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Seis áreas cercadas na Mongólia mostram plantas mais altas e revelam que 90% dos fungos eram desconhecidos

Seis áreas cercadas na Mongólia mostram plantas mais altas e revelam que 90% dos fungos eram desconhecidos
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Experimento indica que redes subterrâneas de fungos podem ajudar a recuperar pastagens e conter a desertificação.

Pesquisadoras estudam fungos micorrízicos em áreas de pastagem na Mongólia
Pesquisadoras estudam fungos micorrízicos em áreas de pastagem na Mongólia. Foto: Tomas Munita/SPUN.

O que parece uma simples cerca em meio à estepe mongol pode esconder uma rede viva capaz de mudar o futuro de um solo degradado. Seis pequenas áreas de pastagem foram isoladas do gado e da ação humana para que cientistas observassem a recuperação da vegetação e investigassem o papel dos fungos subterrâneos no combate à desertificação e à crise climática. Os primeiros resultados, obtidos em 2025, mostraram plantas mais altas dentro das áreas protegidas, enquanto cerca de 90% das sequências de DNA fúngico analisadas no deserto de Gobi pertenciam a espécies ainda desconhecidas pela ciência.

A experiência foi apresentada em 21 de agosto de 2026, durante a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação, a COP17, em Ulaanbaatar, capital da Mongólia. O estudo é liderado pela ecóloga Burenjargal Otgonsuren, em parceria com a bióloga evolucionista Toby Kiers, diretora executiva da Society for the Protection of Underground Networks, conhecida pela sigla SPUN.

A cerca que protege uma cidade invisível

Os organismos estudados são chamados de fungos micorrízicos. Eles vivem associados às raízes das plantas e formam redes extensas dentro do solo. A relação é de benefício mútuo: as plantas fornecem parte do carbono produzido na fotossíntese, enquanto os fungos ajudam as raízes a acessar água e nutrientes, como fósforo e nitrogênio.

Essas redes também contribuem para unir partículas do solo, reduzir a erosão e aumentar a resistência das plantas à seca e a outros estresses ambientais. Por isso, a proposta das pesquisadoras é tratar os fungos como uma espécie de infraestrutura natural, invisível na superfície, mas essencial para a recuperação dos campos.

“É como um banco de sementes, mas de fungos. Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantém o solo unido. São como um sistema circulatório que conecta a vida acima e abaixo do solo”, explicou Toby Kiers.

Na prática, o experimento consiste em cercar pequenos trechos de estepe e deserto para interromper temporariamente a pressão do pastoreio. Com menos pisoteio e menor consumo da vegetação, o solo ganha tempo para se reorganizar. A expectativa é que os locais protegidos funcionem como refúgios de biodiversidade subterrânea e, no futuro, como fontes de fungos locais para projetos de restauração.

O que os primeiros resultados mostram

Burenjargal Otgonsuren instalou seis áreas cercadas em diferentes regiões da Mongólia. A pesquisadora cresceu na província de Uvurkhangai, em uma família ligada ao pastoreio, e contou que aprendeu com o avô a reconhecer plantas associadas à qualidade das pastagens e ao uso medicinal.

“Tornei-me uma ecóloga que pode ajudar a tratar o planeta”, afirmou a cientista, ao explicar como a experiência familiar influenciou sua escolha profissional.

As observações feitas em 2025 apontaram uma diferença visual entre as áreas protegidas e o entorno. A vegetação dentro das cercas já apresentava maior altura do que as plantas encontradas fora delas. O resultado é considerado promissor, mas ainda não encerra a pesquisa. O acompanhamento deverá durar pelo menos três anos, período necessário para avaliar se a recuperação se mantém e como a comunidade de fungos se transforma.

Segundo Burenjargal Otgonsuren, estudos indicam que até 91% das pastagens degradadas da Mongólia poderiam ser recuperadas em algum grau. A estimativa, porém, não significa que todas as áreas possam voltar ao estado original nem que a simples instalação de cercas resolva o problema.

