
Estudo do Instituto Trata Brasil e da GO Associados cruza clima, indústria e poços sem controle na capital do Amazonas.
A capital de um estado banhado pela maior bacia hidrográfica do mundo tem milhares de poços funcionando fora do radar do poder público. Estima-se que mais de 27 mil poços operem em Manaus, enquanto cerca de 5 mil estão registrados nos órgãos de controle. A diferença ajuda a explicar por que o estudo “O desafio da segurança hídrica na região de Manaus e políticas de sustentabilidade”, do Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, aponta risco crítico de escassez na cidade até 2040.
A conclusão contraria a imagem de abundância associada à Amazônia. O problema, segundo o trabalho, não é falta de rio, e sim a combinação de estiagens agravadas pela mudança climática, consumo crescente e uso pouco fiscalizado de água subterrânea.
Uma cidade abastecida pelo Rio Negro, mas não só por ele
Manaus tem cerca de 2 milhões de habitantes (IBGE, 2025) e 97% de cobertura de abastecimento de água. O sistema é misto: quatro sistemas captam água superficial no Rio Negro e um conjunto de 50 poços retira água do subsolo. O resultado é uma matriz com 84% de origem superficial e 16% subterrânea.
Esses números se referem ao sistema público. Fora dele, indústrias e outros usuários mantêm captações próprias, e é nesse universo paralelo que a conta deixa de fechar.
A conta que não fecha: poços sem registro
Segundo o estudo, até 2022 a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais do Brasil (CPRM) tinha registro de quase 5 mil poços em operação em Manaus. Os autores estimam 27 mil em funcionamento. Para eles, a distância entre os dois números evidencia uma lacuna relevante de fiscalização, tanto na captação subterrânea quanto na superficial sem outorga.
A outorga é o instrumento que disciplina e controla as retiradas de água, previsto na Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997. No Amazonas, porém, a obrigatoriedade só passou a valer em 2016, por portaria normativa do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), aplicável aos 67 municípios do estado, incluindo Manaus. Ou seja, quase duas décadas separam a lei federal da regra estadual.
O estudo alerta que o uso individual e descontrolado de um recurso compartilhado pode levar ao colapso coletivo. A água subterrânea, lembra o texto, também desempenha papel primordial no equilíbrio da vazão das águas superficiais, o que liga o problema dos poços ao próprio Rio Negro.
O que a ANA projeta para 2040
Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o impacto potencial da mudança do clima na disponibilidade hídrica da região em 2040 está classificado, majoritariamente, como “classe crítica”, com alta probabilidade de que a oferta se torne insuficiente no médio prazo. Uma parcela menor aparece em “classe alerta”.
Pelas projeções da agência, as retiradas totais de água devem crescer 7% até 2040. O dado de maior peso é a demanda do setor industrial, com alta de 43%, seguida pelo abastecimento humano, com 23%. Num polo industrial como o de Manaus, parte das empresas ainda usa água de captação subterrânea para operar, o que pressiona justamente o recurso que o estudo quer poupar.
A indústria na rede pública: quem ganha
Um dos caminhos centrais do estudo é ampliar a adesão da indústria ao sistema público. A pesquisa aponta que isso tende a reduzir os custos fixos do sistema e viabilizar o subsídio cruzado, mecanismo que garante tarifas mais baixas às categorias residencial, social e vulnerável. Na prática, quando grandes consumidores saem da rede, o custo recai sobre quem permanece. Quando entram, ajudam a financiar a universalização.
Para Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, o tema passa por planejamento. “Segurança hídrica se constrói com planejamento e mitigação de risco, e o caso de Manaus mostra isso com clareza. A cidade depende fortemente do Rio Negro, mas também recorre a poços que muitas vezes operam sem outorga e sem controle adequado. Investir hoje em reúso, uso racional e controlado dos poços, monitoramento e proteção de mananciais reduz riscos para a população e para as empresas. É assim que o País avança rumo à universalização do saneamento, com responsabilidade e visão integrada”, destaca.
O diretor-presidente da Águas de Manaus, Pedro Freitas, defende a mobilização de vários setores. “Estamos empenhados em mobilizar os mais diversos setores nesse tema porque sabemos que o saneamento é um desafio coletivo. Isso passa por ampliar a conscientização sobre a diversificação da matriz hídrica de Manaus, avançar no combate às perdas e preservar as nossas fontes naturais de água”, afirma.
O que o estudo recomenda
O trabalho organiza a resposta em três eixos:
- diversificar a matriz hídrica com fontes de origem alternativa;
- poupar as fontes naturais, sobretudo as subterrâneas;
- gerenciar perdas e desperdícios nos setores que mais consomem água.
Entre as medidas listadas estão tratamento e reaproveitamento de águas residuais, reúso em processos não potáveis, captação de água de chuva, monitoramento e automação para detectar perdas, reflorestamento de margens de rios, conservação de nascentes e recarga artificial de aquíferos. Educação ambiental e alinhamento às exigências regulatórias completam a lista.
O recado para o restante da Amazônia
Manaus é um caso específico, mas o raciocínio vale para outras cidades amazônicas: abundância de rios não garante abastecimento seguro se a captação não é medida, a demanda cresce e as secas ficam mais intensas. O estudo está disponível em consulta ao documento completo, e as recomendações dependem agora de regularização dos poços e da adesão de mais indústrias à rede pública antes que o horizonte de 2040 se aproxime.
Com informações de Instituto Trata Brasil e GO Associados.
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