Dois esquilos-voadores da mesma ilha seguiram caminhos genéticos distintos após mudanças no clima

Dois esquilos-voadores da mesma ilha seguiram caminhos genéticos distintos após mudanças no clima
Foto: acervo

Estudo com duas espécies de Taiwan mostra como altitude, clima passado e tamanho do habitat moldaram populações diferentes.

Em uma mesma ilha, duas espécies muito parecidas podem carregar histórias evolutivas bastante diferentes. É o que indica um estudo publicado em 6 de outubro de 2026 na revista Heredity, que comparou os esquilos-voadores gigantes Petaurista lena e Petaurista grandis, encontrados em Taiwan. As duas espécies apresentam uma divisão genética entre o norte e o sul da ilha, mas chegaram a esse resultado em momentos distintos e sob condições populacionais diferentes.

A pesquisa sugere que a altitude ocupada por cada animal, as mudanças do clima ao longo do tempo e o tamanho histórico das áreas adequadas para sobrevivência ajudaram a definir o grau de diversidade genética existente hoje. A conclusão é importante porque mostra que espécies próximas, vivendo no mesmo território e com modos de vida semelhantes, não respondem necessariamente da mesma forma às transformações ambientais.

Uma fronteira norte-sul com duas histórias

Os pesquisadores encontraram sinais de diferenciação genética entre populações do norte e do sul de Taiwan nas duas espécies. Em termos simples, os animais de uma região são geneticamente mais parecidos entre si do que com os indivíduos da outra parte da ilha.

Essa separação, porém, não aconteceu ao mesmo tempo. Para o Petaurista lena, a divisão entre norte e sul começou há aproximadamente 163 mil anos. Já no Petaurista grandis, o processo foi mais recente, com cerca de 46 mil anos.

Segundo a revista Heredity, o estudo publicado em 6 de outubro de 2026 identificou histórias demográficas distintas para as duas espécies de esquilos-voadores gigantes de Taiwan, apesar de ambas apresentarem diferenciação genética entre as populações do norte e do sul da ilha.

Como os cientistas reconstruíram o passado

Para chegar a esse resultado, a equipe analisou variações no DNA dos animais e combinou diferentes modelos estatísticos. Essas ferramentas permitem estimar quando populações começaram a se separar, se houve troca de indivíduos entre regiões e se o número de animais aumentou ou diminuiu ao longo das gerações.

Os autores também compararam os dados genéticos com características ambientais e mapas que estimam a adequação de diferentes áreas para cada espécie. O objetivo foi verificar se a divergência poderia ser explicada diretamente pelo ambiente atual ou se a geografia e os acontecimentos do passado tinham um peso maior.

Depois de considerar os fatores neutros, isto é, mudanças genéticas que não estão necessariamente ligadas à adaptação, a associação entre a variação genética e as características ambientais foi pequena. Isso não elimina a influência do ambiente, mas indica que a separação geográfica e a história demográfica ajudam a explicar melhor o padrão observado.

Mais espaço, mais fluxo genético

O Petaurista lena apresentou uma população histórica maior, maior diversidade genética e mais fluxo gênico depois da separação entre norte e sul. Fluxo gênico é a troca de genes entre populações, geralmente causada pelo deslocamento e pela reprodução de indivíduos entre áreas diferentes.

Os modelos indicam que essa espécie também contou, no passado, com uma área potencialmente adequada mais extensa. Um território maior pode sustentar mais indivíduos e oferecer mais oportunidades de contato entre grupos separados por distâncias ou barreiras naturais.

O cenário foi diferente para o Petaurista grandis. A espécie apresentou população menor e uma redução especialmente forte no grupo do norte, fenômeno conhecido como gargalo populacional. Quando esse processo ocorre, parte da diversidade genética pode ser perdida porque poucos indivíduos permanecem responsáveis pela continuidade da população.

Os autores levantam a hipótese de que a área historicamente adequada para o Petaurista grandis era menor do que a disponível para o Petaurista lena. Essa diferença pode ter contribuído para a separação norte-sul mais intensa observada na primeira espécie, embora o estudo não trate essa relação como uma prova isolada de causa e efeito.

O papel das montanhas e do clima antigo

O caso de Taiwan ajuda a entender por que a altitude pode ser decisiva para animais que dependem de florestas e de condições específicas de temperatura. Em uma ilha montanhosa, mudanças climáticas ocorridas ao longo de milhares de anos podem ampliar ou reduzir as faixas onde uma espécie consegue viver.

Quando o clima muda, uma área adequada pode se deslocar para altitudes maiores, diminuir ou ficar fragmentada. Populações que antes tinham contato podem passar longos períodos separadas. Com o tempo, a troca genética diminui e as diferenças entre os grupos podem se acumular.

O estudo também considera a possibilidade de exclusão competitiva, quando duas espécies com necessidades parecidas disputam recursos e uma delas ocupa melhor determinados ambientes. Essa é uma hipótese levantada pelos autores, não uma conclusão definitiva demonstrada apenas pelos dados genéticos.

O que a pesquisa ensina para a Amazônia

Embora o trabalho tenha sido realizado em Taiwan, o princípio analisado interessa à conservação da biodiversidade amazônica. A região não é formada apenas por áreas de baixa altitude e floresta contínua. Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Rondônia, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão reúnem serras, planaltos, florestas de terra firme, ambientes sazonais e diferentes graus de conexão entre habitats.

Em paisagens assim, duas populações da mesma espécie podem enfrentar histórias distintas de isolamento, redução de habitat e mudança climática. A genética pode ajudar a identificar grupos que parecem semelhantes externamente, mas que possuem pouca troca de genes entre si. Essa informação é útil para definir corredores ecológicos e evitar que uma população local seja tratada como substituível por outra.

O resultado não significa que o padrão encontrado nos esquilos-voadores de Taiwan se repita automaticamente na Amazônia. A conexão está no método: combinar DNA, distribuição geográfica, altitude e reconstruções climáticas permite investigar como cada espécie respondeu às transformações do território.

As dúvidas que permanecem

A pesquisa mostra uma associação entre a história demográfica, as áreas adequadas do passado e os padrões genéticos atuais. Ainda assim, os resultados não permitem atribuir toda a divergência a um único fator. Mudanças climáticas antigas, barreiras geográficas, competição e variações no tamanho das populações podem ter atuado juntas.

Os dados utilizados no estudo foram depositados no NCBI BioProject sob o código PRJNA1367549, o que permite o acesso ao conjunto de informações por outros pesquisadores. Novas análises poderão testar se a redução da diversidade genética do Petaurista grandis afeta sua capacidade de responder a mudanças ambientais futuras.

Com informações da revista Heredity.

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