
Na época da florada, o tronco da jabuticabeira parece coberto de algodão. As pequenas flores brancas brotam direto da casca, do pé da árvore aos galhos mais grossos, e semanas depois dão lugar às bolinhas pretas que todo brasileiro conhece. Esse jeito de florescer tem nome, caulifloria, e uma pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, ajudou a explicar de onde saem essas flores e o que faz a árvore decidir que é hora de florir.
O que é caulifloria
Na maioria das árvores frutíferas, as flores nascem nas pontas dos ramos novos, entre as folhas. Nas plantas caulifloras, flores e frutos se formam no caule e nos ramos lenhosos mais velhos. A jabuticabeira (Plinia cauliflora, que carrega o fenômeno no próprio nome científico, e espécies próximas do mesmo gênero) é o exemplo mais famoso no Brasil. Ela pertence à família das mirtáceas, a mesma da goiaba, da pitanga e do jambo.
A Amazônia tem o seu exemplo ilustre: o cacau (Theobroma cacao), nativo da região, também é caulifloro. As flores e os frutos do cacaueiro saem direto do tronco e dos galhos grossos, como na jabuticabeira.
O que a pesquisa da USP encontrou
O trabalho foi a tese de doutorado da pesquisadora Girlaine Pereira Oliveira, defendida em 2018 na Esalq. Ela acompanhou plantas da variedade ‘Sabará’, uma das variedades mais conhecidas da fruta, no campo experimental do Departamento de Produção Vegetal da escola, em 2016 e 2017. O estudo combinou análises morfológicas e anatômicas das gemas reprodutivas, a influência de fatores do ambiente na floração e na fixação dos frutos e o acompanhamento das características físicas e químicas das jabuticabas até a maturação.
Segundo a tese, as gemas que dão origem às flores se formam depois de uma descamação intensa da casca e resultam da atividade das células do câmbio vascular, a camada de tecido que faz o tronco crescer em espessura. Em outras palavras, as flores não ficam guardadas prontas sob a casca: a própria renovação do tronco cria as estruturas de onde elas vão brotar.
Parte desses resultados foi publicada em 2019 na revista científica Scientia Horticulturae, no artigo sobre a origem e o desenvolvimento das gemas reprodutivas da jabuticabeira ‘Sabará’, assinado por Girlaine Pereira Oliveira, Jéssika Angelotti-Mendonça, Francisco André Ossamu Tanaka, Simone Rodrigues da Silva e João Alexio Scarpare Filho.
Frio e falta de água disparam a florada
A pesquisa também observou o que faz as gemas acordarem. Segundo o trabalho, fatores do ambiente, como a queda da temperatura e o estresse hídrico, a falta de água no solo, estão ligados à indução da brotação das gemas floríferas. Nas plantas acompanhadas em Piracicaba, a floração se concentrou principalmente na primeira quinzena de agosto, depois do período mais frio e seco do ano.
Isso ajuda a entender uma cena comum nos quintais: a jabuticabeira passa semanas quieta e, de repente, o tronco inteiro amanhece branco. A árvore responde ao fim de uma fase de frio e seca, e a florada vem em massa.
Por que florir no tronco
A caulifloria é muito mais comum nas florestas tropicais do que nas regiões temperadas. Entre as explicações discutidas pela botânica estão a facilidade de acesso para os animais que polinizam as flores e dispersam as sementes, como morcegos, aves e mamíferos que circulam pelo tronco e pelo sub-bosque, e a sustentação de frutos pesados, que ficam mais firmes presos à madeira grossa do que em ramos finos. As hipóteses não se excluem, e o peso de cada uma muda de espécie para espécie.
Uma árvore que pede paciência
Quem planta jabuticabeira por semente costuma esperar bastante pela primeira colheita. Segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), algumas árvores podem levar até uma década para frutificar. Por isso, a pesquisa básica sobre como e quando a planta floresce interessa a quem quer ampliar o cultivo comercial da fruta, que ainda tem pouca literatura científica, como a própria tese registra.
Entenda
- Caulifloria: flores e frutos que nascem no tronco e nos ramos lenhosos mais velhos.
- Exemplos: jabuticabeira, no Brasil, e cacaueiro, nativo da Amazônia.
- O que a Esalq/USP mostrou: as gemas das flores se formam depois da descamação da casca, a partir do câmbio vascular, e a brotação é induzida pelo frio e pela falta de água.
Com informações da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e da revista Scientia Horticulturae.
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