Muçuã vive em igarapé raso, enterra-se no barro na seca e fecha o casco com o plastrão articulado

Muçuã cabe na palma da mão, vive em igarapé raso e esconde o pescoço lateralmente dentro do casco
Ilustração: Revista Amazônia

O muçuã é um quelônio pequeno dos igarapés e alagados da Amazônia, com plastrão articulado, dieta variada e capacidade de se enterrar no barro quando a água some.

Um quelônio de porte pequeno que fecha o casco

Na margem de um igarapé raso, entre água parada e fundo lodoso, o muçuã (Kinosternon scorpioides) pode passar por uma pedra escura apoiada no leito. É um dos menores quelônios da região. Em estudo publicado em 2024 no Brazilian Journal of Biology, pesquisadores que capturaram 206 indivíduos na zona de transição entre Amazônia e Cerrado, no Nordeste do Brasil, mediram adultos com carapaça de 98 a 178 milímetros de comprimento, a maioria entre 12 e 16 centímetros. Os machos maiores podem passar disso: o guia Turtles of the World cita até 27 centímetros para a subespécie nominal, e o catálogo de quelônios do PPBio, vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), registra peso de até 500 gramas.

O que define a proteção do animal é o casco. O muçuã pertence à família Kinosternidae e à subordem Cryptodira. Segundo o guia Turtles of the World, o plastrão, a parte de baixo do casco, tem uma articulação móvel entre as placas peitoral e abdominal. É essa dobradiça que permite erguer a parte da frente e a de trás contra a carapaça e fechar a abertura do casco depois que a cabeça e as patas foram recolhidas. O grau de fechamento varia conforme a fonte: o guia observa que o plastrão nem sempre cobre toda a abertura, enquanto o catálogo do PPBio/INPA o descreve como articulado e alongado o bastante para o fechamento completo da carapaça.

Quando é manuseado ou ameaçado, o muçuã também recorre à química. O Zoológico de Brasília informa que a espécie libera uma substância de odor forte, o almíscar, produzida por glândulas próximas às patas traseiras.

Pescoço recolhido para trás, não para o lado

Os quelônios se dividem em dois grandes grupos conforme a forma de esconder a cabeça. Em estudo publicado na Scientific Reports em 2017, pesquisadores ligados ao Museu Jurassica e à Universidade de Friburgo, na Suíça, descrevem que os criptodiros recolhem o pescoço no plano vertical, entre as cinturas escapulares, enquanto os pleurodiros dobram o pescoço para o lado e protegem a cabeça sob a margem anterior da carapaça. O muçuã é criptodiro, assim como os demais representantes de sua família: a cabeça é puxada diretamente para trás, para dentro do casco.

Os pleurodiros da América do Sul pertencem às famílias Chelidae e Podocnemididae, esta última com as tartarugas e os tracajás do gênero Podocnemis. São eles que escondem o pescoço de lado nos rios amazônicos. O muçuã segue outro caminho: recolhe cabeça e patas e conta com o plastrão articulado para fechar a abertura.

Águas rasas, vegetação e barro na seca

O muçuã ocorre do México à Argentina, de acordo com o PPBio/INPA, e é um dos quelônios de distribuição mais ampla da região neotropical. No estudo de 2024, os autores descrevem a preferência por ambientes aquáticos rasos, sem correnteza, com presença de vegetação e água entre 27 e 30 graus Celsius. A espécie ocupa planícies alagadas, igarapés e áreas de terra mais seca, e os animais se deslocam conforme a água disponível: o trabalho registrou movimentos de até 7,41 quilômetros entre as áreas de desova e as de alimentação.

Quando a seca reduz o igarapé ou a lagoa, o animal se enterra. O guia Turtles of the World registra que, se o curso de água seca, o muçuã se enterra no fundo de barro até a chuva seguinte. Pesquisadores da Baixada Maranhense, em artigo de 2025 no Brazilian Journal of Biology, descrevem esse comportamento como estivação por autoenterramento, que reduz a demanda metabólica e ajuda o animal a enfrentar o calor da estação seca.

Dieta onívora com tendência carnívora

O PPBio/INPA classifica o muçuã como onívoro com inclinação carnívora, que consome frutos, sementes, algas, peixes, anfíbios e carniça. O Turtles of the World acrescenta insetos e caramujos à lista. A flexibilidade permite aproveitar o que o fundo e as margens oferecem em cada época.

Ovos no chão e pressão sobre as populações

O muçuã faz ninhos rasos em terra. O PPBio/INPA informa que a fêmea deposita de 2 a 6 ovos e que o sexo dos filhotes depende da temperatura de incubação. No Nordeste, o estudo de 2024 encontrou oito ninhos enterrados junto a capim do gênero Andropogon, a cerca de 10 centímetros de profundidade, com 3 a 4 ovos cada, todos na estação seca, entre agosto e dezembro.

A espécie é avaliada como Menos Preocupante (LC) na avaliação do ICMBio, sem risco de extinção no conjunto do território. Isso não elimina as pressões locais. O PPBio/INPA aponta que há declínios locais por causa do consumo de adultos e de ovos e da perda de hábitat. Na área estudada em 2024, os pesquisadores relataram que búfalos e porcos introduzidos ameaçam a sobrevivência dos ovos e o recrutamento de filhotes. Os igarapés rasos e as margens com vegetação concentram, portanto, tanto a alimentação quanto a desova da espécie.

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