
Análise liderada pela Conservation International alerta que a biodiversidade subterrânea é sub-representada nas avaliações globais de conservação
Vida escondida sob a serapilheira
Sob folhas caídas, raízes e matéria orgânica em decomposição existe uma comunidade que sustenta funções essenciais do ambiente, mas permanece pouco representada nas avaliações globais de conservação. Um estudo divulgado em 15 de abril de 2026 analisou espécies que passam parte fundamental do ciclo de vida dentro do solo ou vivem principalmente na interface entre o solo e a serapilheira. Entre 8.653 espécies classificadas, pelo menos 1.758, o equivalente a 20%, aparecem em risco de extinção.
A análise foi liderada pela Conservation International e utilizou registros de espécies ameaçadas na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, conhecida pela sigla IUCN. O levantamento chama atenção para uma desigualdade no conhecimento disponível. Vertebrados concentram a maior parte das avaliações, enquanto fungos e invertebrados, que formam a maioria das espécies dependentes do solo, aparecem em quantidade muito menor. O resultado transforma o solo em uma frente ainda pouco conhecida da conservação da biodiversidade.
O levantamento reúne milhares de espécies
Para chegar ao resultado, os pesquisadores partiram das espécies incluídas na lista global da IUCN e identificaram aquelas dependentes do solo em alguma etapa decisiva de sua vida. Das 8.653 espécies classificadas, 1.758 foram associadas a risco de extinção. O número representa uma parcela significativa dentro do conjunto avaliado, mas não descreve toda a biodiversidade que vive no solo. A seleção dependeu da existência de informações suficientes para estabelecer o status global de conservação.
Outras 1.722 espécies relacionadas ao solo não puderam ser avaliadas dessa forma. Elas aparecem na lista da IUCN com dados insuficientes para determinar a situação global, ainda que existam registros regionais. A diferença entre uma espécie considerada ameaçada e outra sem avaliação conclusiva depende, nesse caso, do volume e da qualidade das informações disponíveis. O estudo, portanto, mede tanto o risco conhecido quanto o tamanho da lacuna que impede uma leitura completa sobre a biodiversidade subterrânea.
Fungos e invertebrados são o ponto cego
Entre os grupos dependentes do solo, fungos e invertebrados concentram a maior parte das espécies, mas estão sub-representados na Lista Vermelha. Apenas 503 espécies de invertebrados e fungos foram avaliadas no conjunto considerado pelo estudo. A baixa presença desses organismos limita a compreensão sobre a condição real do solo, porque muitos deles participam de processos que mantêm o funcionamento dos ecossistemas.
Neil Cox, gerente da Unidade de Avaliação da Biodiversidade e líder do estudo, afirma que esta foi a primeira tentativa de avaliar o risco de extinção de espécies dependentes do solo em escala abrangente. Segundo ele, os dados disponíveis se concentram atualmente nos vertebrados. A possibilidade de espécies pouco conhecidas ou ainda não descobertas desaparecerem antes de serem registradas preocupa os pesquisadores. O efeito dessa perda sobre a saúde do solo não pode ser calculado com precisão, mas a expectativa apresentada no estudo é de impacto negativo.
O solo sustenta alimentos e ciclos naturais
A importância do levantamento ultrapassa a contagem de espécies. O solo é fundamental para a sobrevivência humana, e 95% dos alimentos dependem da saúde desse ecossistema. Ele também pode armazenar 27% do carbono necessário para manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius. Dentro desse sistema, espécies dependentes do solo atuam em processos como a decomposição da matéria orgânica e a liberação ou ciclagem de nutrientes.
Os pesquisadores recomendam ampliar a comunicação e a valorização dessa biodiversidade em atividades de manejo da terra, além de fortalecer o conhecimento produzido por universidades, governos e sociedade. A recomendação não elimina as incertezas, mas indica uma direção prática para reduzir a distância entre a importância do solo e o que se sabe sobre seus habitantes. Quando uma floresta é vista apenas pela vegetação acima da superfície, parte decisiva de sua vida permanece invisível. Conhecer essa camada é também reconhecer que conservar um ecossistema começa por proteger os processos que acontecem onde quase ninguém olha.
Com informações da Agência Brasil.
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