
Cortar cipós pode ser a forma mais barata e rápida de devolver vida a uma floresta tropical explorada. Segundo estudo publicado em 8 de junho de 2026 na revista Current Biology, o corte de cipós fez o dossel de uma floresta em Bornéu crescer 3,7 metros em nove anos. O plantio de mudas, método mais comum, rendeu 1,6 metro em 18 anos.
A pesquisa foi liderada pela Universidade de Bristol, no Reino Unido, com instituições da Malásia e da Europa. Os cientistas acompanharam 500 hectares, área equivalente a cerca de 700 campos de futebol, com escaneamento a laser feito de avião. O resultado interessa diretamente à Amazônia, onde a exploração madeireira e a crise climática deixaram extensas áreas de floresta degradada.
Um laboratório do tamanho de 700 campos de futebol
O estudo usou o Experimento de Biodiversidade de Sabah, na Malásia, um dos maiores e mais longos testes de restauração florestal do mundo. Criado em 2002, ele ocupa uma floresta que passou por extração seletiva de madeira nos anos 1980.
Parte da área recebeu plantio de mudas nativas. Outra parte, além do plantio, teve os cipós cortados a partir de 2011 e 2014. Uma terceira ficou sem intervenção, como controle.
Para comparar, os pesquisadores mediram também uma floresta primária vizinha, em Danum. Lá, a altura média do dossel é de 33,6 metros. Nas áreas exploradas sem tratamento, ficou em 27,8 metros em 2020.
Por que os cipós atrasam a floresta
Cipós, ou lianas, são plantas lenhosas que sobem pelas árvores em busca de luz. Depois que uma floresta é explorada, eles costumam se multiplicar e passam a disputar luz, água e nutrientes com as árvores.
O estudo mostra o tamanho desse peso. Nas áreas com corte de cipós, morreram cerca de 5,3 árvores por hectare no período analisado. Nas áreas só com plantio, foram 10,1. A mortalidade caiu pela metade.
Segundo os autores, 54% do ganho veio das árvores que deixaram de morrer. Os outros 46% vieram do crescimento mais rápido das que já estavam lá. Sem os cipós, a vegetação das clareiras cresceu 1,39 metro por ano, contra 1,07 metro nas áreas só com plantio.
Os pesquisadores levantam uma hipótese. O período estudado incluiu a forte seca provocada pelo El Niño de 2015 e 2016. Como os cipós são muito eficientes em puxar água, retirá-los pode ter aliviado o estresse hídrico das árvores.
Carbono a preço de banana
A diferença também aparece no bolso. Na Malásia, cortar cipós custa entre US$ 140 e US$ 330 por hectare. O plantio de mudas sai entre US$ 1.500 e US$ 2.500.
Pelos cálculos do estudo, o corte de cipós retira cada tonelada extra de gás carbônico da atmosfera por cerca de US$ 2. No plantio, o valor sobe para US$ 58. Para comparação, o preço médio para compensar uma tonelada de CO2 no mercado voluntário de carbono foi de US$ 6,34 em 2024, segundo dados citados pelos autores.
Em carbono, o corte de cipós somou 1,4 tonelada a mais por hectare a cada ano, três vezes o ganho do plantio. Os autores lembram que a conta inclui apenas o custo da intervenção, sem gastos de gestão e monitoramento.
Entenda a disputa entre plantar e cortar
O plantio de enriquecimento coloca mudas de espécies nativas na floresta degradada. Funciona, mas é caro, muitas mudas morrem nos primeiros anos e elas levam décadas para chegar ao alto da copa.
O corte de cipós age sobre as árvores que já estão ali. Libera as copas, reduz mortes e acelera o crescimento logo nos primeiros anos.
Não é para acabar com os cipós
Os próprios cientistas fazem a ressalva. Cipós são parte da floresta. Eles aumentam a abundância e a diversidade de aves e servem de alimento e de caminho pela copa para muitos animais.
O estudo também alerta que a floresta tratada ficou tão densa que superou a mata primária em área de folhas. Isso pode levar a uma disputa forte por luz e a uma nova onda de mortes no futuro. Por isso, os autores defendem monitoramento contínuo.
A recomendação final é equilíbrio. Em florestas exploradas uma única vez, o corte de cipós sozinho pode bastar. Em áreas muito degradadas, o plantio continua necessário para trazer de volta espécies que sumiram.
O que a Amazônia pode aprender com Bornéu
Segundo o artigo, mais da metade das florestas tropicais que restam no mundo está degradada. O corte de cipós já havia mostrado bons resultados em florestas da América Central e da América do Sul, e agora passa no teste também no Sudeste Asiático.
No Brasil, a técnica já faz parte do manual do manejo florestal. As diretrizes de exploração de impacto reduzido publicadas pela Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, recomendam cortar os cipós de preferência um ano antes da retirada de madeira. Segundo o documento, a prática diminui de forma acentuada os danos às árvores que ficam de pé e o risco de acidentes na derrubada, e pode ser repetida depois da colheita para facilitar a regeneração e o crescimento da floresta.
O que o estudo de Bornéu acrescenta é a medida do ganho em escala de paisagem. Para a Amazônia, a lição toca a bioeconomia e o mercado de carbono. Uma técnica simples e barata pode acelerar a recuperação de florestas exploradas a uma fração do custo do replantio.
A pergunta que fica é se programas de restauração na Amazônia vão olhar para o que já está de pé antes de apostar só em novas mudas.
Com informações da revista Current Biology (Jackson et al., 2026) e da Embrapa Amazônia Oriental (Sabogal et al., 2000).
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














