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Microplásticos em esgotos podem estar aumentando emissões de metano

Microplásticos em esgotos podem estar aumentando emissões de metano
Ilustração: IA

Estudo chinês revela que partículas plásticas modificam comunidades microbianas e alteram ciclos biogeoquímicos em sistemas de esgoto urbano.

Microplásticos não param nas estações de tratamento de água. Antes de chegar lá, eles já passam por um ambiente pouco estudado mas extremamente ativo: os esgotos urbanos. E o que acontece nesse trajeto subterrâneo pode estar mudando o metabolismo de bilhões de micróbios, com impactos diretos nas emissões de gases de efeito estufa.

Um estudo publicado em junho de 2026 na revista Environmental Science and Ecotechnology (DOI: 10.1016/j.ese.2026.100726) mostra que os esgotos não são apenas canais passivos, mas verdadeiros biorreatores onde microplásticos envelhecem quimicamente e reorganizam as comunidades microbianas. O resultado: uma queda drástica na produção de sulfeto de hidrogênio (H₂S, aquele cheiro de ovo podre), mas um potencial aumento nas emissões de metano (CH₄), gás com poder de aquecimento global 28 vezes maior que o CO₂.

Como microplásticos envelhecem dentro dos esgotos

Pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Pequim e do Grupo de Obras de Água de Pequim conduziram um experimento de 120 dias com reatores de esgoto de concreto alimentados com esgoto doméstico real. Eles testaram concentrações ambientalmente relevantes de microplásticos de PET (polietileno tereftalato, comum em garrafas) e PBAT (polímero biodegradável usado em embalagens), em 30, 100 e 500 partículas por litro.

Segundo o estudo, radicais hidroxila (·OH) gerados pela oxidação de sulfeto e reações redox no ambiente de baixo oxigênio dos esgotos atacam as ligações éster dos polímeros, fragmentando as partículas, aumentando a rugosidade da superfície e introduzindo grupos funcionais com oxigênio. O PBAT biodegradável se degradou 11,3% mais rápido que o PET, com aumento de 16,3% no índice de carbonila (marcador de oxidação).

“Os microplásticos não são inertes. No ambiente de esgoto, eles sofrem mudanças físico-químicas enquanto reprogramam o metabolismo da comunidade microbiana residente”, afirmam os autores. “Essas partículas desencadeiam uma cascata de efeitos: estresse oxidativo, danos à membrana celular e reestruturação da comunidade, deslocando o equilíbrio em direção à metanogênese.”

Comunidades microbianas sob pressão

A presença de microplásticos alterou profundamente a ecologia microbiana dos esgotos. Bactérias hidrolíticas e fermentativas caíram até 63,4%, enquanto bactérias acetogênicas produtoras de hidrogênio e arqueias metanogênicas aumentaram entre 48,4% e 67%. Bactérias redutoras de sulfato, responsáveis pela produção de sulfeto de hidrogênio, caíram até 49,7%.

No nível genético, a exposição a 500 partículas por litro reduziu genes que codificam enzimas-chave do ciclo do enxofre (aprA/B e dsrA/B) em 40,4% a 55,5%, enquanto aumentou genes de metanogênese hidrogenotrófica (fdwG, ftr, mch, mtd, mer). Isso se traduziu em uma redução de 89,5% na concentração de sulfeto, mas potencialmente elevou a produção de metano.

Essa troca metabólica complica as estratégias convencionais de controle simultâneo de H₂S e CH₄ em sistemas de esgoto. Reduzir o mau cheiro e a corrosão pode significar aumentar as emissões de gases de efeito estufa e o risco de acúmulo de gases combustíveis em trechos mal ventilados.

Entenda o caso

Esgotos urbanos concentram entre 10 e 470 partículas de microplásticos por litro. Apesar da escala das redes subterrâneas, a pesquisa sempre focou no transporte e remoção dessas partículas em estações de tratamento. Mas esgotos são biorreatores dinâmicos que hospedam comunidades microbianas diversas, mediando ciclos biogeoquímicos críticos de enxofre e metano. Este estudo é um dos primeiros a mapear os impactos ecológicos dos microplásticos dentro do próprio sistema de esgoto, antes do tratamento.

Implicações para gestão de águas urbanas

Os achados carregam implicações práticas significativas. Primeiro, demonstram que sistemas de esgoto são reatores ativos que “pré-envelhecem” microplásticos, aumentando potencialmente sua reatividade ambiental e efeitos ecotoxicológicos antes de chegarem às estações de tratamento.

Segundo, a mudança metabólica de sulfidogênese para metanogênese sugere que a poluição por microplásticos pode inadvertidamente trocar problemas de odor e corrosão por aumento de emissões de gases de efeito estufa.

Os pesquisadores enfatizam que a gestão eficaz de microplásticos deve ir além das estações de tratamento, incluindo redução na fonte (como limitar liberação de microfibras de lavanderias e pré-tratar efluentes industriais). Instalar sistemas de captura em pontos-chave do esgoto poderia restringir o transporte a jusante de microplásticos “pré-envelhecidos”, oferecendo um ponto crítico de intervenção.

Conexão com a Amazônia

Embora o estudo tenha sido conduzido na China, cidades amazônicas como Manaus, Belém e Macapá enfrentam desafios similares. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), a coleta de esgoto na região Norte é a mais baixa do Brasil (apenas 13,6% em 2023), e muitos sistemas operam sem tratamento adequado, lançando efluentes diretamente em rios.

A presença de microplásticos nesses efluentes não tratados pode estar acelerando a metanogênese em ambientes aquáticos amazônicos, que já são fontes naturais significativas de metano. O rio Amazonas e seus afluentes respondem por cerca de 29% das emissões fluviais globais de metano, segundo estudo publicado na Nature Geoscience. Adicionar microplásticos a essa equação pode agravar o problema.

Próximos passos e monitoramento

O estudo foi financiado pelo Programa Beijing Nova e pela Comissão Municipal de Ciência e Tecnologia de Pequim. Os pesquisadores sugerem que futuras investigações devem avaliar o efeito de longo prazo de microplásticos pré-envelhecidos em estações de tratamento e em corpos d’água receptores.

“O que é particularmente preocupante é que esse processo pode criar um efeito legado nos microbiomas de esgoto, onde comunidades ficam presas em um estado determinístico adaptado ao estresse, que pode persistir mesmo se a entrada de microplásticos for reduzida”, alertam os autores.

A próxima etapa envolve mapear pontos críticos de acúmulo de microplásticos em sistemas de esgoto brasileiros, especialmente em capitais amazônicas, e testar tecnologias de captura precoce antes que as partículas envelheçam e perturbem o equilíbrio microbiano.

Perguntas frequentes

Como os microplásticos chegam aos esgotos?
Principalmente por lavagem de roupas sintéticas (microfibras), descarte de embalagens fragmentadas, pneus de veículos e produtos de higiene pessoal com microesferas.

O aumento de metano nos esgotos é perigoso?
Sim. Além de ser um potente gás de efeito estufa, o metano é combustível e pode se acumular em trechos mal ventilados, criando risco de explosão.

É possível filtrar microplásticos antes que entrem nos esgotos?
Sim. Filtros de lavanderia, pré-tratamento de efluentes industriais e sistemas de captura em pontos-chave do esgoto são medidas viáveis que estão sendo testadas globalmente.

Com informações de Chinese Academy of Sciences.

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