Por trás dos números, espécies que ninguém conhecia

A análise das amostras coletadas no Gobi revelou uma dimensão inesperada da biodiversidade local. Foram identificadas 541 unidades taxonômicas associadas a fungos micorrízicos. Cerca de 90% das sequências de DNA analisadas não correspondiam a espécies conhecidas pela ciência.

Seis áreas cercadas na Mongólia mostram plantas mais altas e revelam que 90% dos fungos eram desconhecidos
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Parte desses organismos parece estar altamente adaptada às condições específicas do deserto e das estepes mongóis. É possível que algumas espécies não ocorram em outras regiões do planeta. Por isso, as pesquisadoras defendem que a solução não seja levar fungos de outros lugares para os solos degradados, mas proteger e multiplicar os organismos nativos.

“Precisamos proteger essas espécies endêmicas e reproduzi-las nós mesmos para depois utilizá-las”, disse Otgonsuren.

A descoberta também muda a forma de olhar para a conservação. A proteção ambiental costuma priorizar animais e plantas visíveis, enquanto a biodiversidade do solo permanece pouco representada nas políticas públicas. De acordo com Toby Kiers, aproximadamente 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana identificados pela SPUN estão fora de áreas protegidas.

O que a pesquisa ensina para a Amazônia

Embora o estudo ocorra em um ambiente de estepe e deserto, a lógica interessa à Amazônia. Solos degradados por desmatamento, queimadas, mineração, abertura de estradas e uso inadequado de pastagens também dependem da recuperação de sua vida subterrânea. Em estados como Pará, Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá e Tocantins, projetos de restauração podem se beneficiar de pesquisas sobre microrganismos adaptados a cada território.

Isso não significa importar fungos da Mongólia ou aplicar diretamente o método sem testes locais. As próprias pesquisadoras alertam para a importância de conservar espécies endêmicas. Na Amazônia, o caminho mais seguro seria mapear os fungos nativos, compreender sua relação com as plantas regionais e testar estratégias de recuperação em parceria com comunidades, universidades e órgãos ambientais.

Segundo a Agência Brasil, o experimento foi apresentado em Ulaanbaatar, Mongólia, em 21 de agosto de 2026, durante a COP17 da Desertificação. A proposta das cientistas é incluir os fungos nos instrumentos de monitoramento da degradação da terra e criar um atlas global com informações produzidas por pesquisadores e comunidades locais.

Como funciona a recuperação do solo

Quando a diversidade de fungos diminui, menos carbono entra no solo e parte da capacidade de mantê-lo unido também se perde. As plantas enfrentam mais dificuldade para crescer, a erosão aumenta e a degradação pode avançar. Com a recuperação da vegetação, o ciclo pode ser invertido: plantas fornecem carbono aos fungos, os fungos ajudam as raízes a obter recursos e o solo se torna mais estável.

Ainda será preciso verificar quanto tempo esse processo leva, quais espécies são mais importantes e se a proteção temporária é suficiente em diferentes condições climáticas. A pesquisa mongol continuará por pelo menos três anos, e os próximos resultados deverão indicar se as áreas cercadas podem se transformar em corredores ou refúgios permanentes de biodiversidade.

Respostas rápidas sobre a pesquisa

Por que os fungos são importantes para as plantas?
Porque os fungos micorrízicos vivem associados às raízes e ajudam as plantas a obter água e nutrientes. Em troca, recebem carbono produzido durante a fotossíntese.

A técnica já está pronta para uso em larga escala?
Não. O experimento ainda está em fase inicial e será acompanhado por pelo menos três anos antes de uma avaliação mais completa.

O método pode ser aplicado na Amazônia?
A possibilidade precisa ser estudada localmente, com espécies nativas e pesquisas que considerem os diferentes solos, plantas e condições ambientais da região.

Com informações de Agência Brasil.

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