
A integração de políticas públicas é crucial para enfrentar os desafios sanitários e ambientais da região.
Os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde e a expansão do crime organizado na Amazônia exigem políticas públicas integradas e maior cooperação entre os países que compõem o bioma. Esta avaliação foi apresentada por Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), durante sua participação virtual no evento Diálogo Estratégico do Parlamaz (Parlamento Amazônico) nesta segunda-feira, 13 de julho.
Segundo Moutinho, o principal desafio atual na Amazônia brasileira e regional é a integração entre os crimes ambientais e o crime organizado transnacional. Ele ressaltou que esse cenário torna insuficientes as políticas ambientais tradicionais, demandando uma estratégia integrada que abranja segurança, planejamento territorial e governança eficaz. O avanço do narcotráfico, por exemplo, acompanha a expansão das economias ilegais na Amazônia.
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Dados recentes do período entre 2019 e 2024 indicam um crescimento alarmante de 574,4% nas apreensões de cocaína na Região Norte do Brasil. Este dado sublinha a rápida consolidação das redes criminosas na área. Um estudo do Instituto Igarapé, que analisou 369 operações da Polícia Federal entre 2016 e 2021, revelou que 60% dessas ações investigavam múltiplas atividades ilícitas e que 55% tinham ligação com organizações criminosas, demonstrando a profunda conexão entre crimes ambientais e outras ilegalidades.
Ao discorrer sobre a intersecção entre as mudanças climáticas e a saúde pública, Moutinho enfatizou que a degradação ambiental já afeta diretamente a qualidade de vida das populações amazônicas. Eventos climáticos extremos, como os incêndios florestais agravados pelo fenômeno El Niño, comprovam que a crise climática representa um grave desafio sanitário para a região.
“Na Amazônia, o impacto das mudanças climáticas sobre as populações não distingue áreas urbanas e rurais. Por exemplo, uma parcela significativa da população da Amazônia brasileira, incluindo pessoas que vivem em comunidades tradicionais ou indígenas, respirou durante meses, ao longo da temporada de incêndios associada ao El Niño, um ar de qualidade pior do que o respirado no centro de São Paulo nos piores índices de qualidade do ar já registrados. No ano do El Niño, por exemplo, o sistema de saúde brasileiro gastou cerca de US$ 10 milhões apenas para tratar doenças respiratórias”, destacou o pesquisador do IPAM.
Sobre o Parlamaz e a cooperação regional
O Parlamaz, ou Parlamento Amazônico, é um organismo permanente de cooperação parlamentar que reúne representantes de oito países da Bacia Amazônica: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Fundado em 1989, o colegiado tem como missão fortalecer a cooperação regional e promover iniciativas para o desenvolvimento sustentável, a conservação do bioma e a integração entre os parlamentos nacionais. Segundo o IPAM, o evento no Peru marcou o encerramento do ciclo de trabalho da delegação peruana e a transição para novos membros do Senado e da Câmara dos Deputados do país.
O diálogo contou com a participação de parlamentares, legisladores eleitos, cientistas, representantes do Ministério da Saúde peruano, organizações internacionais e instituições de cooperação técnica. Foram discutidos desafios comuns à Amazônia, como a saúde pública, as mudanças climáticas e a governança regional. A integração dessas discussões reforça a crescente necessidade de uma abordagem supranacional para os desafios da Amazônia.
Conectividade da Amazônia: um pilar vital
As discussões durante o evento também incluíram evidências apresentadas por representantes do SPA (Painel Científico para a Amazônia). Em 2025, o SPA lançou o relatório “Conectividade da Amazônia para um Planeta Vivo”, que enfatiza a importância da conectividade ecológica, hidrológica, climática, social e cultural para manter a resiliência da floresta e dos serviços ambientais ecossistêmicos que ela oferece.
Entre as conclusões do relatório, destaca-se o papel fundamental da floresta na regulação do ciclo hidrológico da América do Sul. A umidade gerada pela evapotranspiração das árvores alimenta os chamados “rios voadores”, que transportam o vapor d’água para diversas regiões do continente. De acordo com o SPA, cerca de metade das chuvas que chegam aos Andes do Peru e da Bolívia tem origem na Amazônia. As conclusões convergem com um estudo recente do próprio IPAM, que mostra que a manutenção da conectividade da floresta amazônica é crucial para a preservação dos rios voadores.
A pesquisa divulgada pelo IPAM aponta que as FPNDs (Florestas Públicas Não Destinadas) exercem um papel estratégico nesse processo. Elas mantêm corredores contínuos de vegetação, capazes de sustentar o transporte de umidade e reduzir os riscos de ruptura do ciclo hidrológico amazônico. O relatório do SPA alerta ainda que secas e inundações extremas têm se tornado mais frequentes e intensas na região, um sinal claro da aproximação de um ponto de inflexão ecológica que pode comprometer a segurança hídrica, a produção de alimentos, a biodiversidade, a geração de energia e a estabilidade climática em diversos países da América do Sul. A cooperação contínua e as ações conjuntas são, portanto, essenciais para mitigar estes riscos no futuro.
Perguntas Frequentes
O que é o Parlamaz?
O Parlamaz, ou Parlamento Amazônico, é um organismo permanente de cooperação parlamentar que reúne representantes de oito países da Bacia Amazônica para fomentar o desenvolvimento sustentável e a integração regional.
Quais os principais desafios destacados pelo IPAM na Amazônia?
Os principais desafios são a integração entre crimes ambientais e o crime organizado, e os impactos das mudanças climáticas na saúde pública, exigindo políticas públicas integradas e cooperação entre os países amazônicos.
Como o crime organizado e as mudanças climáticas estão interligados na Amazônia?
O crime organizado se expande acompanhando as economias ilegais, muitas vezes ligadas a crimes ambientais como desmatamento e mineração ilegal, e as mudanças climáticas agravam a vulnerabilidade das populações e ecossistemas da região.
Com informações de IPAM Amazônia.
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