Tesouros em risco: desmatamento ameaça geoglifos inéditos revelados pelo projeto LIDAR

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O radar que atravessa o tempo na floresta

A história profunda da Amazônia está sendo reescrita com feixes de luz. Em maio de 2025, o projeto “Desvelando o passado profundo” revelou a existência de 124 novos geoglifos no sul da região, com foco no Acre e em Boca do Acre (AM). O uso da tecnologia LIDAR (Light Detection and Ranging) foi o grande divisor de águas: ao escanear o terreno através da copa das árvores, os pesquisadores conseguiram “enxergar” formas que o olho nu jamais perceberia sob a densa mata. O achado mais impressionante é uma estrutura monumental que se estende por cerca de mil metros, atestando que a Amazônia pré-colombiana era habitada por sociedades com um domínio geométrico e organizacional comparável às grandes civilizações da antiguidade.

Essas estruturas, que datam de um período entre $1000\text{ a.C.}$ e $1000\text{ d.C.}$, não eram simples buracos no chão, mas obras de engenharia precisa. Círculos, quadrados e retângulos escavados com rigor matemático mostram que o povo Aquiry possuía uma sofisticação cognitiva notável. Liderada pelo paleontólogo Alceu Ranzi e pelo arqueólogo Martti Pärssinen, a pesquisa busca agora, por meio da datação de Carbono-14, entender como essas comunidades se organizavam e por que desapareceram tão subitamente, deixando para trás um patrimônio que hoje corre sérios riscos devido ao desmatamento e ao avanço de máquinas pesadas na região.

Arenas de festas, ritos e jogos de borracha

Diferente do que se imaginou por décadas, os geoglifos não eram aldeias permanentes nem fortes militares. Evidências arqueológicas sugerem que eram espaços rituais e cerimoniais. Imagine essas grandes praças geométricas como centros vibrantes onde chefaturas autônomas se reuniam para celebrar alianças políticas, realizar rituais xamânicos e competir em torneios esportivos. O uso de cerâmicas finas e vestígios de grandes banquetes indicam que o consumo de bebidas fermentadas e a hospitalidade eram pilares dessas festividades, servindo para reforçar o prestígio dos chefes e xamãs locais.

Entre as atividades mais curiosas estavam os jogos de bola. Utilizando bolas de borracha maciça — que podiam pesar até 11 kg — os atletas demonstravam força e destreza, movendo o objeto com pés e cabeças em arenas que impressionavam os visitantes. Para os povos indígenas atuais, como os Apurinã, esses locais são conhecidos como kymyrury, moradas sagradas de antepassados e espíritos da natureza. Essas estruturas conectadas por estradas largas funcionavam como portais entre o mundo profano e o sagrado, refletindo uma cosmologia onde a geometria da terra era o espelho das entidades espirituais da floresta.

Glifos encontrados - Foto: Uêslei Araújo/Sema
Foto: Uêslei Araújo/Sema

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O enigma do desaparecimento simultâneo

Um dos mistérios mais instigantes levantados pela pesquisa é a coincidência temporal entre o fim da cultura dos geoglifos e o declínio da civilização Maia, no México. Ambos os grupos atingiram seu ápice entre 250 a.C e 950 d.C, e ambos parecem ter abandonado seus grandes centros por volta do século X. Embora não existam provas de contato direto entre os construtores do Acre e os moradores de Yucatán, os cientistas investigam se eventos climáticos catastróficos de escala continental ou surtos de doenças pré-colombianas poderiam ter causado esse colapso sincronizado.

O abandono foi tão súbito que as práticas de manejo da floresta e manutenção dessas estruturas monumentais cessaram completamente, sem deixar descendentes diretos que dessem continuidade à tradição arquitetônica. O que resta hoje são as cicatrizes geométricas na terra, agora ameaçadas pelo fogo e pelo progresso desenfreado. Preservar esses sítios é essencial não apenas para a arqueologia, mas para compreender como a humanidade interagiu com a maior floresta tropical do mundo de forma complexa e sustentável muito antes da chegada dos europeus.