Corre-campo: serpente de presas traseiras caça sapos, lagartos e roedores e pode causar acidentes

Corre-campo persegue lagarto em campo aberto, mergulha em toca de roedor e troca a corrida diurna por abrigo contra o calor
Ilustração: Revista Amazônia

A corre-campo (Philodryas patagoniensis) é uma serpente terrestre de presas traseiras, com dieta ampla e veneno capaz de causar dor e inchaço em acidentes com pessoas.

Uma serpente de campo aberto com as presas no fundo da boca

A corre-campo, também chamada de parelheira, é a serpente Philodryas patagoniensis, da família Dipsadidae. Tem corpo robusto e hábito terrestre, e aparece sobretudo em áreas abertas, como campos e savanas úmidas, embora também ocupe ambientes alagados, interiores de brejos e dunas. Essa descrição de hábitat vem do estudo de Quintela e Loebmann, publicado em 2019 nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, que examinou 126 exemplares da espécie coletados ao longo de cerca de 500 quilômetros do litoral do Rio Grande do Sul.

A dentição é opistóglifa: os dentes maiores, ligados à produção de veneno, ficam na parte posterior da maxila. Em artigo de 1997 na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, Araújo e Santos explicam que essa posição dificulta a inoculação do veneno e ajuda a entender por que os acidentes são pouco frequentes. No caso que os próprios autores relatam, porém, a serpente mordeu várias vezes o punho de um técnico e levou cerca de dois minutos para ser retirada.

Um estudo de Gouveia e colegas, publicado em 2017 na revista Biota Neotropica, analisou 355 exemplares de coleções científicas de 18 estados brasileiros e do Distrito Federal. As fêmeas adultas são significativamente mais longas que os machos, tanto no corpo quanto na cauda, e a espécie apresenta dois padrões de coloração que não estão ligados ao sexo nem à região de origem. Por isso, a cor sozinha não basta para identificar o animal.

Sapos, lagartos e pequenos mamíferos no cardápio

O mesmo levantamento de Quintela e Loebmann examinou o conteúdo do trato digestivo das serpentes. Os anfíbios apareceram em 48,83% dos casos, os répteis escamados (entre eles os lagartos) em 34,88%, os mamíferos em 20,93%, os artrópodes em 4,65% e os peixes em 2,13%. Os autores classificam a corre-campo como generalista, com uma dieta mais variada que a da congênere Philodryas aestiva, que é esguia, sobe em vegetação e come sobretudo anfíbios e pequenos mamíferos.

Em outras regiões o quadro muda. Um estudo sobre a dieta da espécie no nordeste da Argentina encontrou os répteis como presa mais comum, com 58% do total, e o lagarto Cercosaura schreibersii como o item individual mais frequente. Os pesquisadores também registraram uma mudança ao longo da vida: os adultos incluíam presas de sangue quente, como pequenos mamíferos, que não apareciam do mesmo modo na dieta dos mais jovens.

Uma comparação feita por pesquisadores ligados ao Instituto Butantan e à Unesp, no sul do Brasil, mostrou que a corre-campo se alimenta de presas mais pesadas que as da parelheira Philodryas olfersii, uma serpente semiarborícola, mais delgada e de cauda mais longa. Os autores relacionam a diferença aos microhábitats que cada espécie usa para procurar alimento. Em resumo, lagartos fazem parte do cardápio da corre-campo, mas não são o alvo exclusivo: a serpente aproveita o que o ambiente oferece, e o chão é onde ela mais caça.

O veneno e os acidentes registrados

Durante muito tempo, as serpentes do gênero Philodryas foram tratadas como inofensivas para o ser humano. A literatura médica mostra o contrário. Em 1994, na Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, Nishioka e Silveira, da Universidade Federal de Uberlândia, descreveram o caso de um menino de 5 anos mordido por uma corre-campo, que desenvolveu inchaço e calor no membro atingido. Os autores o apresentaram como o primeiro envenenamento local reconhecido causado por essa espécie. Como a serpente foi identificada de forma errada, o menino foi tratado como vítima de jararaca e recebeu soro antibotrópico sem necessidade.

O segundo relato é o de Araújo e Santos, de 1997, ocorrido no Instituto Vital Brazil, em 20 de janeiro de 1994. Minutos após a mordida, o técnico sentiu coceira. Nas 72 horas seguintes, o inchaço avançou da mão e dos dedos para o antebraço, o braço e a axila, e o edema durou cerca de 15 dias, com dor e redução dos movimentos. Não houve sintomas sistêmicos, e os exames de coagulação e a pressão arterial ficaram normais. Os autores chamam atenção para a semelhança do quadro com o envenenamento botrópico e defendem uma avaliação cuidadosa da vítima antes de decidir o tratamento.

O maior levantamento é o de Medeiros e colegas, publicado em 2010 na revista Toxicon. Os pesquisadores revisaram 297 casos comprovados de picada de corre-campo atendidos no Hospital Vital Brazil, do Instituto Butantan, em São Paulo, entre 1959 e 2008. Os acidentes se concentraram nas estações mais quentes, primavera e verão. Revisões posteriores que citam esse trabalho resumem dor e edema como os principais sinais locais, com intensidade comparável à dos acidentes causados por jararacas, mas sem as alterações de coagulação típicas desses casos.

No laboratório, pesquisadores do Butantan isolaram do veneno uma metaloproteinase chamada patagonfibrase, que provocou edema hemorrágico, dependente do tempo e da dose, na pata de camundongos. Estudos mais recentes com camundongos avaliam o edema e a dor induzidos pelo veneno e discutem as implicações para o tratamento dos acidentes.

O que fazer diante de um acidente

A principal lição dos casos descritos é que a corre-campo não deve ser tratada como inofensiva, nem como uma jararaca. Quem for picado deve procurar um serviço de saúde, informando que a serpente pode ser uma Philodryas, de presas traseiras, se for possível identificá-la. Fotografar o animal à distância, sem tentar capturá-lo ou manuseá-lo, ajuda a equipe médica, já que a identificação errada levou ao uso desnecessário de soro no caso registrado em 1994.

Em campos, pastagens e áreas de cultivo, onde a espécie costuma ser vista, o uso de botas e perneiras reduz o risco de picadas nos pés e nas pernas, que são as regiões mais expostas durante o trabalho no campo. Matar a serpente não é necessário nem recomendado: manter distância e deixá-la seguir seu caminho é a forma mais segura de evitar o acidente.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA