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Ouro do Tapajós: a riqueza que envenena rios e povos indígenas no coração da Amazônia

Neste artigo
  1. O ouro e seu lugar no universo químico
  2. O ouro do Tapajós: riqueza e conflito
  3. O preço ambiental do garimpo: mercúrio no sangue
  4. O que isso significa para a Amazônia

O ouro é um dos elementos mais carregados de tensão na Amazônia. Enquanto empresas como Equinox Gold (Aurizona, no Maranhão) e G Mining (Tocantinzinho, no Pará) operam minas industriais com licenças ambientais, garimpeiros ilegais espalham-se pelo Tapajós usando técnicas rudimentares que envenenam rios inteiros com mercúrio. A riqueza de um metal é o veneno de um rio.

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O ouro e seu lugar no universo químico

O ouro é o elemento 79 da tabela periódica, simbolizado por Au (do latim aurum). Com massa atômica de 197,0 unidades, pertence à família dos metais de transição e é um dos elementos mais densos conhecidos. Sua densidade de 19,3 gramas por centímetro cúbico torna o metal extraordinariamente pesado: um metro cúbico de ouro pesa quase vinte toneladas.

Mendeleev, o químico russo que organizou a tabela periódica em 1869, já reconhecia o ouro como um elemento nobre. Sua posição na tabela reflete uma propriedade química notável: o ouro é extremamente resistente à corrosão. Não enferruja, não se oxida, não se dissolve facilmente em ácidos comuns. Isso explica por que civilizações antigas utilizavam ouro em joias e artefatos rituais que atravessaram séculos intactos.

Na sua forma pura, o ouro é maleável e dúctil, permitindo que seja martelado em folhas finas ou esticado em fios quase invisíveis. Essas propriedades fizeram dele uma moeda de troca e reserva de valor em praticamente toda sociedade humana que o descobriu.

O ouro do Tapajós: riqueza e conflito

O rio Tapajós, que atravessa o Pará e nasce no Mato Grosso, é uma das maiores bacias hidrográficas da Amazônia. Há séculos, suas areias carregam ouro. A cidade de Itaituba, no Pará, tornou-se historicamente o polo do garimpo legal e ilegal no Tapajós, atraindo milhares de garimpeiros que buscam fortuna no fundo dos rios.

A mineração industrial chegou mais recentemente. Empresas como G Mining operam a mina de Tocantinzinho, na região de Itaituba, extraindo ouro de forma mecanizada e com controles ambientais formais. A Equinox Gold, operando em Aurizona no Maranhão vizinho, segue o mesmo modelo industrial.

Mas a mineração ilegal é infinitamente maior em escala. Garimpeiros utilizam balsas movidas a motores diesel, escavam as margens dos rios e usam mercúrio para separar o ouro do sedimento. O mercúrio se liga ao ouro, formando uma amálgama que depois é aquecida para liberar o metal. Simples. Devastador.

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O preço ambiental do garimpo: mercúrio no sangue

Quando mercúrio é aquecido ao ar livre, ou quando a amálgama é queimada em fornos artesanais, o vapor de mercúrio sobe e se deposita nos rios. De lá, bactérias transformam mercúrio inorgânico em metilmercúrio, uma forma extremamente tóxica que se acumula nos tecidos dos peixes.

Os peixes são a fonte de proteína primária para comunidades indígenas ao longo do Tapajós. Povos como os Munduruku, que vivem há séculos nesse rio, consumem peixe diariamente. Estudos científicos consolidados, conduzidos por instituições como a Fundação Oswaldo Cruz, documentaram concentrações de mercúrio no sangue de indígenas do Tapajós que excedem os limites considerados seguros pela Organização Mundial de Saúde.

O mercúrio causa danos neurológicos crônicos, comprometendo a memória, a coordenação motora e o desenvolvimento cognitivo em crianças. Mulheres grávidas que ingerem mercúrio correm risco aumentado de gerar filhos com malformações. É um envenenamento lento, imperceptível, que não produz sintomas agudos óbvios, mas que corrói a saúde geracional.

O desmatamento agrava o problema. Garimpeiros abrem clareiras nas matas ribeirinhas para instalar acampamentos e balsas. Árvores caem, solo fica exposto à erosão e sedimentos turvam o rio. A biodiversidade do Tapajós, que depende da integridade desse ecossistema, sofre colapso progressivo.

O que isso significa para a Amazônia

O ouro do Tapajós é um símbolo perfeito da contradição amazônica. Ele representa riqueza econômica imediata e riqueza mineral real, mas seu preço ambiental é talvez incalculável: rios envenenados, povos intoxicados, florestas destruídas, espécies perdidas.

A questão não é se o ouro deveria ser extraído. A questão é como. Mineração com padrões ambientais rígidos é possível, mas requer investimento contínuo em monitoramento, em tecnologias limpas e em fiscalização. Garimpo ilegal é mais lucrativo a curto prazo precisamente porque externaliza todos os custos ambientais para a sociedade.

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Ouro além do Tapajós
O ouro é um dos elementos mais densos e resistentes à corrosão. Uma onça troy (cerca de 31 gramas) de ouro pode ser batida até cobrir um metro quadrado de superfície. Essa maleabilidade extrema, combinada com sua durabilidade, explica por que civilizações de todo o mundo elegeram o ouro como símbolo de poder e imortalidade muito antes de entender química.

Conheça os outros 117 elementos na Tabela Periódica da Amazônia

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