Amostras de chuva em três cidades paulistas revelam 14 agrotóxicos, incluindo atrazina, e Campinas registra a maior concentração

Amostras de chuva em três cidades paulistas revelam 14 agrotóxicos, incluindo atrazina, e Campinas registra a maior concentração
Ilustração: Revista Amazônia

Estudo publicado na revista Chemosphere encontrou herbicidas, fungicidas e inseticidas na água coletada entre 2019 e 2021.

A chuva chegou ao recipiente carregando mais do que água

A água da chuva coletada em três cidades paulistas continha uma mistura de agrotóxicos. As análises identificaram herbicidas, fungicidas e inseticidas em amostras de Campinas, Brotas e São Paulo, mostrando que a precipitação pode transportar resíduos presentes no ambiente até áreas urbanas e rurais. No conjunto das amostras, foram encontrados 14 agrotóxicos.

O resultado ganhou peso porque a atrazina, um herbicida cujo uso é proibido, apareceu em todas as amostras das três cidades avaliadas. A presença do composto não foi registrada em um único município ou em apenas uma etapa da coleta. Ela se repetiu nos três locais estudados, enquanto as concentrações totais variaram de acordo com a cidade. Campinas apresentou o maior valor, seguida por Brotas e pela capital paulista.

Estudo comparou Campinas, Brotas e São Paulo

A pesquisa foi realizada em três municípios com características diferentes de ocupação do território. Campinas tem 795 quilômetros quadrados, Brotas ocupa 1.101 quilômetros quadrados e São Paulo possui 1.521 quilômetros quadrados. Apesar de a capital ter a maior área total entre as três, a proporção de terras ocupadas por cultivos agrícolas é diferente em cada município.

Segundo as análises divulgadas sobre o estudo, as lavouras ocupam quase metade da área de Campinas, cerca de 30% do território de Brotas e 7% da área da capital paulista. Essa distribuição ajudou os pesquisadores a comparar a presença dos compostos em locais com diferentes extensões de cultivo. A associação observada foi direta: quanto maior a proporção de áreas agrícolas, maior foi a quantidade de agrotóxicos encontrada na água da chuva.

Coletas atravessaram mais de dois anos

As amostras foram coletadas entre agosto de 2019 e setembro de 2021. O período incluiu diferentes momentos de chuva nas três cidades, permitindo que o material fosse examinado ao longo de mais de dois anos. Depois da coleta, as amostras foram submetidas a análises para identificar a presença de substâncias usadas no controle de plantas, fungos e insetos.

A pesquisa foi publicada no periódico científico Chemosphere e divulgada em 23 de abril de 2025. O trabalho não se limitou a uma substância específica. Ao todo, os pesquisadores identificaram 14 agrotóxicos, entre eles a atrazina. A repetição desse herbicida em todas as amostras das três cidades foi um dos dados que chamaram atenção no levantamento, especialmente porque o composto tem o uso proibido.

Os cultivos ajudam a explicar a diferença entre as cidades

Campinas registrou a maior concentração, com 701 microgramas de agrotóxicos por metro quadrado. Brotas veio em seguida, com 680 microgramas por metro quadrado. Em São Paulo, o valor foi de 223 microgramas por metro quadrado. As medidas representam a quantidade acumulada sobre uma área durante o período analisado, e não uma concentração expressa diretamente em um copo ou reservatório de água.

A diferença acompanhou a proporção de terras agrícolas dos municípios. Campinas reúne quase metade de sua área em cultivos e teve o maior resultado. Brotas, com cerca de 30% do território ocupado por plantações, apresentou valor próximo. Já a capital paulista, onde os cultivos correspondem a 7% da área municipal, registrou a menor concentração entre os três locais. Os dados apontam uma relação entre a extensão das áreas agrícolas e os resíduos encontrados na precipitação, sem transformar essa associação em uma explicação única para cada amostra.

Atrazina apareceu mesmo com o uso proibido

Entre os 14 compostos detectados, a atrazina foi encontrada em todas as amostras coletadas nas três cidades. O herbicida é usado no controle de plantas daninhas, mas seu uso é proibido. A detecção recorrente indica que resíduos dessa substância ainda estavam presentes no ambiente durante o intervalo em que as coletas foram realizadas.

O estudo também encontrou outros herbicidas, fungicidas e inseticidas, mas os dados divulgados não autorizam atribuir a cada composto uma origem individual ou estabelecer uma rota específica de transporte. A chuva pode recolher substâncias presentes na atmosfera e na superfície, porém a pesquisa foi voltada à identificação e à quantificação dos agrotóxicos nas amostras. Ela não mediu a exposição de uma pessoa que consome determinado volume de água nem demonstrou, sozinha, um efeito específico sobre a saúde.

O alerta vale para a ideia de água naturalmente limpa

A principal consequência do estudo é colocar em dúvida a suposição de que a água da chuva seja necessariamente limpa por ter origem na precipitação. A coordenadora da pesquisa, Cassiana Montagner, afirmou à Revista FAPESP que a ideia de tomar água de chuva como se ela fosse limpa não é inteiramente verdadeira. Para a pesquisadora, o trabalho levanta um alerta sobre essa questão e sobre o uso de agrotóxicos.

O alerta não significa que toda chuva tenha a mesma composição ou que os valores encontrados sejam iguais em qualquer cidade. Os resultados foram obtidos em Campinas, Brotas e São Paulo, dentro de um período determinado e com as amostras analisadas pelo estudo. Também não permitem concluir que a água de chuva provoque um dano específico apenas pela presença dos resíduos. O que o levantamento mostra é que a precipitação pode conter agrotóxicos e que a quantidade observada acompanhou a extensão dos cultivos nos municípios comparados.

O resultado aproxima campo e cidade pelo caminho da atmosfera

A presença de resíduos em São Paulo acrescenta uma dimensão urbana ao estudo. A capital apresentou a menor concentração entre os três municípios, mas ainda teve agrotóxicos identificados na água coletada. Campinas e Brotas, com maior participação de áreas agrícolas em seus territórios, registraram valores superiores. A comparação mostra que a separação entre área de produção e espaço urbano não impede que substâncias associadas aos cultivos sejam encontradas na chuva.

Essa conexão é relevante para o Brasil, onde municípios com áreas agrícolas extensas convivem com bairros, estradas, mananciais e redes de abastecimento próximos das zonas de produção. O estudo paulista não representa todos os territórios brasileiros, nem permite extrapolar seus números para a Amazônia ou para outras regiões. Ele oferece, porém, uma medida concreta de como a análise da chuva pode revelar a circulação ambiental de compostos usados na agricultura, inclusive de uma substância proibida.

Uma pergunta sobre a chuva começa com a coleta

A pesquisa foi divulgada em 23 de abril de 2025, com resultados baseados em coletas realizadas de agosto de 2019 a setembro de 2021. A publicação no periódico Chemosphere reuniu os dados das três cidades paulistas e identificou 14 agrotóxicos nas amostras. Campinas registrou 701 microgramas por metro quadrado, Brotas teve 680 e São Paulo alcançou 223.

O caminho percorrido pela água até o solo costuma parecer simples, mas o estudo mostra que ele também pode carregar marcas do uso do território. Cada chuva observada passa a ser uma oportunidade de verificar o que está circulando no ambiente e de acompanhar a persistência de substâncias que já deveriam ter deixado de ser usadas. Mais do que tornar a chuva suspeita, o resultado muda o modo de observá-la: ela também pode funcionar como um registro do que a sociedade espalha sobre a paisagem.

Com informações da Agência Brasil.

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