal ocupa um pedaço de floresta que pode ser destruído por um único incêndio.

Parente que já sumiu

A situação da choquinha lembra a de outros passarinhos da mesma região, como o limpa-folha-do-nordeste e o caburé-de-pernambuco, considerados extintos ou possivelmente extintos depois de décadas sem registros confiáveis. A mesma faixa de Mata Atlântica do Nordeste perdeu também o mutum-de-alagoas na natureza. O mutum só sobreviveu porque um criador particular manteve aves em cativeiro, e hoje está sendo reintroduzido em matas alagoanas.

Um nome em homenagem a um ornitólogo

O nome científico da espécie, snowi, homenageia o ornitólogo britânico David Snow, estudioso de aves tropicais. A choquinha foi descrita por pesquisadores brasileiros na década de 1980, quando a floresta de Murici já estava cercada por canaviais. Desde então, a contagem da população caiu ano após ano, até chegar à dúzia de indivíduos conhecidos hoje.

Uma estação que segura muitas espécies

A Estação Ecológica de Murici é uma unidade de conservação federal criada em 2001. Mesmo pequena para os padrões amazônicos, é considerada uma das áreas mais importantes para aves ameaçadas no Brasil, justamente porque concentra espécies que perderam quase todo o restante do habitat. Cercada por canaviais e pastagens, ela enfrenta pressões como incêndios, extração de madeira e caça.

O que pode ajudar

  • Conectar fragmentos de mata vizinhos com corredores florestais, para que as aves possam se espalhar.
  • Restaurar áreas degradadas no entorno da estação.
  • Manter o monitoramento contínuo dos territórios e dos ninhos.
  • Combater incêndios e a retirada ilegal de madeira na região.

O desafio é enorme. Uma única área protegida, cercada por décadas de desmatamento, sustenta toda a população conhecida da espécie. Os quatro filhotes provam que a choquinha-de-alagoas ainda luta. A questão é se as políticas de conservação vão acompanhar esse esforço a tempo.

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