
Levantamento combina imagens de radar, sensoriamento remoto, inteligência computacional e auditoria de campo para localizar a produção cacaueira amazônica.
O cacau aparece onde a floresta já havia sido alterada
Um novo mapa da cacauicultura amazônica reúne 121 mil hectares plantados no Pará e em Rondônia e revela uma característica central da expansão da cultura. O cultivo está concentrado principalmente em áreas que já haviam sido modificadas pelo uso da terra, com destaque para pastagens e vegetação secundária. O cruzamento com bases de monitoramento ambiental indica que o avanço do cacaueiro não ocorre por meio da derrubada de floresta nativa.
O levantamento transforma a distribuição territorial do cacau em uma imagem mais precisa da produção nos dois estados. Além de localizar os plantios, o estudo caracteriza a ocupação das áreas e relaciona a cultura a uma possibilidade de restauração produtiva. Em vez de deixar terrenos alterados sem uso ou mantê-los sob pastagens degradadas, o cultivo pode devolver produtividade a essas paisagens e gerar renda para famílias rurais, segundo a premissa apresentada pelos responsáveis pelo trabalho.
Pará atualiza os dados e Rondônia ganha sua primeira linha de base
No Pará, o mapeamento foi atualizado para 2024. O estado já havia sido incluído em um levantamento anterior, realizado em 2022, e agora passa a contar com uma fotografia territorial mais recente da produção cacaueira. A atualização permite observar a distribuição dos plantios em um intervalo posterior ao primeiro levantamento e qualificar a leitura sobre a expansão da cultura em áreas alteradas.
Em Rondônia, o trabalho tem outro papel. O levantamento estabelece a primeira linha de base territorial do cultivo de cacau no estado, criando uma referência para acompanhar a localização e as características da atividade. A combinação entre a atualização paraense e o diagnóstico inicial rondoniense forma um panorama regional com escalas diferentes, mas integrado por uma mesma pergunta prática: onde a cacauicultura está instalada e em que tipo de área ela se desenvolve?
Radar, satélite e campo formam o raio X da produção
Para construir esse mapa, o estudo técnico multitemporal reuniu sensoriamento remoto, imagens de radar, inteligência computacional e auditoria direta em campo. As imagens ajudam a identificar padrões territoriais dos cultivos, enquanto os sistemas computacionais organizam e interpretam grandes volumes de informação. A verificação em campo acrescenta uma etapa de conferência necessária para qualificar aquilo que aparece nos registros obtidos por satélite e radar.
Os pesquisadores também cruzaram as informações dos plantios com bases do TerraClass e do Prodes, ambos associados ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. O TerraClass contribui para classificar o uso e a cobertura da terra em áreas alteradas. O Prodes acompanha o desmatamento da Floresta Amazônica por satélite. A leitura conjunta desses dados permitiu avaliar a relação entre o avanço do cacaueiro, as áreas anteriormente ocupadas por pastagens e a vegetação secundária.
Pará lidera a produção e Rondônia se destaca por hectare
Os números da produção ajudam a dimensionar o peso dos dois estados. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a região Norte responde por metade da safra nacional de cacau. São cerca de 148 mil toneladas em um total aproximado de 297 mil toneladas colhidas no Brasil. O Pará concentra aproximadamente 137,5 mil toneladas de amêndoas secas, volume equivalente a 46% do cacau brasileiro e a 92% da produção regional.
Rondônia aparece como o segundo maior produtor da região Norte e o quarto maior do País, com colheita estimada em 8,6 mil toneladas de amêndoas. Embora tenha área cultivada menor que a do Pará, o estado registra uma produtividade média superior a 1.250 quilos por hectare, uma das maiores do Brasil. O contraste entre escala territorial e rendimento por área mostra que a geografia do cacau não depende apenas do tamanho dos plantios, mas também da eficiência técnica alcançada em cada estado.
Uma restauração produtiva que ainda precisa ser acompanhada
A principal consequência indicada pelo mapeamento é a possibilidade de associar produção agrícola e recuperação de áreas alteradas. O cacau pode ocupar terrenos anteriormente destinados a pastagens degradadas e vegetação secundária, mantendo uma atividade econômica em paisagens que já perderam parte de sua cobertura original. Essa relação é importante para a sustentabilidade da cadeia e para a rastreabilidade exigida pelos mercados consumidores, que precisam conhecer a origem territorial da produção.
O resultado, porém, deve ser lido com precisão. O fato de o avanço identificado ocorrer sobre áreas alteradas não significa que todos os plantios tenham a mesma condição ambiental ou que cada área tenha recuperado o solo no mesmo grau. O mapa mostra a localização e a relação territorial da cultura com áreas já modificadas, enquanto a restauração produtiva depende das características e do manejo de cada plantio. Os resultados do trabalho foram apresentados em 26 de agosto de 2026, durante a ExpoCacau, em Ilhéus, na Bahia, feira que reuniu mais de 6 mil participantes e cerca de 60 expositores. A pesquisa foi liderada por Adriano Venturieri, da Embrapa Amazônia Oriental. Ao revelar onde o cacau cresce, o levantamento também mostra que a produção amazônica pode ser medida não apenas pelo volume colhido, mas pela capacidade de devolver função econômica a áreas que já haviam sido transformadas.
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