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Na COP17, fundo de US$ 400 milhões para combater a seca mira capital privado e impulsiona meta brasileira

Na COP17, fundo de US$ 400 milhões para combater a seca mira capital privado e impulsiona meta brasileira
Foto: capitalreset.uol.com.br

Mecanismo de financiamento misto apoiará agricultura sustentável, infraestrutura hídrica e restauração de áreas degradadas no Sul Global.

Um novo fundo lançado na COP17 pretende transformar o combate à seca em uma agenda capaz de atrair investimentos privados. O Fundo de Investimento para a Resiliência à Seca, conhecido pela sigla DRIF, foi apresentado em 25 de agosto de 2026, durante a conferência da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, em Ulan Bator, na Mongólia. A meta é mobilizar US$ 400 milhões para projetos de agricultura sustentável, infraestrutura hídrica e soluções baseadas na natureza em países do Sul Global.

A proposta surge em um momento de pressão sobre governos e instituições financeiras. A restauração de solos e a adaptação a períodos prolongados de estiagem ainda dependem, em grande parte, de recursos públicos, doações e programas de cooperação. O DRIF tenta mudar esse modelo ao usar uma estrutura de financiamento misto, conhecida como blended finance, para reduzir riscos e atrair seguradoras, fundos de pensão e fundos soberanos.

Fundo combina recursos públicos e investimentos privados

O mecanismo prevê uma primeira tranche de US$ 40 milhões em recursos governamentais. Esse dinheiro terá a função de absorver eventuais perdas iniciais dos projetos, estrutura conhecida no mercado como capital de primeira perda, ou first-loss capital. Com a redução do risco, a expectativa é criar condições para que investidores institucionais aportem valores maiores.

Luxemburgo foi o primeiro país a anunciar uma contribuição, de € 5 milhões. O DRIF foi estruturado dentro do Luxembourg Earth Impact Fund, iniciativa de investimentos do governo luxemburguês em parceria com a gestora Schroders e a BlueOrchard. A operação ocorre por meio da plataforma Business for Land, criada pela UNCCD para aproximar o setor privado da gestão sustentável da terra e da água.

Segundo a UNCCD, o DRIF é o primeiro mecanismo global dedicado a financiar conjuntamente agricultura sustentável, gestão responsável da água e soluções baseadas na natureza em regiões vulneráveis à seca e à degradação dos solos.

Projetos poderão receber até US$ 20 milhões

O mandato do fundo prevê investimentos médios entre US$ 5 milhões e US$ 20 milhões por projeto. Os recursos serão destinados a iniciativas com potencial de melhorar a segurança hídrica, recuperar a produtividade do solo e fortalecer economias locais afetadas pela desertificação.

Na área de infraestrutura hídrica, estão previstos financiamentos para açudes, reservatórios, bacias de retenção, tratamento e reutilização de águas residuais agrícolas, recarga de aquíferos e sistemas digitais de monitoramento. O uso de inteligência artificial também aparece entre as possibilidades para acompanhar a disponibilidade de água e apoiar decisões de gestão.

Na agricultura, o fundo poderá financiar a transição para práticas regenerativas, sistemas de irrigação por gotejamento e cadeias de valor com impacto neutro na degradação da terra. Já as soluções baseadas na natureza incluem o reflorestamento de bacias hidrográficas, a recuperação de solos degradados e a gestão sustentável de pastagens.

Assistência técnica tenta transformar projetos em investimentos

Uma das barreiras enfrentadas por países vulneráveis é a falta de projetos estruturados para acessar linhas de crédito e investimentos de impacto. Por isso, o DRIF prevê uma frente de assistência técnica com recursos não reembolsáveis, os chamados grants.

Esse apoio poderá custear a contratação de engenheiros, consultores financeiros e outros especialistas. A finalidade é ajudar governos e entidades locais a transformar propostas iniciais em projetos com estudos, indicadores, modelos financeiros e mecanismos de acompanhamento suficientes para receber capital.

A estratégia aproxima a agenda da desertificação das discussões que já ocorrem nas conferências sobre clima e biodiversidade. Além do blended finance, entram nesse debate os créditos ambientais, as métricas de impacto, a redução de riscos e a capacidade de gerar retorno financeiro associado a benefícios sociais e ambientais.

Financiamento da restauração ainda está distante da necessidade

O lançamento do DRIF ocorreu depois de uma série de anúncios que somaram US$ 1,3 bilhão em financiamentos e investimentos durante o chamado dia das finanças da COP17. Desse total, US$ 644,5 milhões foram classificados como recursos novos. Os detalhes dos anúncios financeiros da COP17 estão disponíveis no site da UNCCD.

Apesar do volume anunciado, a diferença entre os recursos disponíveis e a necessidade estimada continua expressiva. A UNCCD calcula que serão necessários aproximadamente US$ 355 bilhões por ano até 2030 para enfrentar a degradação das terras, restaurar áreas afetadas e ampliar a resiliência das comunidades.

Na COP16, realizada na Arábia Saudita, os países haviam assumido a promessa de levantar US$ 12 bilhões até a edição seguinte. A conferência de Ulan Bator colocou o financiamento no centro das negociações justamente para transformar compromissos voluntários em mecanismos mais previsíveis e capazes de chegar aos territórios.

Brasil apresenta meta de restauração até 2030

O Brasil apresentou na COP17 sua meta de Neutralidade da Degradação da Terra, conhecida pela sigla LDN. O compromisso prevê restaurar cerca de 163 mil km² até 2030, usando como referência a situação registrada em 2020, quando o país contabilizava 55,7 milhões de hectares com tendência à degradação.

As ações brasileiras devem incluir recuperação de vegetação nativa, implantação de sistemas agroflorestais e iniciativas em unidades de conservação, territórios indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas. Segundo a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, cerca de 18% do território brasileiro está dentro de Áreas Suscetíveis à Desertificação.

Embora a maior parte dessas áreas esteja concentrada no Nordeste, a agenda também interessa diretamente à Amazônia. A degradação de bacias, a perda de cobertura vegetal, a erosão e a alteração do regime de chuvas afetam a segurança hídrica e a produção rural em diferentes estados da região. Projetos de restauração, manejo de pastagens e proteção de nascentes podem conectar a meta brasileira às necessidades de comunidades amazônicas e de outras áreas vulneráveis.

Segundo a UNCCD, a COP17 é realizada em Ulan Bator, na Mongólia, de 17 a 28 de agosto de 2026, com foco em mobilizar recursos para a restauração de terras e o enfrentamento da seca.

O desafio agora é fazer com que o fundo avance da estrutura financeira para a execução de projetos, com critérios claros de seleção, acompanhamento dos resultados e acesso efetivo por governos locais, produtores e comunidades. As próximas etapas da COP17 deverão definir como os compromissos anunciados serão convertidos em operações de investimento e ações de restauração até 2030.

Com informações de UNCCD.

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