Incêndios já queimam mais que o dobro de floresta do que há 20 anos, e nos trópicos o avanço é três vezes maior

Incêndios já queimam mais que o dobro de floresta do que há 20 anos, e nos trópicos o avanço é três vezes maior
Foto: Divulgação

Dados da Universidade de Maryland indicam que o fogo virou um dos principais motores da perda florestal no mundo, com a Amazônia entre as áreas sob risco.

Uma floresta tropical úmida como a Amazônia não foi feita para queimar. As chuvas intensas sempre a protegeram do fogo, e as árvores não têm defesas para resistir a ele. Esse cenário está mudando: segundo a Universidade de Maryland, entre 2001 e 2025 os incêndios passaram a destruir mais que o dobro de cobertura arbórea por ano em relação a duas décadas atrás, e mais de três vezes essa quantidade nos trópicos.

Os dados fazem parte de um levantamento analisado pelo WRI Brasil, com autoria de James MacCarthy, Jessica Richter, Sasha Tyukavina, Peter Potapov e Nancy Harris.

Como os pesquisadores chegaram a esses números

A equipe usou imagens de satélite do Landsat para mapear, ano a ano, a área de floresta perdida em incêndios de substituição. São queimadas que matam toda a vegetação viva, ou a maior parte dela. Elas diferem dos fogos de baixa intensidade, que trazem benefícios ecológicos a algumas florestas.

Nem toda perda causada por esse tipo de fogo é permanente. Ainda assim, ela pode alterar por muito tempo a estrutura da floresta e a química do solo.

A série cobre 25 anos, com resolução mais alta que a de outros conjuntos globais de área queimada. Isso ajuda a separar o que foi perdido para o fogo do que foi perdido para a agricultura e a silvicultura. Os dados estão disponíveis no Global Nature Watch, antigo Global Forest Watch.

Anos recordes viraram rotina

Quatro dos cinco piores anos para incêndios florestais no mundo ocorreram desde 2021. O ano de 2024 foi o mais extremo da série, superando o recorde de 2023. Em 2025, os incêndios ficaram em terceiro lugar.

O peso do fogo na perda florestal também cresceu. Entre 2023 e 2025, os incêndios responderam por cerca de 43% de toda a perda anual de cobertura arbórea no planeta. De 2001 a 2022, a média era de aproximadamente 27%.

O fogo se soma a outros fatores persistentes de perda florestal, como agricultura e exploração madeireira. É uma das razões pelas quais a perda segue alta, apesar das promessas dos países de combatê-la.

Em 2025, o Canadá teve a segunda pior temporada de incêndios desde 2001, atrás apenas de 2023. Foi também a temporada mais destrutiva já registrada na União Europeia e a pior da história da Coreia do Sul. Em janeiro, Los Angeles teve grandes incêndios, algo raro nessa época do ano.

O clima aquece, a floresta seca

As mudanças climáticas são um dos principais motores desse avanço. Segundo o estudo, ondas de calor extremo são hoje cinco vezes mais prováveis do que há 150 anos. Temperaturas mais altas secam a paisagem e favorecem queimadas maiores e mais frequentes.

Incêndios já queimam mais que o dobro de floresta do que há 20 anos, e nos trópicos o avanço é três vezes maior
Foto: Divulgação

Há ainda um ciclo de retroalimentação. Quando a floresta queima, libera o carbono guardado em troncos, galhos, folhas e solo. Esse carbono agrava o aquecimento, que por sua vez alimenta novos incêndios. A expansão das atividades humanas em áreas de floresta reforça o processo.

Florestas boreais concentram a maior parte da perda

Mais de 60% da perda de cobertura arbórea por incêndios entre 2001 e 2025 ocorreu em regiões boreais, no extremo norte. Ali, a perda cresceu cerca de 171.400 hectares por ano ao longo do período.

Em 2023, o Canadá queimou quase 7,8 milhões de hectares de cobertura arbórea, cerca de seis vezes a média anual de 2001 a 2022. Em 2024 e 2025, a média foi de 4,8 milhões de hectares por ano, mais de três vezes aquela referência. Na Rússia, as três piores temporadas desde 2001 ocorreram nos últimos seis anos, com pico em 2021: 5,4 milhões de hectares.

As florestas boreais guardam de 30% a 40% de todo o carbono terrestre do planeta, boa parte debaixo da terra, inclusive no permafrost. O derretimento desse solo congelado deixa o carbono mais exposto ao fogo. Pesquisas recentes mostram que essas florestas já estão perdendo capacidade de armazenar carbono.

O que isso significa para a Amazônia

Nos trópicos, o fogo também avança, inclusive nas bacias Amazônica e do Congo. Nos últimos 25 anos, a perda de cobertura arbórea por incêndios na faixa tropical cresceu cerca de 53.100 hectares por ano. O pico veio em 2024, com mais de 4 milhões de hectares perdidos, mais que nos três anos anteriores somados.

Nos últimos três anos, os incêndios responderam, em média, por mais de um terço (35%) da perda de cobertura arbórea em florestas primárias tropicais.

O El Niño pesa nessa conta. Esse fenômeno natural reaparece a cada 2 a 7 anos e traz calor e chuva abaixo da média a certas regiões. Eventos fortes influenciaram as temporadas de 2016 e 2024, quando mais de um quarto de toda a perda por fogo ocorreu em florestas tropicais, cerca do dobro da fatia média de anos sem El Niño.

Em junho de 2026, condições de El Niño estão presentes e devem se fortalecer, segundo a análise. O evento pode se tornar um dos mais fortes dos registros que remontam a 1950, de acordo com o boletim do Centro de Previsão Climática da NOAA.

Impactos que vão além das árvores

Os incêndios destroem casas e infraestrutura, poluem a água potável e causam bilhões de dólares em prejuízos. A fumaça é associada a mais de 1,5 milhão de mortes por ano, segundo a estimativa citada no estudo.

Para quem vive na Amazônia, o cenário é de atenção: uma floresta sem adaptação ao fogo, um El Niño que tende a se intensificar e um histórico recente de recordes. As próximas temporadas de seca na região mostrarão se a tendência tropical de 2024 se repete, e os dados do Global Nature Watch seguem sendo atualizados para acompanhar esse movimento.

Com informações de WRI Brasil.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA