
Estudo com 243 projetos mostra quanto custa transformar promessas globais de recuperação ambiental em ações concretas.
Recuperar uma área degradada não tem um preço único. Em alguns casos, a restauração depende principalmente do tempo e da regeneração natural. Em outros, exige infraestrutura, irrigação, manejo contínuo e mudanças no uso da terra. Essa diferença ajuda a explicar por que os compromissos internacionais de restaurar até 1 bilhão de hectares podem custar entre US$ 311 bilhões e US$ 2,1 trilhões ao longo de dez anos.
Os valores foram reunidos em um estudo publicado na revista Land Degradation & Development e analisado pela One Earth em 6 de outubro de 2025. A pesquisa examinou informações de 243 projetos de restauração realizados em diferentes partes do mundo, numa tentativa de preencher uma lacuna que dificulta a execução de metas ambientais: governos anunciam a extensão das áreas que pretendem recuperar, mas nem sempre sabem quanto será necessário investir para cumprir a promessa.
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A mediana dos custos varia de US$ 185 por hectare em ações de manejo florestal a US$ 3.012 por hectare em sistemas silvipastoris, que combinam árvores, pastagem e criação de animais. A amplitude mostra que a palavra restauração reúne intervenções muito diferentes, desde a proteção de uma área para permitir a regeneração até a reorganização de toda uma paisagem produtiva.
Projetos com obras físicas e maior necessidade de insumos tendem a custar mais. Sistemas que dependem de irrigação, por exemplo, enfrentam despesas que não aparecem em iniciativas baseadas na regeneração natural assistida. Também pesam os salários, o preço dos materiais, a logística e a capacidade de acompanhamento das equipes.
O tamanho do projeto altera a conta. Grandes áreas podem reduzir o custo por hectare graças à economia de escala. Isso, porém, não significa que iniciativas comunitárias sejam menos importantes ou ineficientes. Projetos menores podem exigir mais trabalho por unidade de área, mas frequentemente estão ligados ao sustento local e a decisões tomadas por quem vive no território.
Uma promessa ambiental com impacto econômico desigual
Segundo a One Earth, a análise publicada em 6 de outubro de 2025 calculou que cumprir os compromissos globais de restauração custaria entre US$ 311 bilhões e US$ 2,1 trilhões em uma década, dependendo do tipo e da escala das intervenções. A estimativa equivale a uma faixa de 0,04% a 0,27% do Produto Interno Bruto global anual.
O número parece administrável quando comparado ao tamanho da economia mundial, mas essa média esconde quem efetivamente terá de desembolsar os recursos. A maior parte dos compromissos está concentrada em países em desenvolvimento, especialmente na África Subsaariana. Nesses locais, a pesquisa aponta que o esforço financeiro pode representar de 6% a 38% do Produto Interno Bruto em alguns casos.
Essa é a principal tensão revelada pelo levantamento. A restauração é apresentada como uma resposta de interesse global à perda de biodiversidade, às secas e à instabilidade climática, mas os custos recaem de maneira mais pesada sobre países com menor capacidade fiscal. Sem mecanismos internacionais de repartição, metas voluntárias podem permanecer no papel não por falta de área disponível, mas por falta de dinheiro.

A conta da inação é maior, mas não chega automaticamente a quem restaura
A degradação já afeta aproximadamente 2 bilhões de hectares no planeta. O avanço do desmatamento, a expansão agrícola e as secas associadas às mudanças climáticas reduzem a capacidade dos ecossistemas de oferecer água, fertilidade do solo, proteção contra extremos e outros serviços essenciais.
As perdas econômicas relacionadas à degradação são estimadas em US$ 6,3 trilhões por ano em serviços ecossistêmicos. Em comparação, cada dólar aplicado na restauração de florestas pode gerar entre US$ 7 e US$ 30 em retornos econômicos, por meio de biodiversidade protegida, maior resiliência climática e meios de vida sustentáveis.
A comparação favorece a restauração como investimento, mas não resolve o problema do fluxo de recursos. Quem paga pelo plantio, pela proteção, pelo monitoramento e pela mudança no modelo produtivo nem sempre é quem captura os benefícios econômicos no curto prazo. É nesse intervalo que surgem as propostas de fundos públicos, parcerias com empresas, mercados de serviços ecossistêmicos, conversões de dívida em conservação e créditos de carbono.
O que os números significam para a Amazônia
Para a Amazônia, a discussão é especialmente relevante porque a recuperação de áreas degradadas não se resume à quantidade de mudas plantadas. Em territórios do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, projetos podem envolver florestas, áreas agrícolas, pastagens e zonas submetidas a secas ou perda de cobertura vegetal. Cada contexto altera a técnica, a logística e o custo por hectare.
O estudo oferece uma referência útil para evitar duas simplificações recorrentes. A primeira é tratar toda restauração como uma operação barata e uniforme. A segunda é anunciar hectares restaurados sem apresentar o orçamento necessário, a fonte dos recursos e a forma de medir a permanência dos resultados.
Na prática, uma meta amazônica precisa considerar quem executará o trabalho, durante quanto tempo a área será acompanhada e quais benefícios ficarão com comunidades, produtores e governos locais. O custo inicial também não encerra a obrigação: áreas restauradas podem exigir manutenção, prevenção contra novos incêndios e controle de pressões econômicas que causaram a degradação.
Financiamento ainda é o elo frágil
O levantamento foi divulgado no contexto do Desafio de Bonn e da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas, vigente de 2021 a 2030. Essas iniciativas ajudaram a elevar a ambição política, mas transformar hectares prometidos em áreas recuperadas exige projetos detalhados, segurança financeira e regras capazes de impedir que o dinheiro se concentre apenas em ações de maior retorno comercial.
Uma ferramenta que permite acompanhar como recursos climáticos são direcionados para transição energética, conservação da natureza e agricultura regenerativa está disponível no Finance Tracker da One Earth. O acompanhamento é importante porque a existência de financiamento anunciado não garante que ele chegue às comunidades ou às regiões que enfrentam os custos mais altos.
A próxima etapa, segundo a análise, é abandonar a distância entre compromissos e execução. Governos, investidores e organizações precisarão combinar estimativas realistas, divisão mais justa das despesas e critérios transparentes para verificar se a restauração produziu resultados duradouros.
Com informações de One Earth.
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