Fungos entram no dicionário, chegam a políticas de 14 países e pressionam COP17 por proteção global

Fungos entram no dicionário, chegam a políticas de 14 países e pressionam COP17 por proteção global
Foto: Karunakar Rayker via Flickr (CC BY)." title="A huge wild bee

Movimento internacional quer incluir a biodiversidade subterrânea em leis, áreas protegidas e acordos ambientais.

Uma palavra que durante décadas ficou fora do vocabulário oficial da conservação agora entrou no Cambridge Dictionary e passou a ser usada em debates ambientais de governos, cientistas e organizações internacionais. “Funga” designa o conjunto de fungos existente em determinada área ou período. A mudança ocorre enquanto uma campanha global tenta fazer com que fungos sejam tratados em leis e políticas ao lado de plantas e animais, antes da Conferência da ONU sobre Biodiversidade, a COP17, marcada para outubro de 2026, na Armênia.

A mobilização ganhou força porque a maior parte da diversidade fúngica ainda permanece fora dos mapas de proteção. Segundo um estudo publicado na revista Nature, cerca de 90% dos sistemas subterrâneos de fungos mais diversos do mundo não estão protegidos. Isso inclui redes que vivem no solo e participam da circulação de nutrientes, da formação de matéria orgânica e do armazenamento de carbono.

Uma palavra nova para uma parte antiga da natureza

O termo funga foi incorporado ao Cambridge Dictionary em julho de 2026. Para os editores, havia “extensive evidence” do uso da palavra na linguagem cotidiana e na produção acadêmica. A definição registrada descreve todos os fungos que crescem em uma área específica ou em determinado período.

A inclusão não cria uma nova categoria biológica. Ela dá nome a um conjunto de organismos que já era estudado, mas frequentemente aparecia de forma secundária quando documentos ambientais mencionavam apenas “flora e fauna”. Para a Fungi Foundation, responsável pela campanha, essa ausência contribuiu para deixar os fungos fora da educação, do planejamento público e das estratégias de conservação.

O movimento defende a proposta dos 3Fs, formada por flora, fauna e funga. A ideia é que o reconhecimento nominal seja acompanhado de inventários, financiamento para pesquisa, regras específicas e indicadores capazes de medir a perda ou a recuperação da diversidade fúngica.

Do reconhecimento simbólico às decisões de governo

Em agosto, o Partido Trabalhista, que governa a Austrália, passou a reconhecer explicitamente os fungos ao lado de plantas e animais após uma campanha da organização de ciência cidadã Fungimap e da Planet Fungi. O país abriga uma estimativa de 250 mil espécies fúngicas, mas somente cerca de 12 mil foram descritas formalmente pela ciência.

A diferença entre o que existe e o que foi identificado ajuda a explicar o problema. Sem nome, registro e distribuição conhecida, uma espécie tem menos chance de aparecer em avaliações ambientais ou ser considerada na criação de áreas protegidas. “When fungi are unnamed, they are unmeasured. When they are unmeasured, they are under-protected”, afirmou Stephen Axford, fotógrafo de fungos e cocriador do documentário Planet Fungi.

O compromisso internacional mais concreto até agora é o Fungal Conservation Pledge, lançado pelo Reino Unido e pelo Chile durante as negociações da ONU realizadas na Colômbia, em 2024. O documento prevê o reconhecimento dos fungos como um reino independente da vida em legislações, políticas e acordos nacionais e internacionais, além da adoção de medidas para proteger seus benefícios aos ecossistemas e às pessoas.

Até setembro de 2026, 14 países haviam assinado o compromisso: Reino Unido, Chile, Colômbia, Benim, Espanha, México, Costa Rica, Peru, Equador, Camboja, Guiné, Alemanha, Etiópia e Armênia. A adesão, porém, não significa que todos tenham implantado as mesmas medidas de proteção. O desafio está em transformar a declaração em dados, orçamento, fiscalização e metas verificáveis.

O que já mudou no Brasil

O Brasil deu um passo próprio ao publicar, por meio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a primeira Lista Oficial Nacional de Espécies de Fungos Ameaçadas. O documento reconheceu 24 espécies ameaçadas pela primeira vez e cria uma referência para que pesquisadores e órgãos públicos tratem esses organismos dentro da política nacional de biodiversidade.

Esse avanço interessa diretamente à Amazônia. A floresta é observada principalmente pela cobertura de árvores, pela fauna visível e pela pressão sobre rios e territórios, mas a conservação também depende dos processos que ocorrem abaixo do solo. Redes fúngicas estão relacionadas à decomposição e às interações com plantas, dois processos que precisam ser considerados quando se avalia a integridade de ambientes amazônicos nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

A conexão regional não significa que toda espécie encontrada na Amazônia já esteja catalogada ou ameaçada. Ela mostra, na prática, por que listas nacionais e inventários locais são importantes: sem identificação, não é possível saber quais áreas concentram espécies raras, quais alterações as atingem ou que medidas poderiam reduzir o impacto.

A ciência que pode orientar a proteção

Pesquisadores defendem que os dados sobre fungos sejam incluídos em planos globais de conservação, agricultura, florestas e manejo de espécies silvestres. A campanha também quer que processos ecológicos subterrâneos sejam incorporados ao planejamento de áreas protegidas e que regiões importantes para redes abaixo do solo sejam identificadas e priorizadas.

Na Europa, o governo britânico financia trabalhos do Royal Botanic Gardens, Kew, para sequenciar genomas de fungos. O objetivo é compreender melhor a diversidade e a função desses organismos e investigar aplicações potenciais em medicina, agricultura e restauração ambiental. Existem cerca de 160 mil espécies de fungos conhecidas, diante de uma estimativa de 2,5 milhões no planeta.

Esse número também revela o limite da mobilização. A falta de especialistas, de séries históricas e de levantamentos padronizados dificulta a comparação entre regiões. Além disso, reconhecer a importância ecológica dos fungos não garante automaticamente que uma área será protegida ou que uma espécie receberá recursos para pesquisa.

“The pledge is a big deal because what countries signing it are saying is that they think that fungi should be on equal footing with plants and animals.”

A declaração é da bióloga evolucionista Toby Kiers, vencedora do Tyler Prize for Environmental Achievement em 2026. Ela coordena uma iniciativa da Society for the Protection of Underground Networks voltada a oferecer ferramentas legais para a proteção da biodiversidade fúngica subterrânea.

O próximo teste será na COP17

Segundo a Fungi Foundation, reuniões técnicas preparatórias já incluíram referências à biodiversidade fúngica em recomendações relacionadas à agricultura e à biodiversidade florestal. Na COP17, a campanha pretende obter o reconhecimento formal dos fungos como componente essencial da biodiversidade e dos processos que sustentam os ecossistemas.

O resultado dependerá de como os países transformarão a linguagem política em compromissos mensuráveis. Para acompanhar a proposta internacional, é possível baixar o documento Fungal Conservation Pledge e consultar a campanha de conservação da Fungi Foundation. A conferência será realizada em outubro de 2026, na Armênia, onde a discussão deverá definir se funga continuará sendo apenas uma palavra reconhecida ou passará a orientar decisões ambientais.

Com informações de The Fungi Foundation.

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