
Revisão de bases nacionais indica que áreas conservadas foram subestimadas, embora a proteção ainda seja desigual.
A distância até a meta internacional de proteger 30% das terras do planeta pode ser menor do que indicam os registros oficiais. Uma análise publicada em 14 de outubro de 2026 na revista Nature estima que 26,81% da superfície terrestre já esteja incluída em algum tipo de área de conservação, enquanto os dados divulgados pelas Nações Unidas apontavam 18,5%.
O resultado não significa que o objetivo esteja garantido. A pesquisa mostra que parte da diferença vem de territórios conservados em bases nacionais, mas que ainda não aparecem nos bancos de dados internacionais. Também indica que a proteção está distribuída de forma desigual entre os ambientes e que ter uma área reconhecida no papel não assegura, por si só, a sobrevivência da biodiversidade.
Onde estavam os territórios que ficaram fora da conta
O estudo foi conduzido pelo Durrell Institute of Conservation and Ecology, da Universidade de Kent, no Reino Unido. Para revisar o cálculo global, a equipe comparou registros de conservação de 25 países e territórios, conjunto que representa cerca de 10% das terras do mundo.
Os pesquisadores também consultaram bancos de dados internacionais e 65 bases nacionais ou menores. Essas fontes reúnem áreas que podem ter algum nível de proteção, mas não foram incorporadas aos registros globais usados para acompanhar o compromisso internacional.
Segundo a Universidade de Kent, 26,81% das terras do planeta estavam associadas a alguma forma de conservação quando os pesquisadores reuniram registros nacionais e internacionais analisados no estudo publicado em 14 de outubro de 2026.
A diferença entre 18,5% e 26,81% não é apenas uma mudança estatística. Ela revela como a forma de registrar uma área pode alterar a leitura sobre o avanço de uma política ambiental. Um território pode ser conhecido e administrado localmente, mas permanecer invisível em sistemas internacionais por falta de padronização, atualização ou reconhecimento formal.
Mais área protegida não resolve tudo
A Convenção sobre Diversidade Biológica estabeleceu, em 2022, o compromisso de conservar 30% do planeta até 2030. Mais de 190 países aderiram à meta, que envolve ambientes terrestres e marinhos. No recorte analisado pela pesquisa, o componente terrestre aparece mais próximo do objetivo, mas ainda exige quatro anos de trabalho para alcançar o percentual acordado.
A autora principal, Helen O’Neill, pesquisadora associada de pós-doutorado do Institute of Zoology, afirmou que o objetivo terrestre parecia fora de alcance considerando os registros oficiais. A análise, segundo ela, mostra que uma parcela maior das terras já está em algum tipo de área de conservação do que se reconhecia.
“Com quatro anos para o fim, o componente terrestre da meta de 30% parece fora de alcance. Nossa análise sugere que muito mais terras estão em algum tipo de área de conservação do que é atualmente reconhecido”, disse Helen O’Neill em comunicado.
O alerta principal dos autores está na qualidade dessa proteção. O estudo identificou que habitats como pastagens e formações arbustivas, importantes para espécies de fauna e flora, ainda recebem proteção limitada. Assim, uma expansão numérica das áreas conservadas pode deixar de fora justamente ecossistemas que não costumam ocupar o centro das políticas de preservação.
O que a meta exige na prática
Para que uma área contribua de fato para a conservação da biodiversidade, ela precisa ser escolhida com critérios ecológicos e administrada de modo contínuo. Os pesquisadores destacam a importância de conectar os territórios protegidos, incluir diferentes ecossistemas e garantir uma gestão considerada justa para os moradores locais.
Essa questão é especialmente relevante para a Amazônia. Nos estados amazônicos, decisões sobre conservação alcançam comunidades rurais, povos indígenas, populações tradicionais, atividades econômicas e órgãos públicos que convivem com extensas áreas de floresta e outros ambientes. O percentual global, sozinho, não mostra se cada território tem fiscalização, recursos, planejamento ou participação social suficientes.
A mesma lógica vale para áreas protegidas amazônicas que aparecem em registros nacionais, mas podem não ser contabilizadas em levantamentos internacionais. O reconhecimento desses territórios pode melhorar o retrato global, mas não substitui ações contra desmatamento, degradação, incêndios e perda de conectividade entre habitats. Esses problemas não foram medidos pelo estudo como uma avaliação específica da Amazônia.
O número ainda precisa ser acompanhado pela gestão
Bob Smith, diretor do Durrell Institute of Conservation and Ecology, defendeu que os países façam um esforço maior para reconhecer oficialmente áreas que já constam de bases nacionais. Ao mesmo tempo, afirmou que o foco deve se voltar para a efetividade da conservação.
“Aumentar a área de terras sob conservação terá pouco efeito se esses locais não forem administrados de maneira eficaz e justa”, disse Bob Smith em comunicado.
Essa distinção separa duas perguntas que costumam aparecer juntas, mas não são iguais: quanto do território foi designado para conservação e quanto dessa área realmente protege espécies, habitats e processos ecológicos. O estudo contribui para responder melhor à primeira questão e reforça que a segunda depende de avaliações de campo, recursos e governança.
Os autores não apresentam a revisão como prova de que a meta de 30% já foi alcançada. O resultado indica que os registros oficiais provavelmente subestimam a extensão das áreas conservadas, enquanto a cobertura de determinados habitats e a qualidade da gestão continuam sendo desafios. O próximo passo é reconhecer os territórios ausentes das bases globais e verificar se eles cumprem objetivos reais de conservação até 2030.
Com informações da Universidade de Kent.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














